O Bahia é o primeiro semifinalista do Brasileirão Feminino! As Mulheres de Aço venceram o Palmeiras nos pênaltis por 5 a 4, anteontem , na Arena Barueri, após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, e avançaram na competição. Os clubes haviam empatado também por 1 a 1 na ida, na Arena Fonte Nova.
Raíssa Bahia abriu o placar para o Palmeiras, mas Dan Nunes deixou tudo igual. A atacante alviverde marcou aos 28 minutos do primeiro tempo, aproveitando passe na medida de Bia Zaneratto. Na segunda etapa, aos 11 minutos, Dan recebeu de Roqueline entre duas marcadoras e finalizou no cantinho de Kate Tapia para empatar.
Nos pênaltis, o Bahia levou a melhor. Gica, Isa Fernandes, Taty Sena, Wendy Rosa e Cássia marcaram para o Tricolor. Do lado alviverde, Bia Zaneratto, Poliana, Fê Palermo e Pati Maldaner acertaram suas cobranças, mas Tainá Maranhão teve a batida defendida pela goleira Yanne.
Dois tempos distintos. As pelstrinas dominaram o primeiro tempo, com maior jogo ofensivo e marcação alta na saida de bola . Na etapa final, as mulheres de aço equilibraram o confronto e chegaram ao gol de empate.
Clara Lopes Ribeiro
Leila Sanches de Almeida
UM OLHAR SOBRE
O FUTEBOL FEMININO
NO BRASIL E SEU LUGAR
NA PSICOLOGIA
DOI: 10.31560/pimentacultural/978-85-7221-461-2.12
RESUMO:
O futebol é uma grande paixão do povo brasileiro. Entretanto, o impacto
cultural, econômico e o grande interesse pelo esporte, amplamente
divulgados na mídia, referem-se principalmente ao futebol masculino
profissional. Não é dada a devida importância ao futebol feminino. Apesar
de atualmente vivermos um momento de crescimento da modalidade,
ainda há muito a se pensar, investir e estudar sobre o futebol de mulheres.
No âmbito da Psicologia do Esporte, tem havido espaço para esta prática
esportiva? A partir da condução de um estudo de caso, uma entrevista
realizada com um acadêmico que atua nessa área mostrou que a Psicologia
vem trabalhando pela inclusão feminina no futebol. A Associação Brasileira
de Psicologia do Esporte não apenas reconhece a necessidade de luta pela
igualdade de gênero no futebol, também a empreende. Contudo, apesar
da entrada e consequente aumento expressivo do número de mulheres
praticantes de futebol, o discurso social mantém, de forma velada,
esse esporte como característico da esfera masculina. É fundamental
a continuidade e aumento de estudos e ações que visem o avanço e a
atualização de políticas voltadas para o futebol feminino.
Palavras-chaves: Futebol feminino, Psicologia do Esporte, aspectos
culturais.
235
INTRODUÇÃO
O Brasil é conhecido mundialmente como o “país do futebol”
(CALDAS,1986, p. 1). Certamente, este é o esporte mais praticado e
amado no país, sendo parte fundamental da formação cultural do
povo brasileiro. Dos times mais populares até os mais desconheci
dos e regionais, o futebol movimenta a vida de milhões de pratican
tes e torcedores apaixonados, que encaram a modalidade como uma
esfera importantíssima em suas vidas. Entre os futebolistas, inclu
sive, há uma relação de identidade com seus times. Comportamento
similar também ocorre entre indivíduos que não se definem apenas
como torcedores de um time, mas sim tomam o time como um dos
aspectos que o descrevem. Dizem, por exemplo, “eu sou Fluminense”,
ao invés de “eu torço pelo Fluminense”.
Além da paixão, o futebol destaca sua relevância cultural pelo
seu efeito econômico. Esse impacto fica claro quando pensamos
nos investimentos milionários dos grandes clubes brasileiros, com
compra/venda de jogadores, pagamentos de salários, patrocínios,
investimentos em infraestrutura, vendas de ingressos e mercadorias,
entre outras trocas financeiras que movimentam milhões, senão
bilhões, de reais. Mas a repercussão vai além dos clubes, chegando
à sociedade como um todo por meio da venda de eventos para tor
cedores, comida e bebida ao redor de estádios e produtos não-li
cenciados, por exemplo.
