O empobrecimento financeiro do Corinthians após a construção da Neo Química Arena (inaugurada em 2014) é amplamente citado por dirigentes e analistas como o principal catalisador da crise financeira estrutural do clube. Embora o estádio seja um sucesso de público e gere receitas brutas altíssimas, a engenharia financeira desenhada para sua construção acabou sufocando o caixa do clube por mais de uma década.
1. Perda de Receita Corrente (O "Efeito Bilheteria Zero")
Durante anos, o Corinthians adotou um modelo em que 100% da arrecadação de bilheteria e eventos da Neo Química Arena era repassada diretamente para o fundo imobiliário que administra o estádio para o pagamento das parcelas do financiamento.
O impacto: Um clube que antes contava com dezenas de milhões de reais anuais vindos do Pacaembu para manter seu futebol passou a ter "receita zero" de ingressos. O faturamento operacional foi severamente reduzido, obrigando o clube a recorrer a empréstimos bancários tradicionais para cobrir despesas cotidianas, gerando uma bola de neve.
2. A Armadilha dos Juros e a Correção Monetária
O financiamento original contraído junto à Caixa Econômica Federal (via repasse do BNDES) foi de R$ 400 milhões em 2013. No entanto, devido a períodos de inadimplência e à estrutura contratual, o saldo devedor saltou drasticamente.
Com a renegociação concluída no final de 2022, a taxa de correção foi fixada em CDI + 2% ao ano.
Sob o cenário macroeconômico brasileiro de taxas de juros elevadas, o clube paga anualmente cerca de R$ 100 milhões apenas para abater os juros, fazendo com que o saldo principal demore a cair significativamente.
Estimativas de 2026 apontam que o Corinthians já desembolsou perto de R$ 600 milhões (ou mais de R$ 1 bilhão em valores corrigidos), mas o saldo devedor registrado no balanço ainda gira em torno de R$ 630 milhões.
Com as receitas de bilheteria retidas para a Arena e os contratos de naming rights (como o acordo com a Hypera Pharma / Neo Química) também carimbados para pagar o estádio, o clube perdeu capacidade de investimento. Para manter elencos competitivos e pagar impostos, gestões sucessivas acumularam déficits.
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SÃO CARLOS
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS E BIOLÓGICAS
DEPARTAMENTO DE GEOGRAFIA, TURISMO E HUMANIDADES
Do espetáculo das arenas de futebol, os efeitos perversos
de uma paixão na cidade de São Paulo
Fernando Seike Tamura
Sorocaba
2025
Fernando Seike Tamura
Do espetáculo das arenas de futebol, os efeitos perversos
de uma paixão na cidade de São Paulo
Trabalho de Conclusão de Curso
apresentado
ao Departamento de
Geografia, Turismo e Humanidades da
Universidade Federal de São Carlos, como
requisito para obtenção do título de
Bacharel em Turismo
Orientadora: Profa. Dra. Vanda Aparecida
da Silva
Sorocaba
2025
Tamura, Fernando Seike
Do espetáculo das arenas de futebol, os efeitos perversos
de uma paixão na cidade de São Paulo / Fernando Seike
Tamura -- 2025.
68f.
TCC (Graduação) - Universidade Federal de São Carlos,
campus Sorocaba, Sorocaba
Orientador (a): Profa. Dra. Vanda Aparecida da Silva
Banca Examinadora: Prof. Dr. Cesar Alves Ferragi, Prof.
Dr. José Eduardo de Salles Roselino
Bibliografia
1. Modernização do futebol. 2. Mercantilização do
futebol. 3. Gentrificação nos estádios. I. Tamura,
Fernando Seike. II. Título.
Ficha catalográfica desenvolvida pela Secretaria Geral de Informática
(SIn)
DADOS FORNECIDOS PELO AUTOR
Bibliotecário responsável: Maria Aparecida de Lourdes Mariano
CRB/8 6979
Agradecimentos
Quero agradecer de coração aos meus pais, que se sacrificaram tanto para me
dar essa chance. Sem o incentivo, apoio e confiança deles, principalmente quando eu
mesmo duvidava de mim, eu não teria chegado até aqui. Aos meus irmãos, valeu
demais pela parceria constante e por sempre me mostrarem o que é ser realmente
irmão.
À minha orientadora, Profa. Dra. Vanda Aparecida da Silva, meu muito obrigado
pelo apoio, paciência e por todas as dicas que fizeram meu trabalho ganhar vida. Sem
ela, esse capítulo da minha vida não teria sido encerrado.
Ao Prof. Dr. Cesar Alves Ferragi, sou imensamente grato pelo incentivo em
encontrar meu tema e por estimular a busca por uma pesquisa que realmente me
motivasse.
Ao Prof. Dr. José Eduardo de Salles Roselino, agradeço por aceitar fazer parte
da minha banca e compartilhar essa paixão pelo futebol comigo.
Aos meus amigos, obrigado por dividirem tantos momentos inesquecíveis e por
todo o apoio nesses anos. Em especial, um agradecimento especial à Carolina, que
esteve ao meu lado em todos os momentos, e à Mariana, pela parceria e por todas as
histórias que vivemos juntos.
E, por fim, obrigado a todos os professores que passaram pela minha vida.
Cada um de vocês deixou uma marca especial nessa jornada.
Resumo
Este trabalho busca entender como a modernização e mercantilização do futebol tem
contribuído para a gentrificação dos estádios, impactando a presença e a experiência
dos torcedores. As transformações estruturais e mercadológicas do esporte tornaram
o acesso mais elitizado, afastando as camadas populares e enfraquecendo a
identidade cultural das arquibancadas. A partir de um resgate histórico, o estudo
reflete sobre como o futebol, que sempre foi do povo, está se tornando um produto de
luxo, e o que isso significa para a sociedade e para a relação afetiva com o esporte.
Nas considerações finais, conclui-se que a modernização desenfreada do esporte
afasta seu principal protagonista, o torcedor, tornando essencial refletir sobre os
rumos que estamos dando ao futebol.
Palavras chaves: arenas de futebol; gentrificação; experiência; elitização; São Paulo
SP
Abstract
This work aims to understand how the modernization and commodification of football
has contributed to the gentrification of stadiums, impacting the presence and
experience of fans. The sport's structural and market transformations have made
access more elitist, pushing away popular social groups and weakening the cultural
identity of the stands. Through a historical overview, the study reflects on how football,
which has always belonged to the people, is becoming a luxury product, and what this
means for society and the emotional connection with the sport. In the final
considerations, it is concluded that the rampant modernization of the sport alienates
its main protagonist, the fan, making it essential to reflect on the direction in which we
are taking football.
Key words: football arenas; gentrification; experience; elitization; São Paulo-SP
LISTA DE SIGLAS
BBC - Corporação Britânica de Radiodifusão
CBD - Confederação Brasileira de Desportos
CBF - Confederação Brasileira de Futebol
CND - Conselho Nacional de Desportos
ESPN - Rede de Programação de Entretenimento e Esportes
FGV - Fundação Getulio Vargas
FIFA - Federação Internacional de Futebol
GE - Globo Esporte
SAF - Sociedade Anônima do Futebol
UEFA - União das Associações Europeias de Futebol
7
Sumário
1.INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 8
2. METODOLOGIA .............................................................................................................. 11
3.HISTÓRIA DO FUTEBOL ................................................................................................. 12
4. O FUTEBOL NO BRASIL ................................................................................................ 15
4.1. TORCIDAS ORGANIZADAS NO ESTADO DE SÃO PAULO................................. 19
4.2. TRAGÉDIAS DO FUTEBOL .................................................................................. 22
4.3. MODERNIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO .................................................... 27
5. MEGA EVENTOS, MODERNIZAÇÃO DAS ESTRUTURAS DOS ESTÁDIOS E OS
TORCEDORES CONSUMISTAS ......................................................................................... 30
5.1. GENTRIFICAÇÃO DO FUTEBOL .......................................................................... 43
5.2. FINANCEIRIZAÇÃO E “SPORTWASHING” NO FUTEBOL ................................... 49
5.2.1. A RELAÇÃO ENTRE CUSTO TORCEDOR E A RENDA SALARIAL DOS
FREQUENTADORES. .................................................................................................. 53
6.CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................................. 59
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................................................... 60
8
1.INTRODUÇÃO
Nick Hornby, em seu livro Febre de Bola (2013), descreve o futebol como uma
paixão irresistível, algo que nos prende mesmo sabendo de seus possíveis efeitos
negativos. Eduardo Galeano, em Futebol ao Sol e à Sombra (2010), ao mencionar a
vitória olímpica do Uruguai, destaca como o futebol tem o poder de elevar pessoas
comuns a um status histórico e colocar nações no cenário global: “o futebol tirou esse
pequeno país do anonimato universal”. O futebol é, de fato, um espaço de grandes
histórias, de heróis improváveis e um microcosmo da sociedade em si.
Este trabalho nasce dessa conexão afetiva, mas também de uma inquietação:
como o futebol, que sempre foi um esporte popular, transformou-se ao longo do
tempo. Para entender isso, mergulharei na história do futebol, desde suas origens até
sua chegada ao Brasil, onde se tornou muito mais do que um esporte – uma
verdadeira expressão cultural. O foco principal, porém, será a modernização do futebol
brasileiro e as consequências que ela traz para seu principal ator: o torcedor. Afinal, o
que estamos ganhando – e o que estamos perdendo – com arenas modernas,
ingressos caros e um futebol cada vez mais voltado para o lucro?
Pierre Bourdieu (1979), em seu livro, A Distinção: crítica social do julgamento,
define o capital cultural como um conjunto de conhecimentos, habilidades, gostos e
disposições que uma pessoa adquire ao longo da vida, principalmente por meio da
família e da educação. O futebol é um exemplo clássico de capital cultural transmitido
de geração em geração, principalmente no ambiente familiar. Desde cedo, os pais
influenciam os filhos a torcerem para seus times, criando uma identidade que vai muito
além do esporte – é uma herança afetiva, uma forma de se conectar com as raízes e
a história da família. No entanto, essa dinâmica também reflete desigualdades. Ao
observar os torcedores que frequentam os estádios, é possível perceber como o
acesso ao esporte está cada vez mais condicionado ao capital econômico e cultural,
especialmente com a modernização das arenas e o aumento dos preços dos
ingressos (Santos, 2017). Assim, o futebol, que antes era um espaço de união e
democratização, hoje também se torna um campo de distinção social, onde nem todos
têm o mesmo direito de participar.
9
Além disso, o direito ao lazer é garantido constitucionalmente no Brasil.
Conforme o artigo 6º da Constituição Federal (Brasil, 1988), o lazer integra o rol dos
direitos sociais fundamentais, ao lado de direitos como educação, saúde e moradia.
Essa proteção não apenas reconhece o lazer como um espaço de descanso e
recreação, mas também o valoriza como um meio essencial para a promoção da
cidadania, da inclusão social e do desenvolvimento cultural. Em outras palavras,
enquanto o futebol – como herança afetiva e capital cultural – pode evidenciar
desigualdades no acesso devido a barreiras econômicas, o direito ao lazer impõe ao
Estado a responsabilidade de criar condições para que todos possam participar de
atividades que promovam a qualidade de vida e a integração social.
Assim, este trabalho tem como foco os estádios e arenas de futebol na cidade
de São Paulo, com ênfase no Allianz Parque, casa do Palmeiras1. Como o maior
centro urbano do Brasil, São Paulo é um cenário privilegiado para observar as
transformações que vêm impactando o futebol e, principalmente, o modo de torcer. A
modernização do esporte, com a construção de arenas como o Allianz Parque, trouxe
mudanças significativas na relação entre os clubes e seus torcedores, refletindo
dinâmicas sociais e culturais que merecem ser analisadas. Ao estudar esses espaços,
pretendo compreender como essas transformações podem afetar a experiência do
torcedor e o que isso revela sobre as desigualdades e distinções no futebol
contemporâneo.
Nesta direção, e sob um viés social, o presente trabalho de conclusão de curso
se dedica em olhar o futebol abordando os efeitos da elitização e da modernização
que este tem vivido (Santos, 2014). Tal esporte, situado no contexto das atividades de
massa, foi considerado um esporte popular e acessível até as últimas décadas, porém,
nos últimos anos, ele passou por transformações que afetaram diretamente a maneira
pela qual as classes populares participam e são representadas. A elitização do futebol
refere-se ao aumento das entradas para os espetáculos, à construção de modernos
palácios esportivos com infraestrutura desenvolvida e ao marketing intensivo.
1A Sociedade Esportiva Palmeiras foi fundada em 26 de agosto de 1914 como Palestra Itália por
imigrantes italianos em São Paulo. Atualmente, a presidente do clube é Leila Mejdalani Pereira, que
iniciou seu primeiro mandato em 15 de dezembro de 2021 e foi reeleita para um segundo mandato
que começou em 15 de dezembro de 2024.
10
Este fenômeno pode levar à exclusão de torcedores de longa data, cujo poder
de compra é, muitas vezes, menor, e a uma mudança no perfil dos espectadores dos
estádios. Por outro lado, a modernização do futebol, impulsionada pelo progresso
tecnológico e pela globalização, trouxe inovações que afetam a experiência dos
torcedores, tanto nos estádios como fora deles. A transmissão dos jogos em alta
definição, a utilização das redes sociais para engajamento e a presença de
patrocinadores internacionais são alguns dos elementos que formam a nova cara do
futebol moderno.
Neste sentido, e para compreender este cenário mais recente do futebol, este
estudo analisa como essas mudanças redefinem o espaço ocupado pelo setor popular
da sociedade, nos estádios e nas celebrações esportivas. E, ao mesmo tempo,
procura tratar de alguns elementos que sinalizam para uma mudança na cultura dos
torcedores, desdobrando-se em novos desafios que os adeptos tradicionais
enfrentam; assim como, coloca uma indagação que diz respeito ao como o futebol
pode continuar a ser um elemento de coesão social no meio destas mudanças?
Compreendendo estes aspectos, esperamos contribuir para um debate mais amplo
sobre a democratização do acesso ao futebol e o papel deste desse esporte como
património cultural inestimável. O patrimônio cultural refere-se ao conjunto de bens
materiais e imateriais que representam a identidade, a memória e a história que foram
construídas por uma sociedade (Zanirato; Ribeiro, 2006). A manifestação do futebol
como parte da diversidade cultural do país é essencial para compreender a cultura
brasileira em sua totalidade.
Para cumprir o propósito deste trabalho foi feito uma revisão bibliográfica com
o objetivo de analisar os temas relacionados à história do futebol, o contexto brasileiro,
a organização das torcidas, os impactos das tragédias, a modernização e
mercantilização do esporte e os aspectos socioeconômicos e culturais decorrentes de
sua evolução. De tal modo que pudesse cumprir o objetivo central traçado para a
pesquisa: o de analisar como a mercantilização do futebol, especialmente por meio da
construção de estádios modernos, aumento dos preços dos ingressos e oferta de
experiências premium, tem contribuído para a elitização e gentrificação dos estádios,
com foco nos impactos sociais, econômicos e culturais dessas transformações para o
acesso e a experiência dos torcedores. Dos objetivos específicos, buscou-se
demonstrar de que maneira a mercantilização do futebol está promovendo a elitização
e gentrificação dos estádios. Analisando como essas mudanças afetam o perfil
11
socioeconômico do público, a exclusão de torcedores tradicionais e a transformação
dos estádios em espaços voltados para consumidores de maior poder aquisitivo. Além
disso, o estudo explora os impactos culturais dessa transformação, como a possível
mudança das torcidas e a mercantilização do esporte.
2. METODOLOGIA
Assim sendo, para desenvolver esta escrita busquei me orientar por uma
metodologia exploratória e flexível, realizando uma revisão bibliográfica dirigida à
definição do tema de estudo; bem como, uma coleta de dados em diferentes fontes.
Para definição do assunto foi feito um levantamento visando analisar:
● A trajetória histórica do futebol no Brasil.
● A organização das torcidas e suas implicações sociais.
● Os impactos da modernização e mercantilização do futebol.
● A gentrificação e financeirização no esporte.
● A relação entre os custos de frequentar estádios e a renda dos torcedores.
A coleta de dados foi feita em diferentes fontes:
● Trabalhos acadêmicos: Artigos científicos, livros e dissertações relacionadas
aos tópicos centrais.
● Fontes jornalísticas: Matérias publicadas em veículos de comunicação
reconhecidos que tratem de temas como modernização dos estádios,
tragédias e o impacto dos megaeventos.
● Fontes audiovisuais: Documentários, entrevistas e vídeos do YouTube que
trazem relatos de torcedores, pesquisadores e especialistas.
O texto, portanto, foi estruturado e organizado em categorias correspondentes aos
tópicos centrais do trabalho:
1. História do futebol e contexto brasileiro.
2. Torcidas organizadas e tragédias.
3. Modernização e gentrificação.
4. Financeirização do futebol.
12
5. Impactos socioeconômicos no perfil do torcedor.
A análise dos dados de caráter qualitativa, buscou compreender os impactos
culturais e sociais do futebol, considerando trabalhos acadêmicos, matérias
publicadas e entrevistas, documentários produzidos. Tais dados foram, então,
discutidos à luz das teorias e conceitos abordados na literatura acadêmica,
priorizando:
● A relação entre gentrificação, financeirização e a elitização do futebol.
● O impacto das tragédias e das torcidas organizadas na modernização do
futebol
● A transformação do torcedor em consumidor no contexto da modernização
dos estádios.