Entretanto, o impacto cultural, econômico e a paixão pelo
esporte, amplamente divulgados na mídia, referem-se principal
mente ao futebol masculino profissional. No país do futebol, o futebol
feminino é constante e historicamente “jogado para escanteio”, não
lhe é dado a devida importância. Apesar de atualmente vivermos um
momento de crescimento da modalidade, ainda há muito a se pen
sar, estudar e investir no futebol de mulheres.
236
Que tal conhecermos o discurso de um psicólogo do esporte,
e acadêmico, sobre o futebol feminino no Brasil?
A HISTÓRIA DO FUTEBOL
FEMININO NO BRASIL
O futebol é um esporte de origem inglesa que chega ao Brasil
no final do século XIX. Inicialmente, o esporte foi introduzido por
jovens da elite, que iam estudar na Inglaterra e retornavam trazendo
consigo a nova modalidade. Charles William Miller, que, ao voltar do
país inglês, trouxe diversos materiais necessários para a prática do
esporte, como camisas, bolas e chuteiras, é considerado o pai do
futebol no Brasil (BROCH, 2021).
Segundo Broch (2021), apesar de ser muito popular atual
mente, o futebol era uma modalidade muito custosa, envolvendo gas
tos com equipamentos e gramados, sendo considerado um esporte
da elite, praticado apenas por homens brancos e ricos. A prática não
era permitida a negros, pobres e mulheres, que precisavam jogar
clandestinamente caso quisessem participar da modalidade.
Aos poucos, o futebol foi se consolidando e se profissiona
lizando no país. Novamente, no início do processo de profissionali
zação apenas homens brancos poderiam jogar. A popularização do
esporte se deu a partir da década de 1920, quando pobres e negros
começaram a ocupar espaço na modalidade, apesar de ainda enfren
tarem muitos preconceitos.
Mesmo com a pequena abertura, as mulheres seguiam impe
didas de jogar futebol. A partir de 1941, inclusive, a proibição deixa
de ser social e passa a ser legal. O Decreto-Lei nº 3.199 assinado
por Getúlio Vargas trazia em seu artigo 54 que: “Às mulheres não
237
se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições
de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de
Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas
do país.” (BRASIL, 1941).
Este Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, assinado
por Getúlio Vargas, estabeleceu as bases da organização dos des
portos no Brasil e criou o Conselho Nacional de Desportos (CND).
No entanto, ficou conhecido por ter proibido para mulheres, através
do Art. 54, a prática de esportes considerados “incompatíveis com
as condições de sua natureza” (ibid., CAPÍTULO IX), o que incluiu o
futebol profissional e amador por décadas.
É importante destacar que o Decreto-Lei, por si só, não espe
cificava quais eram as modalidades incompatíveis com a “natureza”
feminina. Apesar disso, incluía-se o futebol, visto que era entendido
como uma modalidade agressiva e violenta, características que iam
de encontro a uma suposta fragilidade feminina.
Além disso, como mencionado por Dacosta (2006), em 1965
o Conselho Nacional de Desportos aprovou a Deliberação Nº 7, que
era mais específica na proibição da prática de algumas modalidades
por parte de mulheres, incluindo o futebol, futebol de salão e futebol
de praia, entre outros esportes considerados masculinos.
Apesar dos decretos, grupos de mulheres resistiam à proibi
ção e jogavam clandestinamente de maneira recreativa em campos
de várzea, nas praias ou em outros espaços não-esportivos. Como
não existiam campeonatos ou clubes profissionais por muitas déca
das, o desenvolvimento do futebol feminino foi muito prejudicado no
Brasil (GOELLNER, 2021).
Entre o final da década de 1970 e início da década de 1980, o
país passava por inúmeras mudanças políticas, influenciando diver
sas esferas da sociedade, inclusive o esporte. Com isso, e a partir de
238
movimentos sociais e pautas femininas que lutavam pelos direitos
das mulheres, em 1979 foi revogada a Deliberação Nº 7, que proibia
mulheres de praticarem a modalidade. Dois anos depois, já era dis
putado o primeiro campeonato feminino de futebol de praia do Rio
de Janeiro (GOELLNER, 2021).
Em 1983, o Conselho Nacional de Desportos finalmente reco
nheceu o futebol feminino como um esporte legítimo e autorizou sua
prática, mas com algumas modificações que eram sugeridas pela
FIFA (GOELLNER, 2021). Ainda nesse ano, foi realizado o primeiro
Campeonato Carioca de Futebol de Campo Feminino e, também, a
primeira Taça Brasil de futebol de campo, que foi conquistada pelo
EC Radar, clube pioneiro no futebol feminino (DACOSTA, 2006).
A partir de então, mais campeonatos foram sendo organi
zados, com a participação de mais clubes e atletas. Além de cam
peonatos nacionais de clubes, uma seleção feminina é formada e
passa a atuar em competições internacionais. Em 1991 é realizado o
primeiro campeonato Sul-americano, em que o Brasil foi campeão,
e a primeira copa do mundo de futebol feminino, em que a seleção
terminou em nono lugar (DACOSTA, 2006).
O Atlas do Esporte (DACOSTA, 2006) mostra que a década
de 90 pode ser destacada como um momento de desenvolvimento
de muitos campeonatos internacionais e, consequentemente, da
seleção brasileira. É possível citar campeonatos sul-americanos,
copas do mundo e os jogos olímpicos como os campeonatos mais
importantes do período. Enquanto isso, campeonatos nacionais tam
bém seguiam sendo realizados.
No início dos anos 2000 a seleção também participou de
campeonatos importantes, conseguindo alguns dos melhores resul
tados já alcançados pela seleção feminina até hoje. Destaca-se aqui
o ouro nos Pan-Americanos (2003 e 2007), prata em duas Olimpíadas
(2004 e 2008) e segundo lugar na Copa do Mundo (2007), além do
239
primeiro lugar no Sul-americano (2003), campeonato que já havia
sido conquistado em outras oportunidades.
Goellner (2021) aponta que era um momento de muita espe
rança na modalidade por maiores investimentos, desenvolvimento e
profissionalização. Apesar disso, mesmo com a conquista de tantos
resultados expressivos, pouco foi feito pelo avanço do futebol femi
nino, e a autora chega a destacar que algumas jogadoras expressa
ram publicamente seu descontentamento com a situação. Entre elas
estava Sissi, um dos nomes mais importantes da história do futebol
feminino no Brasil, que não foi convocada para a Copa de 2003
devido às críticas feitas à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Essa foi uma época de muitos protestos por parte das jogado
ras, que destacavam a falta de investimentos e cuidados com a moda
lidade. Na volta da Copa do Mundo de 2007, por exemplo, alguma
atletas destacaram a preparação inadequada com a falta de amisto
sos, alimentação inadequada ao longo da competição, falta de trans
parência em relação a premiação e demora no pagamento do prêmio
pela medalha conquistada no Pan-americano (GOELLNER, 2020).
Em 2004, após a conquista da medalha de prata nas
Olimpíadas, a CBF prometeu uma série de melhorias e investi
mentos na modalidade. Porém, mais uma vez as atletas apontaram
que nada foi feito (GOELLNER, 2021). Essas, e inúmeras outras
situações ao longo dos anos, revelam o descaso da própria CBF,
órgão que deveria prezar pelo desenvolvimento do futebol no brasil,
pelo futebol feminino.
Após anos de denúncias e protestos por parte de atletas e
torcedoras, aos poucos as confederações passaram a olhar com
mais cuidado para o futebol feminino. Vivemos atualmente, então,
um momento de maior investimento na modalidade. Em 2016 a FIFA,
órgão mais importante do futebol mundial, estabeleceu o futebol femi
nino como uma das áreas estratégicas a ser trabalhada nos próximos
240
anos. Com isso, as organizações de futebol ao redor do mundo foram
obrigadas a investir, ainda que minimamente, no futebol feminino.
A partir da resolução da FIFA, a Confederação Sul-americana
de Futebol (CONMEBOL), definiu que os clubes que não tivessem
uma equipe feminina participando de competições nacionais não
poderia participar, com sua equipe masculina, dos campeonatos
internacionais (GOELLNER, 2021). Isso recaiu sobre a CBF, que
implementou que os clubes da série A seriam obrigados a ter uma
equipe principal e categorias de base femininas atuando em compe
tições. Posteriormente, a obrigação seria estendida às equipes das
outras séries do campeonato nacional.