E, por fim, as considerações finais traz um balanço dos achados do trabalho,
destacando as transformações do futebol no Brasil e seus impactos sociais e
econômicos, com reflexões sobre os desafios para um futebol mais inclusivo.
3.HISTÓRIA DO FUTEBOL
A prática de jogos com bola, precursora do futebol moderno, remonta a diversas
civilizações antigas, muitas vezes associada a significados ritualísticos e simbólicos.
Hilário Franco Júnior (2007) destaca, por exemplo, um jogo macabro praticado na
China durante períodos de guerra, no qual crânios humanos eram chutados para
ultrapassar estacas de bambu. Nas Américas, por volta de 900 a.C., o tlachtli
mesoamericano já envolvia disputas com bola, enquanto registros semelhantes
aparecem na Grécia Antiga e na Florença medieval. Contudo, como ressalta Ferreira
(2018, p. 10), nessas culturas indígenas e pré-colombianas, o jogo possuía uma
dimensão ritualística distante da lógica competitiva ocidental: o objetivo não era definir
vencedores, mas sim promover equilíbrio e conexão com o sagrado, uma prática
coletiva desprovida da hierarquia entre triunfo e derrota.
Entretanto, vale destacar que outras civilizações (indígenas e pré
colombianas) ao terem contato com o futebol, antes de o mesmo se
popularizar e ser apropriado pelos alunos das escolas inglesas, o
13
praticavam de forma diferente da qual habitou-se a prática no mundo
moderno. A essas disputas era inserido o sentido ritualístico do jogo,
desprovido de qualquer intenção de promover um ganhador e um
perdedor. O sentido estabelecido nessas partidas era a do equilíbrio,
completamente diferente da lógica ocidental (Ferreira, 2018, p. 10).
O futebol como esporte padronizado surgiu no século XIX na Inglaterra,
inicialmente como um instrumento de formação da elite burguesa. Segundo Franco
Júnior (2007), a prática era destinada a preparar jovens da aristocracia para liderança,
desenvolvendo qualidades como disciplina e trabalho em equipe. Embora a
popularização do esporte não tenha sido um processo intencional, os professores das
escolas da elite inglesa resistiram ao jogo com bola, considerando-o uma atividade
truculenta e inadequada para os padrões da burguesia da época. O futebol foi
incorporado ao ambiente escolar como ferramenta de gestão comportamental, uma
vez que ocupava os alunos e redirecionava sua agressividade para atividades
estruturadas, minimizando situações disruptivas. (Proni, 2000) A padronização das
regras, essencial para sua difusão, ocorreu por meio de iniciativas como as Regras de
Cambridge (1848) e de Sheffield (1857), culminando na fundação da Football
Association (FA) em 1863, que unificou normas e estabeleceu bases para o esporte
moderno (Cayo, 2012). A padronização das regras, essencial para sua difusão,
ocorreu por meio de iniciativas como as Regras de Cambridge (1848) e de Sheffield
(1857), culminando na fundação da Football Association (FA) em 1863, que unificou
normas e estabeleceu bases para o esporte moderno (Cayo, 2012).
A disseminação do futebol acompanhou a influência geopolítica britânica,
embora sua adoção não tenha sido homogênea. Países diretamente colonizados pela
Inglaterra, como Índia e Austrália, mantiveram o esporte em posição marginal,
enquanto nações latino-americanas o incorporaram de forma mais intensa (Farias,
2014, p. 34). Na Argentina, o futebol foi introduzido por marinheiros britânicos no
século XIX, mas permaneceu restrito a comunidades inglesas até a década de 1890,
quando a primeira federação local ainda exigia o uso exclusivo do idioma inglês em
reuniões (Franco Júnior, 2007). No Brasil, relatos similares indicam a prática do
esporte por imigrantes britânicos, antes de sua popularização entre a população local.
Na Europa, a resistência cultural também se fez presente: na Alemanha, o futebol era
visto como uma "doença inglesa", associada a valores estrangeiros (Farias, 2014, p.
14
35). Apesar disso, a criação da FIFA em 1904 marcou a consolidação do esporte como
fenômeno global, com regras unificadas e torneios internacionais.
A disseminação do esporte ocorreu em paralelo ao domínio do capitalismo
britânico, exercendo uma influência marcante nas esferas socioculturais dos países
latino-americanos. Curiosamente, países que eram diretamente colonizados pela
Inglaterra, resistiram à adoção do esporte, e continuam como esporte periférico
atualmente (Farias, 2014, p.34). Em países da Europa, também houve resistência
para adoção do esporte, sendo a Alemanha um exemplo marcante, onde o esporte
era visto como uma “doença inglesa” (Farias, 2014, p.35). Na Argentina, segundo
Hilário Jr, o futebol foi introduzido por marinheiros britânicos que o praticavam em suas
horas de lazer. Inicialmente, a prática era exclusiva dos britânicos residentes no país,
sendo que até a primeira federação argentina fundada em 1893 proibia o uso de
qualquer língua além do inglês em suas reuniões. No Brasil também há relatos de
marinheiros britânicos praticando o esporte no país (Franco Júnior, 2007).
O esporte revelou-se uma ferramenta de coesão social mesmo em cenários de
guerra. Durante a Primeira Guerra Mundial, soldados aliados e alemães
protagonizaram a célebre Trégua de Natal de 1914, interrompendo hostilidades para
jogos improvisados nas trincheiras. Franco Júnior (2007) ressalta que essas partidas
não apenas aliviavam o estresse do front, mas também humanizavam o inimigo,
destacando o potencial do futebol como linguagem universal. Além disso, oficiais
incentivaram a prática entre tropas para fortalecer o espírito de equipe e a disciplina,
estratégia que se repetiria em conflitos posteriores.
A ascensão do futebol feminino ocorreu em um contexto paradoxal. Durante a
Primeira Guerra Mundial, com homens no front, mulheres assumiram funções em
fábricas e passaram a praticar o esporte como atividade recreativa, inclusive em ligas
organizadas. Magalhães (2005) destaca que o futebol era incentivado para manter a
moral das trabalhadoras. Contudo, com o fim da guerra, houve uma reação
conservadora: associações esportivas, como a FA inglesa, proibiram as mulheres de
usar estádios, alegando que o esporte "ameaçava a feminilidade" e a estrutura
familiar. Apenas nas últimas décadas, impulsionadas por movimentos pela igualdade
de gênero, as mulheres conquistaram espaços significativos no futebol. A criação de
ligas profissionais, como a Women’s Super League (Inglaterra) e o Campeonato
15
Brasileiro Feminino, reflete uma mudança estrutural, ainda que desafios como
disparidade salarial e visibilidade persistam.
A trajetória do futebol ilustra dinâmicas políticas, econômicas e culturais de
cada era. De ritual ancestral a esporte globalizado, sua história entrelaça-se com
colonialismo, resistências nacionais, conflitos bélicos e lutas por inclusão. Se, no
século XIX, servia para moldar líderes burgueses, hoje é palco de debates sobre
diversidade e equidade, demonstrando sua capacidade de adaptar-se e refletir as
contradições das sociedades que o praticam.
4. O FUTEBOL NO BRASIL
A introdução do futebol no Brasil, embora popularmente atribuída a Charles
Miller em 1894, possui raízes anteriores. Já em 1878, marinheiros britânicos jogavam
futebol no Rio de Janeiro, e jovens da Academia Itu de São Luís praticavam esportes
semelhantes (Franco Júnior, 2007). Essas práticas prévias, somadas à sistematização
das regras trazidas por Miller, permitiram que o esporte se difundisse rapidamente,
aproveitando-se de tradições esportivas locais, como a capoeira, e ganhando espaço
em colégios religiosos. Alunos dessas instituições, ao retornarem a suas cidades,
disseminaram o futebol, incluindo pessoas de classes populares para formar times —
um contato inicial que contrastaria com a elitização posterior (Farias, 2014, p. 48).
A expansão das ferrovias e o movimento dos trabalhadores foram elementos
decisivos na disseminação do futebol pelo interior do Estado de São Paulo. Com a
instalação das linhas férreas, houve um intenso fluxo migratório de operários que,
além de impulsionarem a economia local, transportavam consigo novas práticas
culturais e esportivas. Essa mobilidade facilitou a propagação do futebol, que se
transformou em uma forma de lazer e identidade social entre os trabalhadores. Um
exemplo emblemático dessa influência foi a primeira partida disputada em São Paulo,
realizada entre a São Paulo Railway e a Companhia de Gás (Ferreira, 2008),
demonstrando como a infraestrutura ferroviária e o cotidiano dos trabalhadores foram
fundamentais para a popularização do esporte na região. Essa dinâmica não só́
contribuiu para a formação de uma cultura futebolística sólida, mas também para a
integração social e o fortalecimento dos laços comunitários, marcando o início de uma
tradição que perdura até os dias atuais.
16
Nas primeiras décadas do século XX, o futebol tornou-se um espelho das
hierarquias sociais. A criação da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), em
1914, consolidou estruturas que marginalizavam jogadores negros. Clubes como o
Fluminense exigiam que atletas como Carlos Alberto cobrissem a pele com pó de
arroz para mascarar sua identidade racial. Em 1921, o presidente Epitácio Pessoa
proibiu a convocação de negros para a seleção brasileira no Sul-Americano,
reforçando o racismo institucional. O Vasco da Gama, com um presidente negro eleito
em 1904, destacou-se ao incluir jogadores afrodescendentes em seu elenco, mas
enfrentou boicotes de clubes rivais, sendo excluído de competições até 1926 — ano
em que voltou triunfante com um time majoritariamente negro (Franco Júnior, 2007).
Esses episódios ilustram a tensão entre a democratização do esporte e as barreiras
impostas por uma elite branca.
Meu pai sempre teve dificuldade por ser negro. Entre ele e um branco,
sempre vão escolher um branco. Tenho lutado bastante por tudo que
tem acontecido comigo. É desgastante por estar meio sozinho. Já fiz
tantas denúncias e ninguém é punido, nenhum clube é punido. A cada
dia, luto por todos que passam por isso. Se fosse só por mim e pela
família, não sei se continuaria. Mas fui escolhido para defender uma
causa bem importante e que eu estudo a cada dia para que no futuro
meu irmão de cinco anos não passe pelo que estou passando (Vinicius
Júnior, entrevista coletiva)2.
A Copa de 1958 marcou uma virada simbólica. Com dois gols de Pelé na final
contra a Suécia, o Brasil não apenas conquistou seu primeiro título mundial, mas
elevou o jogador negro à condição de ícone global. Sua genialidade transformou a
imagem do atleta afrodescendente, associando-o ao talento e à excelência esportiva
(Silva, 2008). No entanto, essa representação carregava ambiguidades: enquanto
"Pelé" se tornava uma marca comercializada, apropriada por discursos publicitários
que diluíam conflitos raciais, Edson Arantes do Nascimento, o homem por trás do mito,
enfrentava contradições. Anúncios exploravam a dualidade Edson/Pelé, ora exaltando
sua origem humilde, ora reforçando estereótipos, revelando as complexidades raciais
numa sociedade que celebrava o ídolo, mas perpetuava desigualdades (Silva, 2008,
p. 48).
2 EM ENTREVISTA HISTÓRICA, VINI JR SE EMOCIONA E DISPARA: "CADA VEZ SINTO MENOS
VONTADE DE JOGAR". YouTube, 2023. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=FYOV5vaTwlk. Acesso em: 20 jan. 2025.
17
Se Pelé simbolizou uma ruptura, a luta contra o racismo permanece inacabada.
Na década de 1970, jogadores como Paulo Cezar Lima enfrentaram hostilidades
veladas, enquanto hoje o jogador brasileiro, Vinícius Jr., estrela do Real Madrid, sofre
insultos racistas em estádios europeus. Seu ativismo — ao denunciar publicamente
agressões e cobrar ações de ligas esportivas — ecoa a resistência de pioneiros como
Fausto dos Santos, nos anos 1920. A persistência dessas violências expõe a falácia
do mito da democracia racial e revela como o futebol reflete (e reproduz) estruturas
sociais excludentes.
A cobertura jornalística dos jogos também impulsionou significativamente a
popularidade do futebol no Brasil.
A profissionalização do futebol, uma luta árdua que possibilitou a
entradas de brasileiros pertencentes às classes mais humildes no
exercício contínuo do esporte, foi bafejada pela onda da
industrialização no sentido de permitir algo novo com identidade
menos subalterna e mais promissora (Pereira, 2020 p.27)
Um dos nomes mais importantes na cobertura esportiva da década de 1930 foi
Mário Filho, cuja dedicação ao jornalismo esportivo ajudou a consolidar o futebol como
uma paixão nacional. Filho não só relatava os jogos, mas também humanizava os
jogadores e criava narrativas envolventes que cativaram o público. Em
reconhecimento à sua contribuição inestimável ao esporte, o estádio mais importante
do país, inaugurado em 1950, foi renomeado em sua homenagem em 1966, após a
morte do jornalista. O Estádio Jornalista Mário Filho, mais conhecido como Maracanã,
continua sendo um ícone do futebol brasileiro e mundial.
Os jornais contribuíram para que os torcedores se aproximassem do
dia a dia dos jogadores, clubes e seleção. Os periódicos passaram a
desenvolver um jornalismo mais profissional, com pessoas que
dedicavam tempo exclusivo à modalidade. Quanto ao broadcasting
(como se chamava então a radiodifusão), este se tornou na Era Vargas
o grande veículo de comunicação e entretenimento no Brasil, e seria
bem usado pelo Estado para exaltar o governo e o
nacionalismo/patriotismo (Farias, 2014, p.120).
O processo de profissionalização do esporte no Brasil foi uma jornada que se
estendeu por décadas. Enquanto clubes da elite permaneciam fiéis ao amadorismo,
clubes originários das camadas populares pressionavam pela adoção do
profissionalismo, entrando em disputas não apenas sociais como raciais. O conflito
entre o profissionalismo e o amadorismo no futebol ficou evidente quando o tratamento
18
brutal aos jogadores veio à tona. De acordo com Hilário Franco Jr (2007), apesar do
contexto nacional de regulamentação dos direitos trabalhistas, os jogadores de futebol
eram obrigados a atuar durante o período de férias, realizando excursões pela Europa.
Em muitos casos, eles eram forçados a jogar mesmo estando lesionados, o que
ressalta a precariedade das condições de trabalho enfrentadas pelos atletas na época.
Leônidas da Silva, o maior jogador brasileiro na época, foi multado diversas vezes por
se recusar a seguir as regras da época. O futebol sempre foi encarado pelos
governantes como um instrumento de propaganda perante o povo.
A partir de 1965, o Brasil mergulhou em uma ditadura militar que, consciente
do poder simbólico do futebol, instrumentalizou-o como ferramenta de legitimação
política e unificação nacional. Segundo Magalhães (2010), o governo autoritário
encontrou no esporte um meio eficaz para difundir ideais de ordem e patriotismo,
associando o sucesso da seleção brasileira à imagem de um país próspero e
disciplinado. A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), sob o comando de João
Havelange (1958-1975), alinhou-se ao regime, adotando uma gestão centralizadora e
hierárquica que refletia os valores do período. O ápice dessa estratégia ocorreu
durante a Copa do Mundo de 1970, no México, amplamente explorada pelo presidente
Emílio Garrastazu Médici como vitrine do "Brasil Grande". A conquista do
tricampeonato, com uma seleção icônica liderada por Pelé, foi apresentada como
prova do "milagre econômico" e da eficácia do regime. Paralelamente, a criação da
Loteria Esportiva (1970) reforçou o vínculo entre Estado e esporte, canalizando
recursos públicos para projetos de interesse governamental sob o disfarce de
incentivo ao futebol (Magalhães, 2010).
Em 1971, o regime militar instituiu o Campeonato Brasileiro, um projeto que
visava não apenas modernizar o futebol nacional, mas também consolidar o controle
político sobre as competições. A centralização das decisões na CBD, aliada à
exclusão de clubes regionais menores, revelava a intenção de alinhar o esporte aos
interesses do governo, promovendo uma imagem de unidade nacional através do
futebol. Entretanto, a partir de 1973, o discurso otimista desmoronou junto com o
"milagre econômico", marcado pela crise do petróleo e o endividamento externo. Esse
contexto refletiu-se no desempenho medíocre da seleção na Copa de 1974, na
Alemanha, onde o time, sem o brilho de 1970, terminou em quarto lugar. Para
19
Magalhães (2010), a queda esportiva simbolizava a erosão da narrativa autoritária,
expondo as contradições entre o projeto propagandístico e a realidade
socioeconômica.
Com o início da abertura política em 1979, a CBD foi substituída pela
Confederação Brasileira de Futebol (CBF), marcando uma tentativa de reduzir a
interferência estatal. O Campeonato Brasileiro passou por reformulações estruturais,
como a descentralização de vagas e a inclusão de clubes de diversas regiões,
refletindo um esforço para democratizar o esporte em sintonia com as mudanças no
cenário político (Magalhães, 2010). No início dos anos 1980, em meio ao clamor pelas
Diretas Já, o Corinthians tornou-se símbolo de resistência com o movimento
Democracia Corintiana, liderado por Sócrates, Wladimir e Casagrande. Rompendo
com a lógica vertical dos clubes, os jogadores instituíram assembleias deliberativas
onde todos – atletas, comissão técnica e funcionários – tinham igualdade de votos.