Uma pesquisa feita pelo Corinthians (2023), clube de maior
destaque e investimento no cenário do futebol feminino brasileiro
e sul-americano, revela que o interesse pelo futebol feminino vem
crescendo desde 2018. Isso é evidenciado principalmente pelas
últimas copas do mundo, de 2019 e 2023, que bateram recordes de
público e espectadores. Além disso, pelas redes sociais é possível
notar uma maior procura e engajamento em relação à notícias de
campeonatos, times e atletas do futebol feminino brasileiro e mun
dial (CALDAS, 2002).
E NA PSICOLOGIA, HÁ ESPAÇO
PARA O FUTEBOL FEMININO?
Para essa reflexão foi desenvolvido um estudo qualitativo sob
a forma de estudo de caso único, modalidade de pesquisa que possi
bilita um maior aprofundamento em uma questão, por considerar os
aspectos subjetivos a ela relacionados.
A coleta de dados foi feita através de uma entrevista
semiestruturada conduzida a partir dois eixos: o futebol feminino
241
e a ABRAPESP (Associação Brasileira de Psicologia do Esporte), e
mudanças na visão social sobre o futebol feminino.
A escolha da entrevista como o instrumento privilegiado para
a coleta de dados se deu por tratar-se de um procedimento usual
do trabalho de campo, que propicia ao pesquisador a obtenção de
informações através da fala de atores sociais (MINAYO, 2014).
A entrevista facilita o aporte de:
[...] fatos; idéias; crenças; maneiras de pensar; opiniões,
sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar;
conduta ou comportamento presente ou futuro; razões
conscientes ou inconscientes de determinadas crenças,
sentimentos, maneiras de atuar ou comportamentos
(Jahoda, 1951 apud Minayo, 2000, p. 108).
A seleção do participante do estudo se deu pela Técnica
da Bola de Neve (BIERNACKI; WALDORF, 1981). Trata-se de um
psicólogo do esporte que dialoga com a ABRAPESP. Sua par
ticipação nesse estudo foi firmada com a assinatura do Termo de
Consentimento Livre e Esclarecido.
A entrevista iniciou-se com sua reflexão sobre o futebol femi
nino no âmbito da Psicologia, em especial na área da Psicologia do
Esporte. Vejamos, a seguir, um fragmento de suas considerações
sobre o espaço concedido ao futebol feminino pela ABRAPESP.
[A ABRAPESP está completando 20 anos. Você pode
comentar se há espaço para o futebol feminino na
associação e se houve alguma mudança no espaço
dado a essa modalidade?]
A ABRAPESP já está junta do futebol feminino há bas
tante tempo, bastante tempo. Não é de agora que têm
representantes [psicólogos]... associados... lá no futebol
feminino. Por exemplo, ...uma associada no futebol profis
sional e uma associada em uma das categorias de base
[da CBF]. [...] esse é o tipo de espaço.
242
Vemos que através da ABRAPESP a Psicologia tem conquis
tado espaço para atuar no futebol feminino. Isto, de alguma forma,
está contribuindo para uma maior participação de psicólogos na
área do esporte, como parece indicar sua fala a seguir:
…[Há] uma não-associada, mas também psicóloga do
esporte, em outra categoria de base, né, em outra idade
da categoria de base.
Quanto à existência de mudanças nos últimos anos no
espaço dado ao futebol feminino, vê-se que a ABRAPESP mantém
de forma constante o incentivo e a visibilidade dada ao esporte. Já
o ritmo de aceitação e divulgação dessa modalidade esportiva na
mídia e na sociedade como um todo caminha em ascensão, porém
em passos mais lentos.
[Em sua visão, houve alguma mudança no espaço dado
a essa modalidade, maior ou menor visibilidade/prestígio,
por exemplo, tanto na Associação, quanto na sociedade
em geral, nesses últimos anos?]
Então, na Associação [...] sempre incentivou muito.
Inclusive, vai ter até um congresso agora em novembro,
em Petrópolis, o congresso da ABRAPESP, onde a psicó
loga que acompanhou a seleção feminina nessa Copa do
Mundo estará lá como palestrante. Já para a sociedade,
eu acho que sim, de uma maneira geral, né? Acho que
sim, acho que é uma evolução que vem acontecendo.
Claro que ainda tem que evoluir muito, tem muita coisa
para acontecer, mas sim. Por exemplo, ainda se vende
mais notícias de que… Durante a Copa do Mundo, a
gente teve notícias do soco na cara, lá no masculino do
Flamengo. Ainda se vende mais esses socos na cara do
que a Copa do Mundo feminina. Mas eu acho que as
coisas estão melhorando. Se a gente fizer um compara
tivo, eu acho que sim.
O destaque de mudanças na ABRAPESP relacionadas ao
incremento de atividades sobre o futebol feminino é constatada na
243
menção à realização de um Congresso de Psicologia do Esporte,
pela entidade, que inclui a temática do futebol feminino.
Já no que diz respeito à sociedade em geral, o entrevistado
aponta questões éticas que mostram a dificuldade de uma mudança
cultural. Entretanto, ele considera que apesar de ainda ser dada visi
bilidade a determinados símbolos de masculinidade pela mídia, tal
como a “permissão” de agressão física no futebol masculino, pode-se
perceber um gradual aumento da difusão de eventos relacionados
ao futebol feminino, tal como a Copa do Mundo.
DISCUSSÃO
Cabe aqui uma pequena reflexão, a partir da Sociologia
Reflexiva, sobre a história do futebol feminino no Brasil e os recortes
(trechos) apresentados da entrevista realizada, uma vez que Pierre
Bourdieu (1989) buscava entender um discurso voltando seu olhar
para o contexto de sua produção e para a história da sociedade.
Bourdieu (ibid.) considera que o sujeito é profundamente
atravessado pela sociedade. Suas normas, seus valores, são
interiorizados ao longo da vida e dão origem a certas formas de
pensar e se comportar.
A estrutura social é determinada por relações e trocas que
existem na sociedade, sejam elas conduzidas com recursos mate
riais, econômicos, simbólicos ou culturais, e resulta em um sistema
de poder. Diferentes grupos sociais ocupam posições diferentes
nessa estrutura social devido à distribuição desigual desses recur
sos. Existe, então, uma relação de dominação simbólica, um poder
invisível que é reproduzido inconscientemente pela sociedade e atua
de forma a manter certos grupos em posição de privilégio em detri
mento de outros (BOURDIEU, 1989).
244
O futebol é feito por sujeitos e, como modalidade, não está
apartado da sociedade. Uma vez que tudo que atravessa o sujeito e
a sociedade atravessa também o futebol, cabe fazer uma análise de
seu contexto e desenvolvimento.
A modalidade chega ao Brasil como pertencendo à elite,
sendo praticada apenas por homens brancos e ricos. A proibição
da prática por negros, pobres e mulheres mostra claramente uma
estrutura de dominação social nesse esporte. Mesmo com a entrada
desses grupos no esporte ao longo dos anos, é notável que a
posição de destaque dada a homens brancos e ricos permanece.
Percebemos isso de diversas maneiras, como nos casos de racismo
frequentes em jogos e a constante desvalorização da modalidade
feminina, por exemplo.
Desde de que a modalidade chegou ao país, ocorreram
inúmeras tentativas de coibir a participação de mulheres em jogos
de futebol. Para isso, foram produzidos discursos, até mesmo ofi
ciais, baseados, em sua maioria, em um controle sexual e moral de
homens sobre as mulheres.
Por muitos anos, a proibição existia “apenas” no campo da
moralidade, mas na década de 1940 passou a ser amparada por Lei.
O decreto assinado por Getúlio Vargas em 1941 traz alguns espor
tes como sendo “incompatíveis à natureza da mulher”. Em nenhum
momento foi definido o que é inerente à natureza da mulher. Apesar
disso, estava estabelecido que o futebol era violento demais, compe
titivo demais, físico demais e, portanto, masculino demais.
Para a sociedade, e até mesmo para os líderes políticos
da época, as mulheres eram sinônimos de delicadeza, fragilidade,
pureza e, acima de tudo, maternidade. Havia, inclusive, a ideia de
que a prática de esportes “violentos” atrapalhariam a suposta voca
ção feminina para a maternidade. Se é afirmado que existe uma
natureza feminina que se constitui pela fragilidade, fica permitido o
245
controle do comportamento da mulher, tanto no que diz respeito ao
trabalho como às atividades sociais e recreativas. Há, por meio de
um discurso oficial, o estabelecimento de um poder invisível, uma
dominação simbólica (BOURDIEU, 1989) e controle sobre as mulhe
res, que já existiam há muitos anos, mas que naquele momento se
tornou oficial, legítimo.