Para Magalhães (2010, p. 78), o movimento "transcendeu o âmbito esportivo,
tornando-se um microcosmo da luta pela redemocratização". A participação ativa dos
jogadores em protestos políticos, como os comícios das Diretas Já, evidenciou o papel
do futebol como espaço de contestação, onde atletas usaram sua visibilidade para
desafiar o autoritarismo. A Democracia Corintiana ilustra a dualidade do futebol
brasileiro: se, por um lado, foi instrumentalizado pelo regime militar, por outro, serviu
como trincheira de emancipação política. Figuras como Sócrates, personificam essa
contradição, mostrando como o esporte pode oscilar entre a reprodução do poder
estabelecido e a subversão crítica. O movimento não apenas transformou a gestão
esportiva, mas também deixou um legado simbólico, inspirando gerações a
enxergarem o futebol como arena de disputas sociais e políticas.
4.1. TORCIDAS ORGANIZADAS NO ESTADO DE SÃO PAULO
O surgimento das torcidas organizadas no Brasil remonta às primeiras décadas
do século XX, quando grupos informais de torcedores se reuniram para apoiar seus
clubes, criar cânticos e promover festas em torno do futebol. Contudo, foi a partir da
década de 1940 que esse fenômeno ganhou contornos institucionais. Segundo
Cavalcanti, Souza e Capraro (2013), as torcidas uniformizadas emergiram como uma
resposta à crescente popularização do esporte, marcando a transição de um apoio
20
espontâneo para uma organização sistemática. A pioneira Torcida Uniformizada do
São Paulo, fundada em 1939 (Magalhães, 2010), distanciou-se das estruturas
contemporâneas, mas estabeleceu um modelo que seria replicado e ressignificado
nas décadas seguintes.
Nas últimas décadas, as torcidas organizadas passaram por um processo de
empresariamento, adotando hierarquias complexas que incluem cargos como
presidente, tesoureiro e secretário. Essa profissionalização, paradoxalmente,
aproximou-as de uma lógica corporativa, com gestão de recursos e estratégias de
marketing, ao mesmo tempo em que mantiveram vínculos identitários profundos com
os clubes. A associação entre torcidas organizadas e violência consolidou-se nos anos
1980, contexto marcado pela redemocratização do país e pelo aumento da
criminalidade urbana. A Mancha Verde (Palmeiras), por exemplo, surgiu em 1986 da
fusão de três grupos menores, explicitamente orientada para a preparação de
confrontos com rivais (Cavalcanti; Souza; Capraro, 2013). Esse fenômeno não foi
isolado: a militarização das torcidas refletiu tanto a escalada de rivalidades clubísticas
quanto a influência de gangues urbanas, que encontraram nos estádios um espaço
de disputa territorial e simbólica.
Nos estádios, as torcidas organizadas desempenham um papel ambíguo. Por
um lado, são responsáveis por criar o espetáculo festivo que define o futebol brasileiro,
com bandeirões, tambores e coreografias que transformam as arquibancadas em
palcos de criatividade coletiva. Por outro, carregam o estigma de serem protagonistas
de episódios de violência, como invasões de campo e brigas entre facções, que
frequentemente resultam em tragédias.
Dados do estudo da Fundação Getúlio Vargas (2015) revelam o perfil
predominante dos torcedores organizados:
● Gênero e idade: Majoritariamente homens (91% no RJ; 86% em SP) com até
40 anos (94% em SP).
● Situação conjugal e educação: 77% solteiros no RJ; 62% com ensino médio
completo em SP.
● Filiação e custos: 60% dos paulistanos pagam mensalidade às torcidas, mas
apenas 38% são filiados oficialmente aos clubes.
21
● Percepção da violência: 59% dos entrevistados reconhecem que suas próprias
torcidas são vistas como violentas.
Esses números expõem uma contradição: o engajamento financeiro e
emocional com as torcidas não se traduz necessariamente em lealdade institucional
aos clubes, sugerindo que a identidade grupal supera, em muitos casos, o vínculo
esportivo puro.
O viés de violência presente nas torcidas organizadas frequentemente leva a
investigações e punições por parte da justiça brasileira. Existe uma dualidade no
sentimento que a sociedade tem em relação a essas torcidas. Por um lado, elas são
amplamente reconhecidas pelos cantos criativos e por criar um ambiente de estádio
diferenciado. Por outro lado, a violência associada a essas torcidas não se limita
apenas aos confrontos entre grupos rivais, mas também envolve agressões a atletas
e dirigentes que representam suas respectivas equipes.
Além dos episódios de violência física, há também relatos de vandalismo e
comportamentos que comprometem a segurança pública e a integridade dos eventos
esportivos. As autoridades frequentemente têm que intervir, resultando em medidas
que variam desde proibições de entrada nos estádios até a dissolução de certas
torcidas organizadas. A dualidade no sentimento em relação às torcidas organizadas
reflete a complexidade de sua influência no futebol brasileiro. Elas são ao mesmo
tempo um símbolo da paixão e do compromisso dos torcedores com seus clubes, e
uma fonte de preocupação devido aos incidentes de violência.
É inegável que as tensões interclânicas próprias ao mundo do futebol
são potencializadas pelas torcidas organizadas, mas também é
verdade que, na Europa e no Brasil, elas funcionam como uma espécie
de segunda família para muitos de seus membros. A mesma rede de
solidariedade que transborda para violência leva a rivalidade para
ações de cunho social e contribui para amenizar a tensão global.
Solidariedade e rivalidade são sentimentos e comportamentos
opostos, e, contudo, complementares (Franco Júnior, 2007, p. 200).
No estado de São Paulo, as torcidas organizadas tradicionais, como Gaviões
da Fiel (Corinthians), Mancha Verde (Palmeiras), Independente (São Paulo) e Jovem
(Santos), historicamente dominaram o cenário com sua forte presença nas
arquibancadas e influência cultural. Contudo, nas últimas décadas, surgiram coletivos
22
que contestam não apenas a violência, mas também os valores conservadores
enraizados nesse universo. O Palmeiras Antifacista, Bloco Tricolor Antifa e o Coringão
Antifa, tornaram-se um símbolo de resistência política, mobilizando-se contra o
racismo, a homofobia e a ascensão de discursos autoritários, além de promover ações
solidárias, como arrecadações para comunidades carentes. No campo da diversidade
sexual, iniciativas como a PorcoÍris e a VascoLGBTQ+ buscam ocupar espaços em
um ambiente marcado pela heteronormatividade, promovendo campanhas contra a
homofobia e distribuindo bandeiras com símbolos do orgulho LGBTQIA+ nos estádios.
Esses grupos enfrentam resistência tanto de setores conservadores das próprias
torcidas quanto da falta de apoio institucional dos clubes, que muitas vezes evitam
confrontar a cultura tóxica. Ainda assim, sua presença crescente reflete uma mudança
geracional e política, especialmente em São Paulo, onde a densidade urbana e a
efervescência cultural amplificam debates sobre inclusão. Enquanto as organizadas
tradicionais mantêm estruturas hierárquicas e, em alguns casos, ligações com a
violência, esses novos coletivos mostram que as arquibancadas podem ser território
de reinvenção social, onde o futebol dialoga com lutas por equidade e
representatividade.
A dualidade entre fervor e violência nas torcidas organizadas não se resolve
com soluções simplistas. A criação de coletivos progressistas é um passo essencial
para sua evolução, exigindo a colaboração entre Estado, clubes, torcedores e
sociedade. O estádio reflete as contradições do Brasil, e a construção de um ambiente
seguro e respeitoso depende não apenas de regulamentações, mas de uma
transformação cultural que canalize a paixão pelo futebol como força motriz de
mudança social.
4.2. TRAGÉDIAS DO FUTEBOL
A violência sempre foi parte ativa do meio futebolístico, na Inglaterra, os
hooligans3 ingleses marcaram os anos 1970 e 1980 e a violência das torcidas
organizadas também foram marcantes no Brasil, principalmente nos anos 1980 e
1990.
3A cultura popular inglesa denominou os torcedores causadores de distúrbios como hooligans, termo
que posteriormente seria adotado em âmbito internacional, inclusive no meio acadêmico (Temóteo,
2015. p.17).
23
Em 15 de abril de 1989, um dos eventos mais trágicos da história do futebol
ocorreu no Estádio de Hillsborough, na Inglaterra, durante o jogo entre Nottingham
Forest e Liverpool, pela semifinal da Copa da Inglaterra. Naquele dia, 97 torcedores
perderam a vida ou enfrentaram complicações que os levaram a óbito anos mais tarde.
O futebol inglês já havia sido marcado por uma tragédia anterior, a de Heisel, na qual
39 torcedores morreram em confrontos entre as torcidas do Liverpool e da Juventus
em um jogo pela Copa dos Campeões da Europa. Essa tragédia resultou na proibição
dos clubes ingleses de participarem de competições europeias por cinco anos, sendo
o Liverpool, cujos hooligans causaram a tragédia, excluído por um ano adicional. Na
época, o governo inglês liderado por Margaret Thatcher buscava implementar suas
ideias neoliberais em diversos aspectos da sociedade, incluindo o futebol (Costa,
2022). A elitização observada no esporte e a modernização dos estádios são legados
significativos desse período.
O "Taylor Report", redigido por Peter Murray Taylor, foi o principal documento
que fundamentou a modernização do futebol inglês. Nele, o autor analisou as causas
da tragédia de Hillsborough e concluiu que mudanças na estrutura do futebol eram
essenciais para prevenir a violência e tragédias. O relatório apontou a falta de
estrutura no estádio e a falta de preparo policial como os principais responsáveis pela
tragédia. Apesar de absolver os torcedores naquele dia, houve uma campanha para
culpabilizar os torcedores do Liverpool (Costa, 2022).
O jornal britânico "The Sun" publicou em sua capa a manchete "The Truth",
contendo acusações falsas de que os torcedores teriam furtado, urinado nos corpos
das vítimas e agredido seguranças e policiais durante a tragédia de Hillsborough. Em
setembro de 2012, o mesmo jornal lançou uma edição com o título "The Real Truth",
na qual fez um pedido de desculpas pelas informações falsas anteriormente
publicadas. O primeiro-ministro da época, David Cameron, dirigiu-se ao parlamento
inglês para apresentar desculpas públicas pelos erros que ocorreram durante o
governo de Margaret Thatcher. Até hoje, persiste uma disputa jurídica por parte das
famílias das vítimas em busca de justiça pelos 97.
Mais do que um projeto neoliberal capitaneado pelo governo britânico
de Thatcher sobre uma das paixões nacionais, o pacote de ações que
mudou a cara do futebol inglês nos últimos 25 ano, notadamente o
combate aos hooligans e o forte aumento no valor das entradas, foi
obra dos donos dos clubes que, substituindo a classe trabalhadora e
os torcedores organizados pela classe média como público das
24
arenas, conseguiram auferir lucros cada vez maiores e transformaram
a Premier League - a primeira divisão do futebol inglês - em um dos
melhores, se não o melhor campeonato de futebol do mundo (Oliveira,
2015, p.12).
Nos anos seguintes à tragédia de Hillsborough, o futebol inglês passou por uma
profunda reestruturação. Os estádios na Inglaterra passaram por uma significativa
reformulação, com uma das principais mudanças sendo a substituição dos lugares
onde os torcedores ficavam em pé pela instalação de assentos em todos os setores.
Essa transformação impactou profundamente a cultura do futebol no país, uma vez
que os espaços que antes eram predominantemente ocupados pela classe
trabalhadora — torcedores que muitas vezes tinham uma conexão mais visceral e
passional com seus clubes — foram drasticamente reduzidos ou eliminados (Cruz,
2005).
Em 1992, os clubes da primeira divisão romperam com a Football League e
criaram a Premier League com o objetivo de maximizar os lucros oriundos dos direitos
de transmissão. Segundo reportagem4 do Globo Esporte, a liga anunciou um valor
recorde de 6,7 bilhões de libras apenas para transmissões domésticas, com a
possibilidade de ampliar ainda mais os lucros negociando os direitos com veículos
internacionais. Esse movimento não apenas trouxe mais receita, mas consolidou a
Premier League como uma das ligas mais competitivas e populares do mundo.
Enquanto isso, o futebol brasileiro também enfrentava seus desafios, com
episódios de violência marcantes. Um exemplo emblemático foi a "Batalha Campal"
ocorrida na final da Copa São Paulo de Juniores de 1995, no estádio do Pacaembu.
Naquele dia, as torcidas organizadas do Palmeiras (Mancha Verde) e do São Paulo
(Independente) protagonizaram uma série de confrontos no campo. O Ministério
Público chegou a pleitear a extinção de ambas as torcidas, resultando na renomeação
da Mancha Verde para Mancha Alviverde e na reestruturação da Independente, que
manteve seu nome.
A violência no futebol não se limitou a eventos pontuais; ela continuou a
permear o ambiente esportivo ao longo dos anos. Ataques a ônibus de times, brigas
organizadas por grupos na internet e xingamentos racistas em estádios ao redor do
4GE. Premier League anuncia valor recorde por direitos de TV: R$ 41,8 bilhões. Globo Esporte, 4
dez. 2023. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol-internacional/futebol
ingles/noticia/2023/12/04/premier-league-anuncia-valor-recorde-por-direitos-de-tv-r-418-bilhoes.ghtml.
Acesso em: 24 jan. 2025.
25
mundo são exemplos de comportamentos que persistem. Muitos torcedores enxergam
os estádios como locais onde "tudo é permitido", e atos criminosos são
frequentemente justificados como manifestações de paixão. A falta de punição efetiva
por parte do Estado permite que essas atitudes se perpetuem, criando um desafio
global para o futebol. Diante desse cenário, é essencial analisar não apenas a cultura
das torcidas organizadas, mas também os mecanismos de prevenção e repressão à
violência no futebol. É necessário buscar soluções que promovam um ambiente mais
seguro e respeitoso para todos os amantes do esporte, preservando o que há de
melhor no futebol e combatendo aquilo que ameaça sua essência. O Estatuto do
Torcedor (Lei 10.671, de 15 de maio de 2003) foi criado em um período de
instabilidade no país, após a conclusão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
sobre a CBF e a Nike, além do amplamente divulgado incidente de superlotação e
desabamento no Estádio São Januário (Oliveira, 2014. p.30).
A leitura do Estatuto do Torcedor demonstra que a segurança dos
torcedores e a contenção da violência na assistência das práticas
desportivas é objeto de grande parte dos artigos positivados. Em uma
análise quantitativa, é possível aferir-se que, dos quarenta e cinco
artigos presentes na Lei, direta ou indiretamente, envolvem a questão
de segurança. Ademais, oito dos seus doze capítulos contêm, ao
menos, alguma referência à segurança (Oliveira, 2015, p.33).
Apesar disso, o Estatuto do Torcedor não dispõe de mecanismos que protejam
os torcedores contra a elitização nos estádios, tratando-os como uma figura única,
sem considerar as significativas diferenças entre eles, como classe social, raça,
gênero e idade (Castro, 2016, p.117).
Além do impacto nos estádios, os torcedores desempenham um papel
significativo na cultura brasileira fora desse ambiente, organizando eventos,
participando de manifestações públicas e integrando-se às comunidades locais.
Entretanto, esse panorama positivo não está isento de desafios e controvérsias. Os
grupos de torcedores organizados enfrentam questões relacionadas à violência e
comportamento inadequado, levando à implementação de diversas medidas para
garantir a segurança nos estádios. Em resposta a episódios de conflito, medidas
rigorosas foram adotadas, principalmente contra as torcidas organizadas.
Embora alguns textos reconheçam que as torcidas organizadas
constituam instituições multifacetadas e que, frequentemente, seus
26
integrantes são estigmatizados pela mídia e pela opinião pública, são
comuns os discursos que fundem os torcedores organizados e os
torcedores violentos numa mesma figura, colocando a violência como
um elemento consubstancial também aos primeiros. Uma vez que
essa associação contribui para tirar de cena o torcedor que se envolve
em ações violentas e que não é filiado à torcida organizada,
colocando-o na penumbra, pode-se dizer que, de partida, ela é
dissimuladora. Mas ela também é abusiva, já que a identidade do
torcedor organizado pacífico é contagiada pela ação violenta de
alguns torcedores organizados. Em última instância, tal contaminação
reveste todos os torcedores organizados com a imagem da violência
e da delinquência (Lopes, 2013 p.60).
A proibição de torcidas rivais em clássicos paulistas, promovida pelo Ministério
Público de São Paulo, despertou considerável crítica por parte de torcedores,
treinadores e especialistas em mídia. Em meio a essas discussões, é interessante
notar a posição contrária do governo federal, expressa pelo secretário de Futebol e
Direitos do Torcedor, José Luis Ferrarezi. Em uma reportagem5 da Uol, datada de 11
de março de 2023, Ferrarezi argumenta firmemente contra a implementação da
"torcida única", afirmando que tal medida não resolverá os problemas existentes e
expressando uma posição radical contra essa abordagem. Esse debate evidencia a
complexidade e a sensibilidade envolvidas na gestão do comportamento dos
torcedores e na promoção de um ambiente seguro e inclusivo nos estádios brasileiros.
Recentemente o tema de violência em torcidas organizadas retornou aos
noticiários com a emboscada de torcedores organizados do Palmeiras aos torcedores
da organizada do Cruzeiro. A Mancha Alviverde foi proibida de entrar em estádios com
roupas da organização e a discussão sobre torcida única em jogos de times de
estados diferentes ganhou força e está sendo discutida entre governantes e
responsáveis pela segurança pública dos estados. Essa discussão resultou em um
jogo sem público entre as duas equipes, mesmo que a emboscada tenha acontecido
em um dia que não houvesse jogo entre as equipes.
A discussão sobre violência nos estádios continua sendo feita de forma rasa e
sem olhar a complexidade da situação que é vivida pelos brasileiros. O implemento
de torcida única e a proibição de entrada nos estádios com vestimentos da torcida
organizada não resultam em melhorias e só servem para deixar o espetáculo cada
5MATTOS, Rodrigo. Governo federal se posiciona contra torcida única e banir organizadas. UOL
Esporte, 11 mar. 2023. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/colunas/rodrigo
mattos/2023/03/11/governo-federal-se-posiciona-contra-torcida-unica-e-banimento-de
organizada.htm. Acesso em: 24 jan. 2025.
27
vez mais pobre. Definir uma política de segurança pública mais eficaz e mais justa
com camadas menos abastadas da população é necessário.
4.3. MODERNIZAÇÃO DO FUTEBOL BRASILEIRO
O futebol reflete a sociedade em que está inserido, e com a propagação do
neoliberalismo no mundo, o esporte também foi profundamente impactado. Segundo
Ferreira (2018), a partir da década de 1970, a ultra-mercantilização do futebol se
acentuou, transformando-o significativamente. A busca por lucros se tornou o principal
motor do esporte, decisões são tomadas de acordo com os interesses comerciais e
não esportivos ou até éticos.
A elitização do futebol brasileiro, evidenciada principalmente pelo aumento dos
ingressos. Ir ao estádio de futebol sempre foi um programa familiar para famílias de
todas as classes sociais. Pierre Bourdieu (1978) argumenta que as desigualdades
sociais são perpetuadas de geração em geração por meio da transmissão do capital
cultural e dos hábitos. Nesse sentido, as elites poderiam ver com desconfiança a
possibilidade de as camadas mais populares alcançarem o sucesso por meio do
esporte, o que poderia ameaçar a estrutura estabelecida. Esse contexto de
profissionalização versus amadorismo, somado à mercantilização e elitização do
futebol, evidencia como o esporte é um reflexo das tensões e transformações sociais.
A pressão pela inclusão e democratização do futebol continua a ser uma
questão relevante, destacando a necessidade de políticas que promovam a equidade
e a inclusão no esporte, garantindo que ele permaneça um espaço acessível a todos,
independentemente de sua origem socioeconômica.
Da mesma forma que o percurso da história nacional, o futebol
também mudava. Assim como acontecia no país, a demanda por maior
participação popular aumentava, sendo impossível manter antigos
privilégios e estruturas. Portanto, a regulamentação e a
profissionalização do futebol não foram fatos isolados, mas parte da
polītica trabalhista que marcou o primeiro governo Vargas (Magalhães,
2012).
A modernização do esporte no Brasil ocorreu por meio de políticas públicas que
utilizavam o futebol para legitimar os avanços pretendidos pelo Governo Vargas. O
Estado brasileiro desempenhou um papel crucial na regulamentação e normatização
28
do futebol no país. Desde o período do Estado Novo, em 1941, quando foi
estabelecido o Conselho Nacional de Desportos (CND), o Estado passou a contar com
um órgão responsável pela orientação, fiscalização e incentivo à prática desportiva no
país. Durante o Estado Novo, o futebol foi promovido como uma ferramenta para
fomentar o sentimento patriótico e promover a harmonia nacional.
Posteriormente, em 1975, a criação da Lei nº 6.251 abriu caminho para uma
maior interferência do mercado no futebol brasileiro. Nos anos 1980 e 1990, o futebol
passou a ser percebido como uma atividade lucrativa, levando o Estado brasileiro a
buscar normatizar as relações entre o futebol e o mercado, intervindo nos rumos do
esporte no país.
A Lei Pelé, promulgada em 1998, introduziu uma nova característica no
processo de modernização do futebol: a presença mínima do Estado, que deixou de
atuar como tutor do esporte, permitindo que as regras fossem ditadas exclusivamente
pelo mercado (Ferreira, 2018). As premissas a serem seguidas tornaram-se a
eficiência e o lucro, com a relação entre futebol e mercado fundamentada no princípio
da livre concorrência.
No Brasil foi instaurado, em 2004, a Comissão Nacional de Prevenção da
Violência para a Segurança dos Espetáculos Esportivos, conhecida como Comissão
Paz no Esporte. Com clara e manifesta inspiração no modelo inglês e estruturado a
partir do conteúdo do Relatório Taylor (Oliveira, 2015 p.15). O objetivo do relatório
produzido era identificar e propor soluções para os problemas de violência que
ocorriam no Brasil.
A manutenção de velhas práticas ao lado de medidas modernizadoras
fora de lugar acabou impedindo a criação das tais “condições básicas
de conforto e segurança” previstas pela Comissão Paz no Esporte e
tiveram efeitos nocivos sobre a cultura torcedora do país e a presença
de público nos estádios, deixando a taxa de ocupação do Campeonato
Brasileiro muito abaixo da média mundial, e atrás de países com pouco
ou nenhuma tradição em futebol (Oliveira, 2015, p.16).
No Brasil, várias leis foram promulgadas com o objetivo de viabilizar políticas
públicas para o desenvolvimento do esporte. Entre elas, destaca-se a Lei n. 9.615/98,
conhecida como Lei Pelé (Brasil, 1998), a Lei n. 9.981/2000 (Brasil, 2000), e a Lei n.
10.671, de 15 de maio de 2003, também chamada de Estatuto do Torcedor (Brasil,
2003). Além disso, a Lei n. 10.672, de 15 de maio de 2003, conhecida como Lei da
29
Moralização do Futebol (Brasil, 2003), e a Lei n. 11.438, de 29 de dezembro de 2006,
chamada Lei de Incentivo ao Esporte (Brasil, 2006), foram sancionadas.
Posteriormente, o Estatuto do Torcedor foi atualizado pela Lei n. 12.299, de 27 de
julho de 2010 (BRASIL, 2010). Segundo Pereira (2020), são essas leis que permitem
o que foi definido como “modernidade na gestão dos clubes de futebol” (p.38).
A Lei Bosman, de 1995, foi um marco importante para o futebol, pois mudou
radicalmente a maneira como os jogadores se movem entre os clubes. Antes dela, os
jogadores ficavam presos aos contratos com seus times, e as transferências eram
dominadas pelos clubes. Tudo isso mudou com a luta de Jean-Marc Bosman, um
jogador belga que desafiou seu clube, o RFC Liège, para que os atletas tivessem o
direito de se transferir livremente ao fim de seus contratos, sem a necessidade de
pagar ao time anterior (Ferreira, 2018). O que Bosman queria, na verdade, era que os
jogadores fossem tratados como qualquer trabalhador europeu, com a mesma
liberdade para negociar seu futuro. Sua vitória não apenas deu mais poder aos atletas,
mas também fez os agentes esportivos ganharem destaque e elevou os salários dos
jogadores de forma impressionante.
Aqui no Brasil, a discussão sobre modernizar o futebol está cada vez mais
presente. A ideia é transformar os estádios, organizar o esporte de maneira mais
profissional, como uma grande empresa. Muitos acreditam que isso é o que o futebol
precisa para resolver seus problemas. Mas, ao mesmo tempo, há uma preocupação
crescente de que essa modernização esteja afastando o futebol de suas raízes.
Acontece que, ao tornar o esporte cada vez mais acessível apenas para quem tem
dinheiro, corremos o risco de perder o que ele tem de mais verdadeiro: a sua ligação
com as pessoas comuns, com as classes populares. Ao focar apenas na parte
empresarial e elitizada, o futebol pode deixar de ser aquele esporte que todos amam
e têm acesso, tornando-se um produto consumido apenas pelos mais ricos. Esse
processo de exclusão das classes populares pode ser uma forma de gentrificação do
próprio ambiente do futebol — um tema que vou abordar com mais calma em um
capítulo mais adiante. Porque, no fundo, o que todos queremos é um futebol que
continue a ser do povo.
A modernização conservadora, que é conduzida de forma a preservar as
estruturas do poder estabelecidas, tem sido uma característica das modernizações do
30
futebol brasileiro desde sua origem. Isso se dá porque o futebol foi introduzido no
Brasil por sua elite dirigente, que estava impregnada por valores liberais vindos da
Europa, mas ainda carregava os valores tradicionais de um passado colonial e
escravocrata.
Se o moderno no futebol foi a profissionalização dos atletas, hoje essa
profissionalização, agora direcionada para os clubes de futebol e seus dirigentes,
representa um estágio mais avançado da evolução no esporte. É necessário que haja
um equilíbrio entre a modernização e a preservação das características populares e
democráticas do esporte.
A subalternidade do conjunto de dirigentes de clubes é fator crucial
para a manutenção da hegemonia da “classe dominante”: os
dirigentes da CBF, que se mantêm no cargo por anos a fio, criando
uma espécie de “corte aristocrática”, e na negociação com a
“burguesia” do futebol, que são os dirigentes de clubes e federações,
que conservam o poder alterando a agenda e normal, sem modificar
os pilares básicos da administração (Pereira, 2020, p.30).
De acordo com Pereira (2020), a manutenção dos campeonatos estaduais
serve como um meio de manter o controle das federações, possibilitando que os
mesmos dirigentes, muitas vezes envolvidos em escândalos de corrupção no futebol
brasileiro, se perpetuem no poder.
5. MEGA EVENTOS, MODERNIZAÇÃO DAS ESTRUTURAS DOS
ESTÁDIOS E OS TORCEDORES CONSUMISTAS
Os megaeventos esportivos, como enfatiza Curi (2013), estão profundamente
conectados a acontecimentos de alcance global, onde o país ou a cidade anfitriã se
coloca sob o holofote das influências e tendências internacionais. O principal
argumento em favor da realização desses eventos de grande porte é o legado positivo
que supostamente deixam para a localidade. Contudo, esse impacto tem sido alvo de
intensos debates entre especialistas e jornalistas, que frequentemente questionam se
o legado prometido se concretiza ou se, na realidade, esses eventos resultam em
"elefantes brancos" — estruturas subutilizadas ou abandonadas — e em escândalos
de corrupção associados à construção das instalações necessárias para sediá-los.
31
O conceito de arenas multiuso surgiu nos Estados Unidos no final da década
de 1980, com um modelo voltado para instalações que atendiam tanto a jogos de
hóquei quanto de basquete, além de campos compartilhados por equipes de beisebol
e futebol americano (Santos, 2014). Atualmente, os eventos esportivos nos Estados
Unidos constituem um dos maiores mercados de entretenimento do mundo. Um
exemplo notável é a realização do Super Bowl, que inclui o famoso show do intervalo,
frequentemente patrocinado por grandes marcas.
De olho na possibilidade de sediar os Megaeventos esportivos, como Copa do
Mundo e Olimpíadas, o Brasil passou por um processo de arenização dos estádios.
Para o Pan Americano, Copa do Mundo e Olimpíadas foram reformados ou
construídos 12 estádios no Brasil, além de reformas que aconteceram sem ligação
com os eventos citados, como o Allianz Parque do Palmeiras. Esse processo de
arenização ficou conhecido como “Padrão FIFA”. Um país que deseje ser sede de
uma Copa do Mundo precisa se enquadrar em diversas exigências cobradas pela
FIFA6. Segundo Junior (2017) a maior reclamação por parte da mídia especializada
era a respeito da Lei Geral da Copa, aprovada em 05 de junho de 2012. Segundo
reportagens da época7, a promulgação de tal lei suspendia temporariamente o código
de defesa do consumidor, o estatuto do idoso e o do torcedor.
As transformações no gerenciamento e nas condições físicas do Estádio
Maracanã provocaram impactos significativos em sua história e cultura. A partir da
década de 1990, com a ascensão do neoliberalismo global e a crescente
mercantilização do esporte, os preços dos ingressos sofreram uma elevação
considerável. Esse aumento resultou na exclusão das classes populares, afastando
uma parte substancial da população do acesso ao estádio. Conforme reportado pelo
6Com a possível suspensão do CDC (Código do Consumidor) pela FIFA, como ficam os direitos do
consumidor? InfoMoney. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/com-a
possivel-suspensao-do-cdc-pela-fifa-como-ficam-os-direitos-do-consumidor/. Acesso em: 20 jan.
2025.
Copa 2014: cota social de ingressos no lugar da meia-entrada suspende direitos. InfoMoney.
Disponível em: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/copa-2014-cota-social-de-ingressos
no-lugar-da-meia-entrada-suspende-direitos/. Acesso em: 20 jan. 2025.
7Com a possível suspensão do CDC pela FIFA, como ficam os direitos do consumidor? InfoMoney.
Disponível em: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/com-a-possivel-suspensao-do-cdc
pela-fifa-como-ficam-os-direitos-do-consumidor/. Acesso em: 20 jan. 2025.
Copa 2014: cota social de ingressos no lugar da meia-entrada suspende direitos. InfoMoney.
Disponível em: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/copa-2014-cota-social-de-ingressos
no-lugar-da-meia-entrada-suspende-direitos/. Acesso em: 20 jan. 2025.
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UOL8, o ingresso para a reabertura do Maracanã, em 2013, custava 30% a mais que
a média dos ingressos dos jogos do Campeonato Brasileiro no mesmo ano, refletindo
uma tendência a elitização e restrição ao público tradicional. O Maracanã, que antes
era um espaço democrático e popular, tornou-se uma arena elitizada e excludente.
Segundo Teixeira (2017), a questão central não é a modernização dos estádios, que
sempre foi vista como necessária, mas sim a implementação de um modelo
estrangeiro sem olhar e adaptar para a realidade vivida no Brasil.
As reformas para os Jogos Pan-Americanos de 2007 foram as que mais
impactaram o Estádio Maracanã, nos primeiros 60 anos de sua história. A obra
resultou no fim da geral, o que alterou significativamente o público presente no
estádio e contribuiu para a sua elitização. Além disso, a cobertura, que representou
um gasto de dinheiro público, produziu uma mudança arquitetônica drástica no
Maracanã, que perdeu quase completamente as suas características originais.
Essas mudanças resultaram em um distanciamento das classes populares do
acesso ao estádio, o que gerou uma elitização não natural, mas sim através de um
projeto de cidade e de estádio que privilegia o torcedor consumidor, buscando
retirar dos estádios aqueles indivíduos considerados vândalos, notavelmente
torcedores aficionados e/ou das classes populares nessa concepção elitista. O
processo de criação desse estádio-cenário com um menor contingente de
espectadores e foco nas transmissões televisivas, portanto, é marcado pela tensão
social entre classes econômicas que vivem em constante embate. A geral, antes
um elemento marcante do estádio foi extinto.
Como já visto, a elitização ocasiona a exclusão de uma camada social
apaixonada pelo esporte, e que não é mais capaz de ir frequentemente
aos estádios. Esta é a consequência central, mas é possível
desmembrá-la em outros pontos também. Assim, se os telões
encantam e nos permitem ver no detalhe o lance do jogo, perdemos a
emoção do radinho de pilha no ouvido enquanto buscávamos enxergar
em meio à multidão. A cadeira confortável nos tira o calor humano de
compartilhar, em pé, a vibração de um gol de seu time. Não à toa
diversas músicas e cânticos de torcida falam da importância da
arquibancada (Ebling 2014, p.60).
8Maracanã gasta mais do que planejado e tem ingresso 30% mais caro. UOL. Disponível em:
https://www.uol.com.br/esporte/futebol/campeonatos/brasileiro/serie-a/ultimas
noticias/2013/09/12/maracana-gasta-mais-do-que-planejado-e-tem-ingresso-30-mais-caro.htm.
Acesso em: 20 jan. 2025.
33
O Allianz Parque, hoje, é muito mais do que apenas um estádio de futebol. Ele
se tornou um verdadeiro símbolo da modernização dos espaços públicos,
transformando-se em uma arena multiuso que também é palco de grandes eventos
culturais. Antigamente, os estádios eram vistos exclusivamente como templos do
esporte. Hoje, eles passam por uma reinvenção: espaços concebidos para
experiências musicais únicas. O Allianz Parque, por exemplo, que já recebeu nomes
como Paul McCartney, Linkin Park e Katy Perry, agora se destaca como um cenário
pensado para shows espetaculares, transformando cada apresentação em um evento
inesquecível e reafirmando sua versatilidade e inovação na cidade. Sua construção
começou em 2011, quando o antigo Palestra Itália, que era a casa do Palmeiras, deu
lugar a essa nova arena, que mais do que um local, representa um marco na história
de São Paulo. Hoje, ele não é só um lugar de futebol, mas um ponto de encontro onde
a cultura se encontra com a paixão pelo esporte.
O Allianz Parque foi um empreendimento inovador, com todas as
características de pioneirismo, urdido por aproximações sucessivas
entre o pensar e as possibilidades que surgiam ao longo do seu
incremento. Não foi algo que chegou ao Brasil pronto, que se construiu
baseado em planta de estádios de fora do país, embora, se lastreasse
nos conceitos do que havia na Europa e Estados Unidos, sobretudo,
com relação ao conforto e à condição de prover espetáculos não
esportivos. Não havia paradigmas no Brasil, e partiu-se de uma
conclusão econômica: só em São Paulo, com certeza, e, talvez Rio de
Janeiro, a ver, poder-se-ia pensar em um empreendimento do tipo,
naquele momento, com segurança de rentabilidade para o investidor
privado (Pereira, 2020, p.102).