É importante destacar que quando o comportamento feminino
é naturalizado, através da atribuição das características supra citadas,
perde-se de vista que, na realidade, ele é consequência de um pro
cesso histórico e, portanto, passível de mudanças (KUHNER, 2005).
Mas, como já mencionado, as mulheres resistiram a essas
proibições e grande parte jogava futebol em campos não-oficiais,
como campos de várzea. Em sua imensa maioria eram mulheres
pobres e negras. Acredita-se que essas características somavam-se
aos motivos para a manutenção da proibição, pois havia uma resis
tência à inclusão de grupos tidos como minoritários e invisibilizados,
fossem mulheres, pobres, negras.
Apesar da proibição, porém, há notícias de alguns jogos
comemorativos, como uma partida beneficente entre vedetes na
década de 1950 (DACOSTA, 2006). A existência dessas partidas for
talece a reflexão anterior, visto que as partidas de várzea, com a par
ticipação de mulheres das camadas mais populares, eram realizadas
em segredo e passíveis de punição se descobertas. Enquanto isso,
mulheres brancas e famosas, nesse caso as vedetes, por vezes rece
biam o aval para praticar a modalidade, mesmo em frente ao público.
Ainda nesse sentido, em 1977, quando a prática de futebol
ainda era proibida às mulheres, o Clube Federal implanta a prática
do futebol feminino (DACOSTA, 2006). Este é um clube no Leblon,
bairro nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, frequentado por homens
e mulheres brancos e ricos. Mais uma vez, uma crítica cabe e se
intensifica, visto que a prática da modalidade dentro de um clube dá
246
legitimidade ao futebol feminino, mas apenas para aquelas mulhe
res brancas e ricas, pertencentes à elite social e cultural. Por outro
lado, as mulheres das camadas mais populares, ainda que o final
da década de 1970 fosse um período de maior abertura, seguiam
impedidas por lei de jogar futebol.
A legalização do futebol feminino também merece ser
analisada. Em 1979, a proibição é revogada. Em 1983, o Conselho
Nacional de Desportos finalmente reconhece a modalidade como
legítima, mas sugere algumas mudanças, como redução do tamanho
do campo e do tempo de jogo, por exemplo, que não foram aceitas.
Esses fatos mostram que ao revogar a proibição parece haver um
passo em direção à igualdade de gênero, mas ao serem colocadas
em questão modificações na modalidade, não se pode perder de
vista que a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens ainda
atravessa o imaginário social. Apesar do discurso oficial, a suposta
fragilidade da mulher é mantida em alguma medida na sociedade.
A reprodução desse discurso perdura até os dias atuais. É fácil
encontrar críticos do futebol feminino que defendem ideais como a
redução do tamanho dos campos, de tempo de jogo, das traves, da
bola, mesmo que essas ideias sejam rejeitadas pelas mulheres que
praticam futebol e por aqueles que de fato acompanham o desen
volvimento da modalidade. Estes últimos, acreditam que o futebol
feminino brasileiro pode crescer ainda mais se lhe forem concedidas
as condições necessárias, como investimentos na formação de base,
na formação de profissionais para as comissões, boa organização de
campeonatos, pagamentos justos, entre outras.
Há um poder invisível, que se manifesta através de discur
sos e ações oficiais ou legitimadas socialmente, sustentando a ideia
de que as mulheres não conseguiriam performar bem nas mesmas
condições em que homens performam e que, para isso acontecer, as
condições deveriam ser facilitadas com mudanças na estrutura do
esporte. Por trás desse discurso, existe a desvalorização simbólica e
247
material das mulheres, visto que sustenta a ideia de que investimen
tos na modalidade não surtiriam efeitos alguns porque as mulheres
são naturalmente inferiores.
A partir da legitimação da modalidade, campeonatos come
çaram a ser desenvolvidos e a participação feminina no futebol foi
se intensificando, tanto no cenário nacional, quanto no internacio
nal. Apesar disso, mesmo com resultados expressivos conquistados
pela seleção nas décadas de 1990 e 2000, a modalidade seguia
sem receber a atenção e investimentos necessários por parte da
Confederação Brasileira de Futebol, da mídia e do público.