No último ano, antes do fechamento do Palestra Itália para reforma, o Palmeiras
registrou uma média de 11.234 torcedores por jogo, conforme reportagem da UOL9.
Após a inauguração do Allianz Parque, a equipe alcançou uma média de 28.908
espectadores, de acordo com uma matéria do GE10. Essa média, embora
significativamente superior, foi impactada pela pandemia, que limitou o acesso ao
9MATTOS, Rodrigo. Média de público do Palmeiras no Brasileiro tem aumento de 163% em 5 anos.
UOL Esporte, 30 nov. 2015. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas
noticias/2015/11/30/media-de-publico-do-palmeiras-no-brasileiro-tem-aumento-de-163-em-5
anos.htm. Acesso em: 24 jan. 2025.
10 SOUZA, Lucas. Palmeiras se despede da arena em 2023 com recorde de público e bilheteira. GE.
3 dez. 2023. Disponível em:
https://ge.globo.com/futebol/times/palmeiras/noticia/2023/12/03/palmeiras-se-despede-da-arena-em
2023-com-recorde-de-publico-e-bilheteira-veja-numeros.ghtml. Acesso em: 24 jan. 2025.
34
estádio. Além disso, o GE destacou que a média de arrecadação nesse período foi de
R$1.753.384,96.
O aumento no número de torcedores presentes aos jogos está diretamente
relacionado ao reajuste dos ingressos e à implementação de programas de sócios
torcedores, que incentivam e facilitam a ida ao estádio. No entanto, essa estratégia
também contribui para o afastamento de torcedores de baixa renda, especialmente
aqueles que precisam percorrer longas distâncias para comparecer aos jogos em São
Paulo.
Os sócios-torcedores se tornaram um ativo que vai além dos ingressos para
assistir aos jogos. Eles oferecem encontro com jogadores, tour pelos estádios,
brindes, entre outros benefícios (Mandelli, 2018). Como podemos verificar através das
múltiplas ofertas de benfeitorias e propostas aos torcedores, cada vez mais, parece
que no mundo atual é necessário não apenas vender produtos, mas sim vender uma
experiência que resulte na sua fidelização.
O Neo-Química Arena, estádio do Corinthians na cidade de São Paulo, foi
inaugurado em 2014 e foi uma das sedes da Copa do Mundo de 2014, pode ser um
exemplo. Dentro do estádio são oferecidos diversos serviços, uma academia, acesso
à saúde, camarote kids, uma megaloja intitulada Poderoso Timão, um estúdio de
estética, além do Camarote Fielzone. A arena também foi projetada para receber
eventos de todos os portes (Azevedo; Marques, 2021). É possível notar que os
estádios que se tornaram arenas não são apenas mais um templo do futebol, são um
negócio que movimenta milhões de reais, todos os anos, e que necessita de uma
estrutura cada vez mais sofisticada e de um elevado custo de manutenção.
O processo de arenização, no qual se insere a edificação do estádio
corintiano, transformou estes equipamentos futebolísticos em espaços
destinados a um público específico, disposto a pagar um alto valor por
conforto e segurança, com o propósito de consumir o espetáculo jogo
de futebol. Desse modo, os torcedores que não desejam atuar como
simples consumidores, aqueles que participam ativamente e
visualizam o estádio como um local para expressar suas opiniões e
reivindicações são cada vez mais penalizados, percebidos como
público que deve ser afastado do estádio (Azevedo; Marques, 2021).
Vivemos em uma sociedade marcada pelo consumo desenfreado, onde somos
constantemente bombardeados por propagandas direcionadas. As redes sociais
desempenham um papel central nesse processo, utilizando dados pessoais para
35
mapear preferências e oferecer produtos ou serviços por meio de anúncios altamente
segmentados.
Segundo Bauman (2008), o ato de consumir tornou-se algo tão rotineiro que
muitas vezes passa despercebido no fluxo das atividades diárias. Contudo, o consumo
é uma prática fundamental da existência humana, presente desde os primórdios da
humanidade. Desde a caça para obtenção de alimentos até compras realizadas pelo
celular com entregas no mesmo dia, o consumo evoluiu, mas sua essência permanece
inalterada. Como afirma Bauman: “Qualquer modalidade de consumo considerada
típica de um período específico da história pode ser apresentada, sem muito esforço,
como uma versão ligeiramente modificada de modalidades anteriores” (2008, p. 37).
Isso demonstra que, apesar das mudanças tecnológicas e culturais, o consumo
continua a desempenhar um papel estruturante na sociedade.
O consumo transforma-se em consumismo quando deixa de ser apenas uma
atividade necessária e passa a desempenhar um papel central na vida, tornando-se
uma parte vital do convívio social. Nesse contexto, as escolhas de consumo começam
a guiar as relações interpessoais, aproximando indivíduos que compartilham
preferências similares no ato de consumir. O consumismo molda a dinâmica social ao
alinhar interesses e criar conexões baseadas no que se consome, evidenciando o
impacto cultural e comportamental desse fenômeno (Guerra, 2010, p.55).
Segundo Bauman (2008, p. 41), “de maneira distinta do consumo, o que é
basicamente uma característica do ser humano como indivíduo, o consumismo é
atribuído à sociedade.” O consumismo caracteriza-se por um ciclo infinito: assim que
uma pessoa adquire o item desejado, ele logo perde o encanto, sendo rapidamente
substituído por outro. Com o constante bombardeio de novidades e inovações
tecnológicas, o interesse pelo novo só cresce, criando uma insatisfação permanente
com as aquisições atuais. Esse ciclo reflete a lógica do consumismo, onde o desejo
nunca é completamente saciado (Guerra, 2010). Conforme Guerra (2010):
Essa sociedade que se apresenta como promessa de satisfação dos
desejos num grau nunca antes visto na história se constitui, no
entanto, sobre o consumismo e a perpétua insatisfação que o motiva.
Para sua manutenção, a sociedade de consumo depende de continuar
a proporcionar grandes sonhos que são continuamente substituídos
por outros, o que funciona como um moto-contínuo que garante sua
existência. Esse processo, que conta em sua constituição com a
36
transferência de significados culturais para os objetos, como vimos
anteriormente, pode dar-se de maneiras distintas, seja através da
desvalorização dos bens de consumo logo após tê-los promovido
como sonhos, seja pela satisfação de sonhos que inevitavelmente
levam a outros ainda maiores (Guerra, 2010, p.60).
Proni (1998) afirma que é possível considerar o consumo relacionado ao
esporte contemporâneo a partir de três perspectivas interligadas para análise:
1) a do consumo de bens: os mercados de artigos e equipamentos
esportivos cresceram com a difusão de práticas esportivas
amadoras e/ou “informais” (maior acesso à prática de muitas
modalidades), com a própria expansão da indústria esportiva, com
a conversão das estrelas do esporte em modelos de saúde, vigo,
sucesso e realização pessoal, e em razão de um crescente número
de “não-praticantes” desejar incorporar, através desse consumo,
um estilo de vida “esportivo”;
2) a do consumo de serviços: a grande demanda por iniciação ou
supervisão esportiva e o alto apreço social por um corpo
modelado, que podem ser constatados na proliferação das
academias e centros esportivos de uso privado, estão associados
à oferta de práticas esportivas dirigidas e ao surgimento de novos
métodos de preparação física (os quais passam a ser vistos como
investimento pessoal para combater o estresse do trabalho e para
aumentar as chances de sucesso profissional ou social); e
3) a do consumo de espetáculos: a cobertura dos eventos esportivos
pelos meios de comunicação de massa, em especial pelas redes
de televisão, não só transformou o espetáculo esportivo em uma
das principais opções de entretenimento, expandindo assim um
promissor segmento das atividades de lazer, como estimulou o
desenvolvimento do marketing esportivo e a comercialização das
competições de alto nível (Proni, 1998, p.80).
O futebol se enquadra perfeitamente na análise de Proni (1998) sobre o
consumo associado ao esporte contemporâneo. No âmbito do consumo de bens, os
clubes de futebol investem constantemente em novas arenas, tecnologias, estratégias
de marketing e, sobretudo, na aquisição de jogadores para manterem sua
competitividade e atratividade. No consumo de serviços, a paixão dos torcedores pelo
futebol alimenta o mercado de produtos e serviços relacionados, desde artigos
esportivos até experiências exclusivas, como academias associadas a clubes. Já no
consumo de espetáculos, o futebol destaca-se como um dos principais eventos
globais, exemplificado pela final da Copa do Mundo entre França e Argentina, que
37
atraiu cerca de 1,5 bilhão de espectadores (Goal, 2024)11, evidenciando a relevância
do esporte como fenômeno cultural e mercadológico.
Hoje, uma equipe de futebol vai muito além de seu papel tradicional no campo;
ela se tornou uma marca global a ser explorada e um poderoso motor econômico,
gerando grandes fluxos financeiros ao redor do mundo. Em matéria publicada pelo GE
(2024)12, as equipes brasileiras da primeira divisão do país, até o momento da
reportagem (agosto), movimentaram mais de 2 bilhões de reais em 301 jogadores no
ano de 2024. Isso demonstra que os investimentos necessários para competir em alto
nível no mercado brasileiro alcançaram números impressionantes. O futebol é o sonho
de diversas crianças que nasceram no Brasil, porém poucas delas conseguem chegar
a atingir o nível de jogadores profissionais e uma pequena parcela serão jogadores
que jogaram em níveis de grandes equipes europeias, sendo reconhecidos
mundialmente.
As transferências de jogadores de futebol foram ficando cada vez mais
flexíveis e cresceram a partir da legislação, tomando-se como base as
leis Zico e Lei Pelé, que foram garantindo maiores direitos aos
jogadores sobre o seu passe e desse modo, os vínculos contratuais
com os clubes formadores passaram a ficar mais flexíveis (Araujo,
2017, p.17).
A cada temporada, fica claro como os clubes europeus estão cada vez mais
voltados para a juventude, buscando talentos ainda muito novos, com o objetivo de
finalizar sua formação como jogadores na Europa e prepará-los para o mais alto nível
do futebol. Exemplos como Endrick e Estevão, do Palmeiras, e Vinícius Júnior e
Rodrygo, do Flamengo e Santos, mostram como esses clubes estão olhando para o
futuro. Muitos desses jovens nem completaram 18 anos e já são vendidos, porque os
clubes sabem que têm um potencial enorme pela frente. Para eles, não se trata
apenas de ter bons jogadores no time, mas de investir em alguém que, com o tempo,
pode se tornar uma estrela do futebol mundial. E, claro, há também a questão
11 GOAL. Super Bowl, Copa do Mundo ou Liga dos Campeões: qual evento tem maior audiência no
planeta. Goal, 2025. Disponível em: https://www.goal.com/br/not%C3%ADcias/super-bowl-copa-do
mundo-ou-liga-dos-campeoes-qual-evento-tem-maior-audiencia-no-planeta/blte4afd89eb81e1148.
Acesso em: 20 jan. 2025.
12 ESPIÃO ESTATÍSTICO. Times da Série A superam a marca de dois bilhões de reais em reforços
no ano; veja quem mais gastou. Globo Esporte, 29 ago. 2024. Disponível em:
https://ge.globo.com/espiao-estatistico/noticia/2024/08/29/times-da-serie-a-superam-a-marca-de-dois
bilhoes-de-reais-em-reforcos-no-ano-veja-quem-mais-gastou.ghtml. Acesso em: 20 jan. 2025.
38
financeira, porque ao apostar nesses talentos, os clubes sabem que podem colher
frutos não apenas no campo, mas também no mercado. É uma aposta que envolve
riscos, mas que, ao mesmo tempo, é uma forma de garantir que, lá na frente, esses
jovens tragam grandes retornos, tanto para o time quanto para o próprio jogador. No
fundo, é uma estratégia para olhar o jogo a longo prazo, não só como uma partida,
mas como uma construção de futuro.
Em uma matéria publicada pelo GE (2024)13, o Chelsea foi destacado como o
clube que mais gastou na última década, com impressionantes R$17,2 bilhões em
contratações. Juntas, as dez primeiras equipes do ranking somaram R$106,3 bilhões
em investimentos no mesmo período. Esses números revelam a magnitude do aporte
financeiro necessário para que os clubes se mantenham competitivos no cenário
global, disputando os principais títulos e atraindo grandes talentos. Vale ressaltar que
esses valores não incluem os gastos com salários de jogadores e funcionários, nem
as despesas com a manutenção das infraestruturas de treinamento e estádios, que
também são essenciais para o funcionamento e crescimento das equipes. As grandes
equipes de futebol são compostas por jogadores de diferentes países, refletindo um
fenômeno global.
Como destaca Rial (2009, p. 4), "o sistema futebolístico aqui, assim como em
outras áreas, antecipa dinâmicas sociais de globalização". Esse movimento, em que
talentos de diversas partes do mundo se reúnem em clubes de elite, não só fortalece
a competitividade das equipes, mas também evidência como o futebol se conecta às
transformações globais, refletindo as trocas culturais e econômicas que moldam
nossa sociedade. É notório que o futebol europeu ainda tem uma grande vantagem
econômica em relação ao futebol brasileiro.
Os clubes europeus se consolidaram como marcas globais, com um alcance
midiático que ultrapassa fronteiras geográficas, graças ao seu enorme poder de
atração e visibilidade. Esse status proporciona aos jogadores a oportunidade de
disputar uma das competições mais prestigiadas do mundo: a UEFA Champions
League. A participação nesta competição, além de ser um marco esportivo, também
potencializa a projeção da marca do clube e a valorização individual dos atletas, em
13 GE. "Chelsea é o clube que mais gastou em reforços na última década: R$ 17 bilhões." Globo
Esporte, 8 set. 2024. Disponível em: https://ge.globo.com/futebol/futebol
internacional/noticia/2024/09/08/chelsea-e-o-clube-que-mais-gastou-em-reforcos-na-ultima-decada-r
17-bilhoes.ghtml. Acesso em: 20 jan. 2025.
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um cenário altamente competitivo e de visibilidade internacional. O alto nível de
exposição que esses clubes oferecem atrai não apenas investimentos, mas também
talentos de diferentes partes do mundo, reforçando a dimensão global do futebol.
Outra vertente do consumismo que podemos observar é a partir dos torcedores
que, por conta de sua paixão, são induzidos a consumir cada vez mais produtos que
seu time do coração vende. Hoje em dia as equipes diversificaram muito na oferta de
produtos para consumo dos torcedores. Vai desde as clássicas camisetas até
agências de viagens que vendem viagens para o torcedor acompanhar seu time em
jogos em outros estados ou países. O protagonismo, antes atribuído a paixão dos
torcedores, vem cedendo espaço para o conforto e o espetáculo, deslocando o foco
da paixão para o consumo. A espetacularização do esporte tem gerado novas formas
de expressar o apoio às equipes. Nas arquibancadas dos estádios, observa-se um
comportamento cada vez mais comum, que envolve tirar fotos, gravar vídeos e, com
a popularização de aplicativos de vídeos curtos, até mesmo realizar as famosas
"dancinhas do TikTok"14. Esse fenômeno levanta um novo debate sobre o modo de
torcer, com torcedores mais tradicionais e apaixonados, que frequentam os estádios
há anos, rotulando a nova geração como "nutella"15, em uma luta pela preservação
dos torcedores "raízes" que priorizam o jogo e o apoio incondicional ao seu time.
É possível constatar que o adepto pode assumir um comportamento
em relação ao torcer, bem próximo ao ato de consumir qualquer outro
tipo de lazer e não ser impulsionado fundamentalmente por seu
ímpeto sentimental com o seu clube preferido. A não conquista de
uma vitória ou de um título é capaz de fomentar no indivíduo a ideia
de que foi lesado, que adquiriu um produto defeituoso onde pagou o
ingresso para adentrar o estádio - por algo que não funciona (Teixeira,
2017, p 29).
O filósofo francês Guy Debord, em sua obra A Sociedade do Espetáculo (1967),
argumenta que, na sociedade contemporânea, as relações sociais e culturais são
mediadas pelas imagens e pela aparência, afastando as pessoas de uma
compreensão mais autêntica da realidade e transformando tudo em um produto
14 As dancinhas do aplicativo de compartilhamento de vídeos Tik Tok são coreografias curtas que são
gravadas e exibidas, na maioria, por pessoas jovens, no ritmo de alguma música popularmente
conhecida.
15 São chamados torcedores “nutella”, os torcedores que preferem o espetáculo e o confronto ao jogo
e apoiar a equipe.
40
consumível. Essa crítica encontra eco no futebol atual, que deixou de ser apenas um
jogo para se tornar um espetáculo global. A experiência do torcedor ultrapassa o
simples ato de assistir ao jogo. As modernas arenas são projetadas para atender a
um consumidor exigente, oferecendo camarotes luxuosos, salas VIP para convidados,
restaurantes de alto custo e outras comodidades que transformam o esporte em um
evento de entretenimento. Paralelamente, a cobertura midiática em grandes
competições desempenha um papel central na espetacularização do futebol. Com o
apoio de marcas globais, cria-se o imaginário de que consumir esse produto – seja
por meio de ingressos, transmissões ou merchandising – é imprescindível.
Debord (1967) descreve o conceito de "monopólio da aparência", no qual
apenas o que é amplamente visível é valorizado. Esse fenômeno é evidente no futebol
globalizado, onde competições como a Premier League inglesa dominam a atenção e
os recursos financeiros, aumentando a desigualdade em relação a ligas menores que
não conseguem oferecer o mesmo nível de espetáculo. Essa concentração de
visibilidade e capital reforça a lógica de mercado no esporte. Nesse contexto, o
torcedor tradicional, antes movido exclusivamente pela paixão, é transformado em um
consumidor passivo. Influenciado pelo bombardeio de informações e publicidade, ele
consome produtos como camisetas, transmissões pagas e ingressos caros sem
questionar o impacto disso na essência do futebol. A mercantilização do esporte altera
sua natureza, substituindo o "valor emocional" pelo "valor de mercado" e reduzindo a
relação torcedor-clube a uma transação comercial.
Segundo o antropólogo Antônio Oswaldo Cruz (2005), o estádio está em um
processo de transformação, deixando de ser acessível a todos, se voltando para um
torcedor mais endinheirado. O público antes visto como torcedor, movido pela paixão
do clube, agora é visto como consumidor de um produto que é o centro de um mercado
que gera bilhões de lucro ao redor do mundo. Segundo Christopher Gaffney, em uma
reportagem16 publicada pela apublic.org, em 23 de agosto de 2013, as novas arenas
alteram o comportamento do torcedor.
É a domesticação da experiência pública. Você se sente mais em
casa, mais relax, você senta na cadeira com encosto, com um drink
na mão e assiste o jogo com uma atitude mais passiva. O torcedor
16 GAFFNEY, Christopher. As novas arenas alteram o comportamento do torcedor. Apublic.org, 23
ago. 2013. Disponível em: https://apublic.org. Acesso em: 16 jun. 2024.
41
apaixonado que usa ou usava o estádio como lugar de solidariedade
social, que deixava as frustrações da semana lá no estádio, xingando
o árbitro, ele não vai ter mais essa escolha, porque não vai poder
pagar (Gaffney, 2013).
Mesmo os estádios, que sempre pareceu ser um reduto da democratização do
acesso, onde todos poderiam ser iguais por 90 minutos, há também o que Curi(2013)
chama de hierarquização do espaço. As pessoas são divididas de acordo com seu
poderio econômico.
Entretanto, temos de insistir em discordar dessa hipótese. O espaço
dos torcedores é hierarquicamente dividido em setores mais caros,
mais baratos e setores para os quais apenas convidados têm acesso.
Os torcedores sabem muito bem onde estão os poderosos e que o
lugar deles é inalcançável. Ao que parece, os jogos de futebol são ritos
que reforçam a hierarquia existente ao invés de desafiá-la (Curi, 2013,
p.71).
A citação de Bauman (2008) sobre o consumismo e o comportamento do
consumidor pode ser expandida para refletir a forma como o futebol moderno tem sido
consumido, especialmente em estádios. O autor aponta que, no contexto do mercado,
o consumismo se caracteriza pela troca de mercadorias defeituosas ou insatisfatórias
por algo mais novo e aperfeiçoado, algo que se aplica diretamente à experiência de
muitos torcedores hoje em dia. Quando um time não atende às expectativas,
especialmente em termos de vitórias, ele é visto como um "produto defeituoso", em
vez de ser encarado com a paixão e o comprometimento típicos dos torcedores mais
tradicionais. O futebol, antes alimentado pela emoção da torcida e pela identificação
com a equipe, tornou-se cada vez mais associado a um tipo de consumo, onde a
qualidade do "produto" oferecido (a performance do time) é constantemente avaliada.
Assim, a relação entre torcedor e clube se transforma: em vez de um vínculo
afetivo, o que se observa é uma transação que exige resultados constantes, como se
o time fosse uma mercadoria que deve "entregar" vitórias e performances satisfatórias
para seu público. Quando esses resultados não são alcançados, surge a insatisfação,
e o torcedor, agora um consumidor, pode até se sentir lesado, buscando "trocar" seu
time ou descontentar-se com sua performance. Neste cenário, a paixão histórica pela
equipe, que antes impulsionava o torcedor a ir ao estádio independentemente dos
resultados, vai cedendo espaço para uma mentalidade mais utilitária, onde o torcedor,
42
como consumidor, espera algo em troca de seu tempo e dinheiro. A experiência no
estádio, portanto, deixa de ser apenas sobre a vivência da emoção do jogo para se
tornar uma questão de satisfação com o serviço prestado pela equipe e sua
administração. O futebol se transforma, então, em mais um produto no mercado, e o
torcedor, que antes era um apaixonado fiel, se vê cada vez mais como um consumidor
exigente, que demanda uma "qualidade" que atenda suas expectativas pessoais e
econômicas.
O futebol, desde sua popularização, tem desempenhado um papel crucial como
meio de inclusão social, oferecendo oportunidades para que os jogadores ascendam
socialmente e proporcionando entretenimento acessível para pessoas de diferentes
camadas socioeconômicas. No entanto, recentemente, observa-se uma dicotomia
entre a percepção de elitização do esporte e a fervorosa paixão dos torcedores, o que
levanta questões fundamentais sobre a natureza do futebol como fenômeno cultural e
social.
O jornalista Mauro Cezar Pereira17 destaca a importância da comunidade e da
identidade compartilhada entre os torcedores, transcendendo barreiras sociais e
econômicas. Ele ressalta que um dos maiores prazeres para o torcedor está em estar
no meio de seus pares, compartilhando o mesmo sentimento de paixão pelo time. É
notável observar que os estádios ao redor do mundo estão se tornando cada vez mais
silenciosos. O torcedor, que antes desempenhava um papel essencial e vibrante no
espetáculo esportivo, está se transformando em um consumidor mais passivo. Esse
fenômeno resulta em um impacto reduzido no ambiente dos estádios, que
costumavam ser palcos de uma atmosfera vibrante e cheia de energia. Diversos
fatores contribuem para essa mudança. A evolução das tecnologias de transmissão e
a crescente oferta de entretenimento esportivo em casa têm mudado a maneira como
os torcedores interagem com os eventos. As comodidades modernas nos estádios,
como assentos mais confortáveis e áreas VIP, também alteraram a dinâmica entre os
fãs e o jogo. Segundo Mascarenhas (2019):
O processo de reforma dos estádios almeja trocar a figura do
“torcedor” (emocional, intenso, excitado, agressivo, viril) pelo
“consumidor”, geralmente de média ou alta renda, mais sereno, que
17 PEREIRA, Mauro Cesar. Palmeiras, Racing e o direito de torcer, no estádio, nas ruas, onde for.
YouTube, 31 jan. 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=DMLRS5saUks. Acesso
em: 1 fev. 2025.
43
aporta nos estádios em família, disposto a assistir passiva e
confortavelmente um “espetáculo” repleto de “astros” midiáticos. O
torcedor, ao contrário, sofre, grita, reclama, reivindica, ameaça e se
articula coletivamente com estranhos. Ele quer ser protagonista do
evento, ao qual contribuiu com sofrido dinheiro e paixão fiel ao seu
clube. O consumidor, solitário ou imerso em seu pequeno e “fechado”
grupo, contempla, aplaude, filma e fotografa o cenário. Uma
experiência sem riscos, sem incertezas, adequada e altamente
lucrativa para os donos do espetáculo (Mascarenhas, 2019, n.p.).
Além disso, a comercialização crescente dos eventos esportivos e a
transformação dos estádios em arenas multifuncionais, onde o esporte é apenas uma
parte do entretenimento oferecido, têm impactado a experiência do espectador. A
sensação de comunidade e a paixão coletiva que antes definiam o ambiente nos
estádios agora são mais raras, com muitos torcedores preferindo a conveniência de
assistir aos jogos de casa. Embora alguns clubes tenham adotado medidas para
ampliar o acesso ao estádio, como campanhas de ingressos populares, essa inclusão
nem sempre se traduz em maior poder de decisão para os torcedores.
5.1. GENTRIFICAÇÃO DO FUTEBOL
O conceito de gentrificação foi criado pela socióloga inglesa Ruth Glass(1964),
inspirada pelas mudanças que testemunhava em Londres. Ruth observou que bairros
outrora habitados por famílias de baixa renda estava sendo revitalizados, mas essa
transformação trouxe consigo um efeito colateral doloroso: os moradores originais,
que tinham suas vidas e histórias profundamente enraizadas nesses lugares, foram
forçados a se mudar. Novos moradores, geralmente de classes sociais mais altas,
começaram a ocupar esses espaços, transformando a dinâmica das comunidades
(Alcântara, 2018). Conforme Alcântara (2018):
Esses processos de gentrificação têm sido classificados como
“culturais” ou “socioculturais”, já que formulados com base em
transformações sofridas pelas grandes metrópoles após o declínio do
modelo econômico industrial e da ascensão do setor de serviços,
verificado a partir dos anos 1970 (Alcântara, 2018, p.2).
Nos últimos anos, os processos de gentrificação urbana e exploração turística
têm operado de forma concomitante em diversas cidades, transcendendo os limites
dos espaços tradicionalmente reconhecidos como destinos turísticos. Historicamente
44
associados a balneários, cidades serranas ou áreas de significância histórica e
arquitetônica, esses locais têm sido progressivamente afetados pela crescente
influência da gentrificação, que resulta na expulsão dos residentes para dar lugar a
empreendimentos voltados ao turismo e à especulação imobiliária (Santos, 2019).
Embora o fluxo de visitantes nesses locais não tenha diminuído, a gentrificação tem
remodelado suas características demográficas e socioeconômicas, transformando
comunidades locais em hospedagens destinadas aos turistas. É notável a emergência
de novos destinos que agora integram a rota global do turismo, impulsionados por
intervenções cada vez mais incisivas, especialmente ao longo das últimas décadas do
século XX. Essa tendência não apenas amplia o leque de opções para os viajantes,
mas também marca uma nova fronteira no panorama urbano, conferindo um novo
protagonismo e legitimando práticas urbanas específicas.
No contexto do futebol, o fenômeno da gentrificação manifesta-se na exclusão
de parcelas da população dos espaços nos estádios de futebol devido aos crescentes
custos associados à participação nesses eventos esportivos (Oliveira, 2019).
Observa-se uma tendência de aumento significativo nos valores dos ingressos para
partidas de futebol, o que tem contribuído para a marginalização de determinados
grupos socioeconômicos e a elitização desses espaços de entretenimento. Esse
movimento está levando à uniformização do público nos estádios, favorecendo o
turismo de pessoas que, embora não sejam necessariamente torcedoras do clube,
apreciam o entretenimento proporcionado pelo esporte.
No entanto, essa tendência também marginaliza uma certa camada da
população, tradicionalmente ligada aos clubes, que pode ser excluída devido ao
aumento dos preços e à comercialização excessiva dos eventos. Como resultado,
muitos torcedores locais, que historicamente compunham a base dos fãs, podem se
ver afastados das arquibancadas, transformando a experiência do estádio em um luxo
acessível apenas a uma parcela mais privilegiada da sociedade.
Os clubes de futebol frequentemente justificam os aumentos nos preços dos
ingressos como uma medida necessária para manter a competitividade e a excelência
das equipes, argumentando que a ampliação da receita é fundamental para sustentar
as operações e os investimentos exigidos pelo esporte de alto rendimento. Em uma
entrevista concedida ao portal GE, a presidente do Palmeiras, Leila Pereira,
argumentou que o futebol é intrinsecamente elitizado e que os valores dos ingressos
não são necessariamente exorbitantes. Ela destacou que, apesar da popularidade do
45
esporte, o futebol tornou-se elitizado devido aos altos investimentos necessários para
manter um time competitivo e campeão. Essa perspectiva ressalta a complexidade
financeira por trás do espetáculo esportivo, onde os custos de operação e contratação
de talentos muitas vezes requerem investimentos substanciais. O ex-presidente do
Atlético Mineiro, Alexandre Kalil18, também defendeu os valores altos de ingressos
comercializados no país. Em suas palavras:
No mundo inteiro, futebol não é coisa para pobre. Doa a quem doer.
Ingresso é caro em todo lugar. Torcida dividida e entrada a preço de
banana estragada só existem no Brasil. O Atlético coloca ingresso a
20 reais e não lota o estádio. Futebol não é público, não é forma de
ajuda social (Kalil, 2017).
No entanto, essa abordagem tem levantado preocupações significativas sobre
a acessibilidade ao futebol como forma de lazer e entretenimento para toda a
comunidade, especialmente para aqueles com recursos financeiros limitados. De
acordo com Moreira (2019), os defensores da modernização dos estádios buscam
adequar o comportamento dos torcedores brasileiros, aproximando-o do perfil dos
torcedores europeus, com destaque para os ingleses, que são a principal inspiração
do modelo de modernização do futebol no Brasil. O ato de torcer também se modificou
com as novas arenas como evidência Rampazzo:
Com o ingresso nominal e os assentos marcados a experiência torna
se individualizada, o anonimato some em meio à vigilância das
câmeras e dos fiscais, e os torcedores à sua volta deixam de ser sua
companhia para tornarem-se outros indivíduos isolados. A política do
all-seated evidencia exatamente isso, a pessoa que está na sua frente
não poderá levantar-se, pois, assim fazendo, ela poderá atrapalhar
sua experiência obstruindo sua visão; se antes ela era uma aliada no
ato de torcer, agora ela chega ao ponto de se tornar um incômodo, tal
qual uma pessoa que fala muito durante uma sessão de cinema
(Rampazzo, 2021, p.10).
A gentrificação nos estádios de futebol não se limita apenas à questão dos
valores dos ingressos, mas também está intrinsecamente ligada a mudanças mais
amplas no perfil demográfico dos frequentadores desses espaços. À medida que os
custos aumentam, os estádios tendem a atrair um público mais homogêneo em termos
18 Alexandre Kalil, o presidente que virou prefeito: “O futebol brasileiro é uma piada”. EL PAÍS. 14 jul.
2017. Disponível em: https://brasil.elpais.com/brasil/2017/07/14/deportes/1500068233_300420.html.
Acesso em: 1 fev. 2025.
46
de classe social, excluindo assim camadas menos privilegiadas da sociedade e
reduzindo a diversidade e a representatividade nos estádios. É o que observa Pedro
Oliveira (2015):
No futebol, a situação não é diferente. Clubes e federações defendem
que o encarecimento dos ingressos é um imperativo dos novos tempos
do futebol e que os altos valores seriam a única saída para clubes em
dificuldades financeiras. Por trás de inúmeras justificativas, no futebol
ou na gestão pública, escondem-se os reais interesses do aumento do
preço dos ingressos em estádios ou de aluguéis em bairros centrais:
excluir os mais pobres dos espaços públicos, trazer classes mais ricas
para ocuparem o seu lugar com o objetivo de auferir lucros maiores,
que serão privatizados em detrimento da coletividade (Oliveira, 2015,
p.40).
Ainda, e segundo Oliveira (2015), os espaços em jogos considerados "menos
importantes" permanecem parcialmente vazios, evidenciando os limites de uma
modernização incompleta. Por um lado, as classes mais altas mostram pouco
interesse em partidas sem apelo decisivo, em parte devido à ausência de padrões
adequados de conforto e segurança na experiência de assistir aos jogos no Brasil. Por
outro, as classes sociais mais baixas enfrentam barreiras financeiras que as afastam
dos estádios.
Os arredores dos estádios frequentemente se tornam palco de conflitos e
disputas envolvendo dirigentes, o poder público e os torcedores. Um exemplo
marcante disso é mostrado em um vídeo do canal do YouTube Peleja, que aborda
como as celebrações nos arredores do Allianz Parque, estádio do Palmeiras, foram
interrompidas por uma ação conjunta de moradores da região, autoridades locais e
até mesmo da diretoria do clube à época.
Essa mudança gerou grande insatisfação entre os torcedores, especialmente
aqueles que não podiam arcar com o alto custo dos ingressos. Para muitos, estar nas
ruas próximas ao estádio era a única maneira de se conectar com o time, criando um
senso de pertencimento e comunidade que foi abruptamente retirado. Essa situação
evidencia como decisões sobre o uso do espaço urbano em torno de arenas
esportivas podem impactar diretamente a relação dos torcedores com seus clubes e
seu direito de vivenciar a cultura do futebol. Além disso, reforça o debate sobre a
elitização do esporte e o acesso às experiências que vão além do jogo em si, como a
vivência coletiva e a celebração das torcidas.
47
Outro aspecto significativo da modernização dos estádios é o aumento notável
da presença feminina. De acordo com Vilella (2021), a modernização trouxe maior
sensação de segurança para as mulheres, resultado da instalação de inúmeras
câmeras nas novas arenas, aliada à evolução do debate sobre misoginia, homofobia
e racismo em nossa sociedade. No entanto, Vilella (2021) também destaca a
prevalência da cultura cisnormativa nos estádios, exemplificada pelas "câmeras do
beijo", muito populares em arenas dos Estados Unidos, que geralmente enfocam
apenas casais heterossexuais e mostram nos telões apenas mulheres que se
enquadram nos padrões de beleza impostos pela sociedade atual. Embora a
diversidade tenha aumentado com a presença cada vez maior de mulheres nos
estádios, esses espaços ainda permanecem predominantemente ocupados por uma
elite branca e pela classe média alta (Vilella, 2021).