Apenas em 2016, a FIFA coloca o futebol feminino como uma
das áreas a serem desenvolvidas, o que inicia um efeito cascata,
chegando até a CBF. Como resultado, a CONMEBOL institui que os
clubes só participariam de seus campeonatos internacionais com
suas equipes masculinas se tivessem equipes femininas. Além disso,
em 2019, a CBF torna obrigatória a existência de equipes femininas
em campeonatos nacionais, para os clubes que tinham times mas
culinos disputando a Série A do campeonato brasileiro.
Apesar de parecer a melhor maneira de incentivar o futebol
feminino, essa resolução levanta alguns questionamentos. É inte
ressante destacar que essas medidas não foram criadas a partir do
interesse da CBF pelo desenvolvimento da modalidade, mas sim a
partir de uma obrigatoriedade imposta por uma organização que
está acima da mesma no cenário internacional.
O futebol feminino não recebeu a atenção que merecia por
parte da Confederação, sendo visto e tratado apenas a partir do
futebol masculino. Além de obrigar os clubes a terem uma equipe
feminina em competições e com uma equipe de base, a CBF não fez
muito mais pelo desenvolvimento do futebol feminino, dando pou
quíssimas instruções sobre como isso deveria ser feito e sobre quais
condições deveriam ser dadas às atletas. Com isso, muitos clubes
248
formaram equipes femininas às pressas, sem oferecer boas condi
ções para a prática da modalidade, com instalações de treino e jogo
muito abaixo ao que era, e ainda é, oferecido às equipes masculinas.
Por fim, deve ser destacado que, com a entrada forçada dos
grandes clubes (do masculino) no mundo do futebol feminino, equi
pes tradicionais, históricas e essenciais para o desenvolvimento da
modalidade feminina acabaram perdendo destaque dentro da mídia
e, portanto, investimento. Ao pautar o futebol feminino sob o olhar
do futebol masculino, a CBF ignora todo um desenvolvimento histó
rico do futebol feminino, que se deu de maneira muito diferente, e as
necessidades das atletas, que são muito distintas das necessidades
de um atleta, profissional ou de base, do futebol masculino.
De acordo com Bourdieu, cabe:
às mulheres se comprometerem com uma ação política
[...] que elas saibam trabalhar para inventar e impor [...] for
mas de organização e de ação coletivas e armas eficazes,
simbólicas sobretudo, capazes de abalar as instituições,
estatais e jurídicas, que contribuem para eternizar sua
subordinação (Bourdieu, 2005, Prefácio à edição alemã).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pesquisas e ponderações sobre o futebol feminino brasileiro
na atualidade são de especial relevância para o alcance e reconhe
cimento desta modalidade como um esporte global, na medida em
que as mudanças culturais na sociedade ocorrem de forma gradativa.
Apesar da entrada e consequente aumento expressivo do
número de mulheres praticantes de futebol, o discurso social man
tém, de forma velada, esse esporte como característico da esfera
masculina. A própria Confederação Brasileira de Futebol reforça
249
essa ideia ao supor a existência de equipes femininas a partir
de times masculinos.
Entretanto, a Psicologia vem trabalhando pela inclusão femi
nina no futebol, de modo que o futebol feminino alcance amplo reco
nhecimento e seja contemplado com apoio e fomento. A Associação
Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP) além de reconhecer
a necessidade de se lutar pela igualdade de gênero nesta modalidade,
empreende ações para divulgá-la. O futebol feminino tem espaço
sempre entre os temas abordados em seus encontros científicos.
É fundamental a continuidade e aumento de estudos e
ações que visem o avanço e a atualização de políticas voltadas
para o futebol feminino.
REFERÊNCIAS
BIERNARCKI, P.; WALDORF, D. Snowball sampling-problems and chain techniques of
referral sampling. Sociological Methods and Research. v. 10, n. 2, p. 141-163, 1981.
Disponível em http://smr.sagepub.com/content/10/2/141.short. Acesso em: 01 nov. 2023.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989.
BOURDIEU, P. A dominação masculina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.
BRASIL. Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941. Estabelece as bases de organização
dos desportos em todo o país. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
decreto-lei/1937-1946/del3199.htm#:~:text=DECRETO-LEI%20%20N%C2%BA%203.199%
2C%20DE,desportos%%2020em%20todo%20o%20pa%C3%ADs. Acesso em: 01 nov. 2023.