No documentário, Adeus Geral: A Elitização do Futebol Brasileiro, o jornalista
Juca Kfouri enfatiza que a "geral" – um espaço historicamente democrático e acessível
à população – foi extinta com a modernização dos estádios. Ele ressalta que essa
transformação ocorreu sem qualquer consulta ou debate público, desconsiderando se
essa mudança refletia, de fato, o desejo coletivo (2023, 00:08:13). Ainda no
documentário, torcedores anônimos manifestam descontentamento com as cadeiras
instaladas nas novas arenas, afirmando que elas limitam a celebração e a festa
característica da torcida. Eles defendem a criação de um setor popular, sem cadeiras,
que permita maior liberdade para a interação e expressão durante os jogos (2023,
00:14:08).
O jornalista Mauro Cezar Pereira também contribui para a discussão ao criticar
os excessos na construção de estádios modernos, como os luxos desnecessários
presentes no estádio do Corinthians, em Itaquera, que conta com pisos de mármore.
Ele aponta que esses elementos elevam os custos de construção e manutenção,
resultando no repasse dessas despesas aos torcedores, o que impacta negativamente
o acesso popular ao futebol (2023, 00:15:37).
A redução do acesso a esses espaços pode comprometer não apenas a
diversidade cultural nos estádios, mas também a conexão mais profunda entre o
esporte e a comunidade. Contra esse cenário, vozes críticas argumentam em favor de
estratégias que equilibrem a necessidade de sustentabilidade financeira dos clubes
com a importância de manter o futebol como um esporte acessível e inclusivo.
48
Em outros países, como a Alemanha, a discussão sobre a inclusão de setores
populares nos estádios está mais avançada, com exemplos como o Signal Iduna Park,
do Borussia Dortmund, que disponibiliza lugares populares a preços acessíveis. Em
2023, os estádios Arena Fonte Nova, em Salvador, e Ligga Arena (antiga Arena da
Baixada), em Curitiba, promoveram mudanças significativas em setores
tradicionalmente ocupados por torcidas organizadas, visando atender às demandas
desses grupos e aprimorar a experiência dos torcedores.
Na Arena Fonte Nova, foram removidos 1.059 assentos do bloco central (116)
do setor norte inferior, área historicamente ocupada pela Torcida Bamor. Essa
alteração foi autorizada pelo governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues, após reunião
com o presidente do Esporte Clube Bahia, Guilherme Bellintani, e o presidente da
Bamor, Half Silva, com o objetivo de reduzir os prejuízos causados por danos às
cadeiras e atender a uma antiga solicitação da torcida. Para garantir a segurança e o
conforto dos torcedores, o espaço passou a contar com numeração indicativa e barras
de proteção (Em cima do lance, 2023). De forma semelhante, o Athletico Paranaense
iniciou a remoção dos assentos do setor Buenos Aires inferior, tradicionalmente
ocupado pela torcida organizada Os Fanáticos.
Essa mudança, iniciada em abril de 2023 e implementada antes da final do
Campeonato Paranaense, visou atender a um pedido antigo da torcida. Além da
retirada das cadeiras, o clube anunciou a instalação de vidros para isolar o setor,
buscando aumentar a segurança e evitar invasões de campo, como as ocorridas
durante o clássico Atletiba (Um dois esporte, 2023). Embora essas iniciativas
promovam a oferta de ingressos a preços acessíveis, elas podem, inadvertidamente,
fomentar um novo processo de gentrificação interna nos estádios. Ao isolar e destinar
áreas específicas com infraestrutura inferior para torcedores de baixa renda, cria-se
uma divisão: apenas aqueles que conseguem pagar preços mais elevados terão
acesso a setores com condições melhores. Essa diferenciação pode contribuir para a
segregação socioespacial dentro dos estádios, marginalizando os públicos de menor
poder aquisitivo e reforçando desigualdades na experiência dos torcedores.
A dinâmica em evolução do cenário esportivo reflete não apenas as mudanças
nos hábitos dos torcedores, mas também as transformações na indústria do
entretenimento esportivo. Esse novo panorama impulsiona a reflexão sobre como
equilibrar a modernização do acompanhamento esportivo com a preservação das
49
tradições e do fervor genuíno dos torcedores, garantindo que o esporte continue sendo
uma experiência autêntica e acessível para todas as gerações.
5.2. FINANCEIRIZAÇÃO E “SPORTWASHING” NO FUTEBOL
O economista Luiz Gonzaga Belluzo (1998) afirma que contemporaneidade das
economias abertas é marcada por um processo de financeirização que redefine as
relações macroeconômicas tradicionais. Esse fenômeno se manifesta na crescente
influência dos fluxos de capitais financeiros, que operam de forma intensa e acelerada
entre mercados nacionais, moedas e diferentes classes de ativos. Em regimes
cambiais flutuantes ou de variação administrada, as decisões de investimento e
consumo passam a ser fortemente condicionadas pelas rápidas mudanças nas
expectativas dos agentes de mercado, evidenciando a predominância dos ativos
financeiros na configuração do ambiente econômico. Tal dinâmica exige uma nova
abordagem para a macroeconomia aberta, em que a centralidade do setor financeiro
é reconhecida como fator determinante das estratégias e políticas econômicas
contemporâneas.
Segundo Santos (2014), a primeira experiência de mercantilização do futebol
foi quando a popularidade do esporte aumentou, atraindo cada vez mais
espectadores, assim resultando na cobrança dos ingressos para ir aos estádios. Agora
se criava um evento chamado “jogo de futebol”.
Segundo Ferreira (2018), dois elementos fundamentais para consumar o
processo de financeirização do futebol foram: a entrada do brasileiro João Havelange
no comando da FIFA e o ressurgimento do capital portador de juros, principalmente
após os anos 1980. João Havelange foi o primeiro não europeu a ocupar o cargo de
presidente da entidade máxima do futebol. Seu principal objetivo era criar um império
futebolístico, sendo uma de suas frases mais notáveis: “Vim para vender o produto
chamado futebol”. Seu período na presidência da FIFA é marcado por diversas
polêmicas como, segundo uma reportagem da BBC19, a forma agressiva com que
19 BBC. As polêmicas que marcaram a carreira de João Havelange. BBC Brasil, 3 ago. 2016.
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-37100616. Acesso em: 18 dez. 2024.
50
atuou na campanha presidencial da entidade e escândalos de corrupção envolvendo
também o presidente da CBF na época, Ricardo Teixeira.
O advento das transmissões futebolísticas pela televisão representou um
marco significativo na transformação do esporte em um produto de alto valor
comercial. A Copa do Mundo de 1970, a primeira a ser transmitida via satélite e em
cores, desempenhou um papel fundamental na consolidação do futebol como um
fenômeno global e comercialmente lucrativo (Franco Júnior, 2007). Este evento não
apenas ampliou a audiência global do futebol, mas também reforçou sua presença no
mercado internacional, destacando-se como um dos pilares da cultura esportiva
contemporânea. A cobertura televisiva em cores permitiu uma experiência visual mais
envolvente, aumentando o apelo do esporte para espectadores e patrocinadores, e
contribuindo para a sua popularização e valorização comercial.
A entrada do capital estrangeiro no futebol brasileiro teve início na década de
1990, marcando uma nova era de investimentos no esporte. Grupos empresariais
globais, como a Parmalat, que investiu em clubes como Palmeiras e Juventude, e a
General Motors, que aportou recursos no Grêmio e no Internacional, são exemplos
notáveis desse movimento (Guaragna, 2005). Atualmente, a modernização do futebol
brasileiro é conduzida pelo Estado, através de leis que abrem a possibilidade para que
o mercado conduza esse novo processo. No entanto, há uma preocupação de que as
empresas capitalistas estejam se unindo para impingir uma marca distintiva de
modernização conservadora em nosso futebol. Se a modernização dos tempos atuais
no futebol brasileiro é aquela definida por Weber (1905) como a busca pela eficiência,
que na moderna lógica capitalista, requer também qualidade e resultados, percebe-se
que ela foi se transmutando durante o tempo.
Essas empresas identificaram no futebol um mercado influente e promissor
para a realização de seus investimentos. O influxo de capital estrangeiro transformou
não apenas a estrutura financeira dos clubes brasileiros, mas também contribuiu para
a profissionalização e a internacionalização do futebol no país, consolidando-o como
um setor atrativo para investidores globais. Em um mundo cada vez mais globalizado,
as marcas veem na paixão gerada pelo futebol uma oportunidade extremamente
lucrativa para a popularização de seus produtos e serviços.
Esse processo de transformação e investimento culminou na "financeirização"
do futebol, exemplificada pela ascensão das Sociedades Anônimas de Futebol
(SAFs). As SAFs estão revolucionando o modelo tradicional do esporte, que era
51
baseado em associações. Luiz Gonzaga Belluzzo20 destaca que, embora a injeção de
capital privado traga inúmeros benefícios, é crucial preservar a dimensão popular do
futebol, fundamental para a identidade e a história de cada clube. Portanto, a
integração de capital privado deve ser equilibrada com a manutenção dos valores e
tradições que tornam o futebol uma parte essencial da cultura e da comunidade.
A entrada de investidores privados na gestão dos clubes, por meio de modelos
como a Sociedade Anônima de Futebol (SAF), também tem sido apontada como um
fator que contribui para a elitização do futebol. Ao priorizar o lucro e a rentabilidade
financeira, esses investidores muitas vezes tomam decisões que estão em desacordo
com os interesses dos torcedores e da comunidade local. Em matéria publicada pelo
brasildefatomg.com.br21 em 08 de novembro de 2023, André Quintão diz:
O que dá para relacionar a SAF com o aumento do ingresso são
questões que também discutimos sobre a privatização de empresas
estatais. Com a SAF, existe uma promessa de uma gestão empresarial
profissional que vai trazer benefícios para os torcedores e para a
população em geral. Porém, a partir do momento que alguém compra
o time, os donos têm que retirar do lucro do clube para recuperar o
dinheiro investido (Quintão, 2023).
Atualmente, América Mineiro, Atlético Mineiro, Bahia, Botafogo, Coritiba,
Cruzeiro, Cuiabá e Vasco da Gama são os clubes brasileiros que implementaram o
modelo de Sociedade Anônima de Futebol (SAF). Esse modelo tem gerado debates
tanto entre os torcedores quanto entre especialistas sobre o futuro das SAFs no Brasil.
Existem, essencialmente, dois tipos de investidores relevantes para discussão
nas SAFs: os torcedores do clube que possuem grandes fortunas e desejam investir
em suas equipes de coração, e os grandes conglomerados internacionais que operam
em diversos continentes. No Brasil, há dois modelos de Sociedade Anônima do
Futebol (SAF) em vigor, sendo o da Red Bull um dos mais discutidos. A empresa, que
possui clubes em diversas partes do mundo, adquiriu no Brasil um time tradicional do
interior de São Paulo, reformulando completamente sua identidade visual e estrutura.
Na Alemanha, o caso do Red Bull Leipzig também é alvo de críticas por parte de
20 FUTEBOTECO. TOMANDO UMA COM... BELLUZZO #94. YouTube, 31 jan. 2024. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=SJtvGdLTsg0. Acesso em: 1 fev. 2025.
21 André Quintão, "Como a Arena MRV e a SAF estão deixando o Galo longe da massa", Brasil de
Fato MG, 8 nov. 2023. Disponível em: https://www.brasildefatomg.com.br/2023/11/08/como-a-arena
mrv-e-a-saf-estao-deixando-o-galo-longe-da-massa. Acesso em: 31 jan. 2025.
52
torcedores de outros clubes da liga. Isso ocorre devido à regra do "50+1", que exige
que a associação do clube seja proprietária total ou majoritária da equipe de futebol,
preservando o controle dos torcedores sobre as decisões do clube
Outro exemplo proeminente é o City Football Group, que controla 13 clubes em
vários países. Este grupo é controlado pelo sheik Mansour bin Zayed Al Nahyan,
membro da família real de Abu Dhabi, e é conhecido por sua abordagem estratégica
de investimentos em futebol, visando tanto o desenvolvimento esportivo quanto a
expansão de sua marca globalmente. Além de ampliar sua visibilidade global, um
aspecto crucial da expansão de grandes conglomerados internacionais é o fenômeno
do “sportwashing”. Esse conceito se origina do “greenwashing”, no qual empresas
adotam práticas ambientais superficiais para melhorar sua imagem pública e obter
vantagens comerciais (Sá, 2023). O “sportwashing” funciona de maneira semelhante,
utilizando investimentos em esportes para desviar a atenção de práticas e políticas
controversas dos investidores.
O caso mais ilustrativo de “sportwashing” é a estratégia adotada pela
monarquia absolutista da Arábia Saudita. O governo saudita tem investido
substancialmente na modernização e expansão da infraestrutura esportiva, incluindo
a construção de estádios de última geração e centros de treinamento. Além disso, o
regime saudita lançou um ambicioso plano de investimento em clubes de futebol, que
inclui a aquisição de estrelas globalmente reconhecidas e a promoção de eventos
esportivos de alto perfil, como a Copa do Mundo de 2030 que já foi anunciada no país.
Esse esforço tem um objetivo claro: desviar o foco das críticas internacionais
sobre as reiteradas denúncias de violações dos direitos humanos na Arábia Saudita.
Organizações não governamentais e grupos de direitos humanos frequentemente
apontam para a repressão política, a falta de liberdade de expressão e outras práticas
autoritárias que ocorrem no país. Ao investir pesadamente em esportes e atrair a
atenção para o espetáculo esportivo, o governo saudita tenta projetar uma imagem de
modernidade e dinamismo, minimizando assim a visibilidade das suas questões
internas problemáticas. É fundamental compreender que, no caso da Arábia Saudita,
a anuência do Ocidente desempenha um papel crucial. O país é um importante
parceiro comercial dos Estados Unidos e, por isso, não está sujeito às mesmas regras
ou pressões enfrentadas por outros países com regimes absolutistas. Essa relação
53
evidencia como interesses econômicos e geopolíticos podem influenciar a forma como
determinadas nações são tratadas no cenário internacional.
Esse uso estratégico dos esportes como uma ferramenta de marketing político
não é exclusivo da Arábia Saudita. Outras nações e entidades também têm adotado
práticas semelhantes, investindo em eventos esportivos e clubes para melhorar sua
imagem global e influenciar a percepção pública. O “sportwashing” evidencia a
crescente intersecção entre esportes e política, revelando como o poder financeiro
pode ser empregado para moldar a percepção internacional e desviar a atenção de
questões éticas e direitos humanos.
Essa dualidade de investidores levanta questões importantes sobre o controle
e a identidade dos clubes. Enquanto alguns veem a entrada de grandes
conglomerados como uma oportunidade para modernização e crescimento
econômico, outros expressam preocupações sobre a perda de identidade e autonomia
dos clubes tradicionais. Além disso, a eficácia do modelo SAF em trazer benefícios
sustentáveis a longo prazo para os clubes brasileiros ainda está em avaliação, com a
comunidade futebolística atenta aos resultados que esses investimentos trarão tanto
dentro quanto fora dos campos.
A busca desenfreada pelo lucro está alimentando um debate entre jogadores e
dirigentes sobre o calendário do futebol. As federações têm criado cada vez mais
competições visando aumentar seus ganhos, muitas vezes sem priorizar o bem-estar
dos atletas. O exemplo mais recente é o novo Mundial de Clubes, organizado pela
FIFA, que será disputado pela primeira vez em 2025. A preocupação dos jogadores
com a redução do tempo de férias e o aumento significativo no número de jogos vem
crescendo. Rodrigo, jogador do Manchester City, chegou a declarar que uma greve
dos atletas pode se tornar inevitável. No entanto, o tema é complexo, pois para uma
greve acontecer, seria necessário o alinhamento de todos os jogadores profissionais,
e apenas uma pequena parcela desses atletas, que recebem salários milionários,
estaria disposta a enfrentar as federações.
5.2.1. A RELAÇÃO ENTRE CUSTO TORCEDOR E A RENDA SALARIAL
DOS FREQUENTADORES.
54
Conforme dados divulgados pela CBF (2023), o Campeonato Brasileiro de 2023
alcançou a maior média de público em sua história, registrando 26.524 pagantes por
jogo. Esse feito superou o recorde anterior de 22.953 pagantes, estabelecido na
edição de 1983. No entanto, esse sucesso aparente levanta um dilema significativo: a
lotação dos estádios versus a marginalização do público de baixa renda. O aumento
de público pode ser atribuído, em grande parte, às políticas adotadas pelos clubes
para atrair os torcedores aos estádios. Um exemplo notável é o programa de sócio
torcedor, que, mediante uma contribuição mensal, garante aos torcedores acesso às
partidas mais importantes da temporada. A pesquisa da Pluri Consultoria, destaca um
aumento de 300% no preço médio dos ingressos mais baratos no Campeonato
Brasileiro em uma década, contrastando fortemente com a taxa de inflação de 90%
no mesmo período.
De acordo com uma reportagem22 do Exame, de novembro de 2023, Palmeiras
e Internacional lideram em número de sócios-torcedores ativos. Além disso, um estudo
conduzido pela Pluri revela que o Campeonato Brasileiro é uma das principais
competições de futebol do mundo, em termos de público e valor de mercado dos
clubes participantes. O torneio brasileiro é o quinto em média de torcedores
globalmente, sendo superado apenas pelas ligas alemã, inglesa, espanhola e italiana.
Entre os anos de 2021 e 2022, o Campeonato Brasileiro ocupa a sexta posição em
termos de aumento de média de público em escala global.