BROCH, M. Histórico do futebol feminino no Brasil: considerações acerca da
desigualdade de gênero. Temporalidades, v. 13, n. 1, p. 695-705, 2021.
CALDAS, A. (org.). Deu no jornal: o jornalismo impresso na era da Internet. São
Paulo: Loyola, 2002.
250
CALDAS, W. O futebol no país do futebol. Lua Nova: Revista de Cultura e Política, v. 3, n. 2,
p. 24-30, 1986. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-64451986000300005. Acesso
em: 01 nov. 2023.
CORINTHIANS, Agência. Interesse feminino por futebol cresce 26% desde 2018.
Disponível em: https://www.corinthians.com.br/noticias/interesse-feminino-por-futebol
cresce-26-desde-2018. Acesso em: 01 nov. 2023.
DACOSTA, L. (org.). Atlas do Esporte no Brasil . Rio de Janeiro: CONFEF, 2006.
GOELLNER, S. V. Nós convidamos a CBF a trazer reformas de igualdade de gênero para o
Brasil. Ludopédio. São Paulo, v.135, n. 36, 2020.
GOELLNER, S. V. WOMEN AND FOOTBALL IN BRAZIL: discontinuities, resistance, and
resilience. Movimento (Porto Alegre), v. 27, p. 1-14, 18 jan. 2021. Disponível em http://
dx.doi.org/10.22456/1982-8918.110157. Acesso em: 01 nov. 2023.
MINAYO, M. C. S. O Desafio do conhecimento – pesquisa qualitativa em saúde. Rio de
Janeiro: Abrasco, 2000.
MINAYO, M. C. S. Pesquisa Social: teoria, método e criatividade (org.). Petrópolis:
Vozes, 2014.
251
Ana Clara Lopes Ribeiro
Bacharel em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal
do Rio de Janeiro.
E-mail: clara.ana.lr@gmail.com
Leila Sanches de Almeida
Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Doutora em Ciências Médicas (USP).
E-mail: leilasanches@ufrj.br
Confira o ranking da FIFA . https://inside.fifa.com/fifa-world-ranking/women.
Confira a reportagem na CNN. https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/estudo-projeta-base-de-fas-do-futebol-feminino-entre-as-5-maiores-do-mundo/
A qualidade técnica no futebol feminino tem evoluído de forma impressionante nos últimos anos, impulsionada por maiores investimentos, visibilidade e profissionalização. No entanto, a modalidade ainda enfrenta desafios estruturais e históricos, incluindo a proibição da prática em alguns países no passado, que impactaram diretamente o seu desenvolvimento.
Fatores que influenciam a qualidade técnica
Aumento dos investimentos: A injeção de recursos financeiros tem proporcionado melhores condições de treino, mais suporte tecnológico e estrutura para as atletas, o que se reflete diretamente na melhora da habilidade individual e coletiva.
Visibilidade e profissionalização: O crescimento da audiência e o aumento de patrocínios em grandes competições, como a Copa do Mundo Feminina, contribuem para a mudança de status do esporte e atraem novos talentos.
Evolução tática: A modernização dos métodos dos treinamentos tem desenvolvido a capacidade das jogadoras de tomar decisões mais rápidas e inteligentes em campo, aplicando as habilidades técnicas em situações de jogo mais realistas.
Diferenças históricas: A comparação com o futebol masculino, muitas vezes injusta, ignora as décadas de desvalorização e falta de apoio que prejudicaram a evolução técnica do futebol feminino em seus primórdios.
Desigualdade estrutural: A persistência da disparidade salarial e de investimento, bem como a menor atenção da mídia em comparação ao futebol masculino, são fatores que ainda afetam o pleno desenvolvimento da modalidade.
O futebol feminino está em um momento de ascensão global, com um aumento na intensidade e na qualidade técnica do jogo. A expectativa é que, com a continuidade dos investimentos, maior apoio e melhores condições de treinamento, o nível técnico continue a crescer, tornando a modalidade ainda mais competitiva e atraente para o público.
As mulheres estão jogando um futebol de excetíssimo nível técnico. No Brasil e em nível global.
Confira os campeões de todos os campeonatos de futebol no Brasil e no mundo. No Site campeões do futebol. https://www.campeoesdofutebol.com.br/competicoes.html