Outra análise da Pluri, datada de 23 de novembro de 2023, classifica o
Campeonato Brasileiro como o sétimo campeonato nacional mais valioso do mundo,
com base no valor de mercado dos elencos dos clubes participantes. Neste ranking,
a Premier League inglesa destaca-se em primeiro lugar, seguida pela LaLiga
espanhola, evidenciando os esforços da Inglaterra em globalizar sua liga e atrair
investimentos e público internacional. No cenário nacional, o Flamengo lidera a média
de renda dos clubes brasileiros, com uma média de R$3.660.798 por partida, seguido
por São Paulo (R$2.514.772) e Palmeiras (R$2.416.475). Notavelmente, o Palmeiras,
apesar de ocupar a quinta posição em média de público, figura entre os três primeiros
em relação à renda média. Além disso, Flamengo e São Paulo lideram a categoria de
22 SANTOS, Mariana. Adversários deste sábado, Palmeiras e Internacional lideram ranking de sócios
no Brasil. Exame, 11 nov. 2023. Disponível em: https://exame.com/esporte/adversarios-deste-sabado
palmeiras-e-internacional-lideram-ranking-de-socios-no-brasil/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em:
24 jan. 2025.
55
público médio em 2023. Uma matéria do GE23 analisou as rendas de público dos
clubes da Série A do Campeonato Brasileiro de 2024, destacando um dado
interessante sobre o Palmeiras. Apesar de possuir apenas a oitava maior média de
público da competição, o clube alcançou a terceira maior renda bruta total, ficando
atrás de Flamengo e Corinthians.
O ticket médio do Palmeiras foi de R$83,91, significativamente superior ao de
São Paulo (R$65,49) e Corinthians (R$57,32). O Flamengo liderou tanto em público
quanto em renda, com uma renda bruta total de R$ 59.579.266 em 19 jogos,
resultando em uma média de R$3.135.751 por partida. Já o Palmeiras registrou uma
renda total de R$ 49.509.851 em 19 jogos, com média de R$ 2.605.782 por partida.
O Corinthians acumulou R$ 48.476.460 em renda bruta total, também em 19 jogos,
com média de R$ 2.551.393 por jogo. Esses dados evidenciam a relevância do ticket
médio na geração de receitas, demonstrando que, mesmo com uma média de público
inferior, o Palmeiras conseguiu alcançar uma renda significativa devido ao valor mais
elevado dos ingressos.
Na final da Copa do Brasil, de 2024, entre Flamengo e São Paulo, a equipe
carioca gerou controvérsia ao vender ingressos para a torcida visitante por R$700,00.
Essa prática provocou uma reação contundente de Vitor Birner, jornalista e
comentarista da ESPN, que em um vídeo publicado no canal do YouTube24 da
emissora afirmou que "estão assassinando o futebol". Birner criticou duramente o alto
preço dos ingressos, apontando que tal estratégia contribui para afastar o torcedor de
classe média e baixa dos estádios, tornando o esporte menos acessível à população
em geral. O jornalista também levantou um ponto importante sobre o modelo de clubes
associativos no Brasil, que, embora sejam sem fins lucrativos, deveriam ter uma
responsabilidade maior em devolver algo à sociedade.
Os clubes, ao adotarem esse modelo, recebem benefícios fiscais e uma série
de vantagens por não visarem lucro, mas, segundo Birner, estão deixando de cumprir
sua missão social ao adotar práticas que elitizam o futebol, afastando o público
tradicional e popular. Ao cobrar preços exorbitantes pelos ingressos, especialmente
23 "Flamengo lidera média de público do Brasileiro; Corinthians, São Paulo, Bahia e Atlético-MG no
top 5", GE, 5 jul. 2024. Disponível em: https://ge.globo.com/ba/futebol/brasileirao-serie
a/noticia/2024/07/05/flamengo-lidera-media-de-publico-do-brasileiro-corinthians-sao-paulo-bahia-e
atletico-mg-no-top-5.ghtml. Acesso em: 31 jan. 2025.
24 BIRNER, Vitor. Estão assassinando o futebol? 2024. Canal ESPN Brasil. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=jKXYZ8MRgrU&t=201s. Acesso em: 31 jan. 2025.
56
para jogos de grande porte como a final da Copa do Brasil, os clubes acabam
excluindo uma parcela significativa de seus torcedores, o que vai contra o espírito
inclusivo e acessível que deveria ser uma das marcas do esporte. Além disso, a crítica
de Birner está alinhada com um movimento crescente de debate sobre a
"gentrificação" do futebol.
A venda de ingressos a preços tão altos, especialmente para as torcidas
visitantes, não só compromete a popularidade do esporte como também desconsidera
o impacto cultural e social do futebol nas comunidades. Como clubes associativos,
que têm vínculos estreitos com suas respectivas cidades e torcidas, a
responsabilidade social deveria ser um pilar fundamental de suas ações, incluindo a
oferta de ingressos acessíveis que permitam a todos os torcedores,
independentemente de sua classe social, assistir e viver a emoção dos jogos. Além
disso, a mídia e as transmissões televisivas têm desempenhado um papel importante
na elitização, com a preferência por horários de jogos que atendam melhor aos
interesses comerciais e televisivos, muitas vezes negligenciando as necessidades e
a disponibilidade dos torcedores comuns.
Esses dados refletem não apenas a popularidade do futebol brasileiro entre os
torcedores locais, mas também sua relevância no cenário internacional,
demonstrando o potencial do Campeonato Brasileiro como um dos principais eventos
esportivos do mundo.
Uma análise mais aprofundada sobre esses dados revelaria aspectos
específicos relacionados à política de preços, ao desempenho dos times e ao
comportamento do público, fornecendo insights valiosos sobre a dinâmica econômica
no cenário do futebol brasileiro. Essas observações sublinham a importância de
políticas inclusivas para garantir que o futebol permaneça acessível a todas as
camadas sociais, enquanto se busca maximizar receitas e expandir a presença global
do esporte. Segundo dados da Pluri Consultoria de 2023,
Palmeiras, Grêmio e Flamengo são os únicos clubes da Série A a
figurarem entre os dez maiores valores de ticket médio dentre todas
as equipes analisadas ao longo da temporada de 2023. – O Palmeiras
se destaca como o clube da Série A com o valor mais alto, mantendo
a posição desde junho, ocupando o quinto lugar no ranking geral. Com
25 jogos disputados em casa, o time paulista ostenta um ticket médio
de R$78,43. – Na sequência do ranking está o Grêmio, que
ultrapassou o Flamengo e agora ocupa a nona posição no geral. O
clube gaúcho, após 18 partidas como mandante, possui um ticket
57
médio avaliado em R$68,82. – O Flamengo, último entre os três times
da Série A no Top 10, fecha a lista. Com 25 jogos realizados em casa,
o rubro-negro apresenta até o momento um ticket médio de R$66,16
(Pluri, 2023).
De acordo com dados do Seade25, a renda média da população da cidade de
São Paulo é de R$5.449,00. Observa-se, no entanto, um aumento de 6,8% no número
de pessoas cadastradas no Cadúnico na cidade de São Paulo26. Atualmente, 1,9
milhões de pessoas utilizam os benefícios fornecidos pelo governo, como o Bolsa
Família, sendo que 800 mil dessas pessoas vivem em situação de extrema pobreza,
com uma renda inferior a R$218,00 por mês.
Segundo o Mapa da Desigualdade 2023, realizado pela Rede Nossa São
Paulo, a desigualdade social na cidade é alarmante. No bairro Jardim Paulista, a
expectativa de vida é de 59 anos, enquanto no Itaim Bibi, ela sobe para 82 anos. Esses
dados destacam a profunda disparidade socioeconômica existente na capital paulista.
As regiões onde se localizam o Allianz Parque e o Morumbi concentram uma
infraestrutura mais desenvolvida e índices econômicos elevados, enquanto a Neo
Química Arena está situada em uma área marcada por desafios socioeconômicos.
Esses espaços revelam as profundas desigualdades e transformações urbanas que a
cidade de São Paulo vive. Nos bairros onde estão localizados o Morumbi e o Allianz
Parque, já se observa uma infraestrutura robusta que reflete altos índices econômicos
entre as pessoas que frequentam e moram por lá.
Em contraste, a NeoQuímica Arena está situada em uma região que ainda
enfrenta desafios estruturais antigos. Essa diferença vai além dos números e índices;
ela toca a vida de pessoas e comunidades inteiras. Quando um estádio moderno surge
em uma região já consolidada e com alto poder aquisitivo, as desigualdades existentes
tendem a se aprofundar. Por outro lado, quando esse mesmo investimento acontece
em áreas com desafios históricos, ele pode trazer uma esperança de renovação e
atrair novos recursos. No entanto, essa mudança também carrega o risco da
25 SEADE. Renda média da população de São Paulo. Disponível em:
https://trabalho.seade.gov.br/wp-content/uploads/2024/07/Seade-Trabalho-renda-desigualdade-renda
domiciliar-trabalho-estado-sao-paulo-2023-.pdf. Acesso em: 31 jan. 2025.
26 MINISTÉRIO DA CIDADANIA. Número de famílias cadastradas no CadÚnico. G1. 31 jan. 2024.
Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2024/01/31/no-de-familias-em-situacao-de
pobreza-na-cidade-de-sp-inscritas-no-cadunico-sobe-68percent-em-2023-diz-ministerio.ghtml. Acesso
em: 31 jan. 2025.
58
gentrificação, um processo pelo qual os moradores de longa data, que não conseguem
mais arcar com o custo crescente de viver na região, são gradualmente substituídos
por pessoas com maior poder econômico, fazendo com que o bairro perca sua
identidade e as histórias que o definem.
Além disso, a diferença salarial entre brancos e negros é outro importante
faceta dessa desigualdade. De acordo com o IBGE27, em 2021, uma pessoa branca
ganhava, em média, 75,7% a mais do que uma pessoa negra. Essas disparidades
refletem-se também nos estádios de futebol em São Paulo e em todo o Brasil.
Atualmente, é possível perceber um processo de embranquecimento e elitização dos
frequentadores dos estádios. O aumento dos preços dos ingressos e a criação de
programas de sócio-torcedor, que frequentemente exigem contribuições mensais
significativas, contribuem para essa exclusão social. Esse fenômeno de elitização e
exclusão econômica não apenas altera a demografia dos torcedores presentes nos
jogos, mas também afeta a atmosfera e a cultura dos eventos esportivos. Torcedores
de baixa renda, que historicamente constituíram a base apaixonada e vibrante do
apoio aos clubes, estão cada vez mais afastados dos estádios.
Essa exclusão tem implicações mais amplas para a sociedade. A presença
diversificada nos estádios de futebol sempre foi um microcosmo da sociedade
brasileira, refletindo suas complexidades e desigualdades. À medida que os estádios
se tornam espaços mais elitizados, perde-se uma importante arena de convivência e
interação social entre diferentes classes e raças. Em resumo, os dados destacam não
apenas as disparidades econômicas e sociais de São Paulo, mas também como essas
desigualdades se manifestam em espaços culturais significativos como os estádios de
futebol. A crescente elitização dos estádios representa uma perda significativa para a
cultura esportiva e para a sociedade.
Esses desenvolvimentos destacam a necessidade de políticas inclusivas que
garantam o acesso ao esporte para todas as camadas sociais, preservando ao mesmo
tempo a rica cultura futebolística do Brasil. A abordagem equilibrada entre a
27 IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - PNAD Contínua - 2021. Disponível
em: https://www.infomoney.com.br/carreira/renda-media-de-trabalhador-branco-e-757-maior-do-que
de-pretos-diz-ibge/. Acesso em: 31 jan. 2025.
59
modernização do esporte e a manutenção de sua acessibilidade é crucial para que o
futebol continue a ser uma fonte de orgulho e união para a sociedade brasileira.
6.CONSIDERAÇÕES FINAIS
O futebol brasileiro, em sua essência, é um espelho das contradições e
potencialidades de um país marcado por desigualdades, mas também por uma
capacidade criativa de resistência. Ao analisar fenômenos como a gentrificação dos
estádios e a transformação do torcedor em consumidor, este trabalho evidenciou que
o esporte, longe de ser um mero entretenimento, reflete disputas de poder, projetos
econômicos excludentes e a luta pela preservação de identidades culturais. O Allianz
Parque, assim como a Arena Corinthians, simboliza essa encruzilhada: enquanto se
apresenta como ícone da modernidade, seu modelo de gestão e urbanização reforça
dinâmicas de exclusão e esvaziamento simbólico.
A gentrificação associada a esses empreendimentos não se limita à esfera
urbanística. Ela opera como um mecanismo de controle social, substituindo histórias
coletivas por narrativas de consumo. O Allianz Parque, inserido em uma região já
valorizada de São Paulo, acelerou processos de especulação imobiliária e segregou
ainda mais o acesso ao futebol, privilegiando um público de alto poder aquisitivo. A
arquitetura imponente do estádio, aliada à oferta de serviços premium, transformou o
ato de torcer em uma experiência fragmentada, onde a lealdade ao clube é mediada
por transações financeiras. Essa lógica, amplificada pelas SAFs e por parcerias
público-privadas opacas, revela uma tensão irreconciliável entre o futebol como
negócio e o futebol como patrimônio afetivo.
A ascensão do torcedor-consumidor, por sua vez, não é um fenômeno isolado:
está vinculada à espetacularização midiática e à financeirização do esporte.
Plataformas digitais e contratos bilionários com patrocinadores priorizam audiências
globais em detrimento das bases locais, esvaziando o sentido comunitário das
torcidas. No Allianz Parque, a regulamentação de bandeiras, a restrição a cânticos e
a priorização de eventos corporativos ilustram como a "segurança" e o "conforto" são
discursos que mascaram a domesticação da paixão popular. A violência nos estádios,
frequentemente atribuída às torcidas organizadas, é sintoma de um mal maior: a
frustração de quem se vê excluído do esporte que ajudou a construir.
60
Contudo, a resistência persiste. Movimentos contra a modernidade futebolística
demonstram que a sociedade civil não aceita passivamente a mercantilização do
futebol. O caso do Allianz Parque, com suas contradições entre modernidade e
tradição, evidencia que mesmo em estádios elitizados a cultura popular encontra
brechas: seja nas críticas das torcidas organizadas, seja nas manifestações artísticas
das periferias que mantêm viva a relação afetiva com o clube. O futebol feminino, por
sua vez, surge como um contraponto à lógica do lucro imediato, mostrando que
investimentos em formação e visibilidade podem resgatar o esporte como ferramenta
de transformação social. As propostas apresentadas neste trabalho — como a
regulamentação das SAFs, a democratização da gestão e a criação de políticas
públicas que incluam clubes às comunidades — não são utópicas. Elas partem do
reconhecimento de que o futebol só permanecerá relevante se for capaz de equilibrar
viabilidade econômica e responsabilidade social. O exemplo alemão dos clubes 50+1
prova que é possível conciliar investimento privado com controle popular, evitando
que estádios se tornem “shoppings de luxo” desconectados de suas raízes. Por fim,
este estudo reafirma que o futebol brasileiro não precisa negar sua complexidade para
ser moderno. Sua força está justamente na capacidade de sintetizar tradição e
inovação, desde que as mudanças não apaguem as vozes das arquibancadas.
Como alertou Nelson Rodrigues, perder a essência romântica do futebol é
apagar parte da alma brasileira. Cabe às novas gerações garantirem que o esporte
não seja refém de algoritmos ou contratos bilionários, mas continue a ser um espaço
onde, mesmo nas adversidades, a bola role livre — não apenas como produto, mas
como promessa de um país mais justo. O apito final ainda não soou. Resta saber se
o futebol será salvo por quem o ama ou perdido por quem o explora. A resposta está
em nossas escolhas.
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Sergipe, Departamento de Comunicação Social, 2014. Orientadora: Profa. Dra.
Verlane Aragão Santos.
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Italia e primeiro título. Disponível em: https://www.palmeiras.com.br/linha-do
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SOCIEDADE ESPORTIVA PALMEIRAS. Leila Pereira assina termo de posse e
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segundo mandato à frente do Palmeiras. Disponível em:
https://www.palmeiras.com.br/noticias/leila-pereira-assina-termo-de-posse-e-inicia
segundo-mandato-a-frente-do-palmeiras/. Acesso em: 24 jan. 2025.
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Orientador: Prof. Victor Hugo Godoy Nascimento.
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UM DOIS ESPORTES. Athletico faz mudanças em setor da torcida organizada na
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da
Baixada.
2023.
Disponível
em:
https://www.umdoisesportes.com.br/athletico/athletico-faz-mudancas-em-setor-da
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VILELLA, Maria Luiza. Mulheres palmeirenses: práticas torcedoras e formas de
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WEBER, Max. A ética protestante e o "espírito" do capitalismo. Tradução de José
Marcos Mariani de Macedo. Revisão técnica, edição de texto, apresentação, glossário,
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culturais-e-cidadania/edicao1/cnt/modulo2/1-1.html. Acesso em: 03 mar. 202. O artigo do autor Fernando Seike Tamura
Pobreza finançeira se reflete em um elenco muito fraco.
Confira a noticia no UOL .https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2026/09/21/bastidores-memphis-e-capitaes-interromperam-papo-sobre-demissao-de-diniz.ghtm
Confira os arquivos do Corinthians. No site campeões do futebol . .https://www.campeoesdofutebol.com.br/corinthians_capa.html.
Imagem do Site Oficial do Corinthians.