Motriz, Rio Claro, v.17 n.1 p.01-10, jan./mar. 2011
doi: http://dx.doi.org/10.5016/1980-6574.2011v17n1p1
Artigo Original
A construção do ídolo no fenômeno futebol
Márcio Pereira Morato 1,2
Sérgio Settani Giglio 1,2,3,4
Mariana Simões Pimentel Gomes 1,5,6
1Grupo de Estudos e Pesquisa em Atividade Motora Adaptada da Faculdade de
Educação Física da UNICAMP, Campinas, SP, Brasil
2 Grupo de Estudo e Pesquisa Educação Física e Cultura - Faculdade de Educação
Física da UNICAMP, Campinas, SP, Brasil
3Faculdade de Educação Física da Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP, Brasil
4Grupo Interdisciplinar de Estudos sobre Futebol da Faculdade de Educação Física da
UNICAMP, Campinas, SP, Brasil
5Faculdades Anhanguera de Campinas, SP, Brasil
6Centro Universitário Padre Anchieta, Jundiaí, SP, Brasil
Resumo: Este artigo objetivou investigar o papel do ídolo na construção do fenômeno futebol no Brasil.
Foram entrevistados ex-jogadores de futebol, jogadores profissionais e jogadores de futebol para cegos. O
tratamento dos dados destacou quatro categorias: Criação, Difusão, Idolatria e Papéis. Para tal
categorização e inferência foi utilizada a Análise de Enunciação, uma das técnicas da Análise de Conteúdo.
A construção de ídolos mostrou-se dependente da valorização de grandes feitos e da criação de vínculos.
Os feitos são dependentes das categorias tempo e espaço, dando um “prazo de validade” para a idolatria e
propiciando uma cíclica renovação de ídolos. Os vínculos serão maiores quanto maiores forem as relações
da tríade jogador-clube-torcedor. Os feitos são “mostrados” na mídia e se os vínculos estiverem bem
estabelecidos, a imagem do ídolo será exaltada e valorizada, alimentando e motivando a paixão dos
torcedores e cultivando o sonho de ser jogador de futebol no imaginário social.
Palavras-chave: Futebol. Pessoas com Deficiência. Ídolo.
The construction of the idol in the football phenomenon
Abstract: This paper objectives to investigate the idol role in the construction of the football phenomenon in
Brazil. For that, ex-football players, professional football players and football 5-a-side players were
interviewed. The data analysis emphasized four categories: Creation, Diffusion, Idolatry and Roles. To
analyze and make inferences from the data, the Enunciation Analysis, one of the Contend Analysis
technique was used. The construction of idols was dependent on the appreciation of great achievements
and creating bonds. The achievements are dependent on the categories time and space, giving an
"expiration date" to idolatry and providing a cyclic renewal of idols. The stronger the relationship of the triad
player-club-fan, the deeper the bonds will be. The achievements are "shown" in the media and if the bonds
are well established, the image of the idol will be exalted and valued, nurturing and motivating the passion of
the fans and cultivating the dream of being a football player in the social imaginary.
Key Words: Football. Disabled Persons. Idol.
Introdução
O futebol é um fenômeno tão complexo quanto
à origem do universo, diriam os românticos
apaixonados. Mas comparações à parte, os
mistérios apresentados por sua complexidade
tem encontrado na ciência algumas tentativas de
elucidação. Muitos autores e pesquisadores vêm
tentado compreender por diversos âmbitos, como
essa modalidade consegue fascinar de forma
impressionante tantas pessoas no Brasil e no
mundo.
Os inúmeros elementos que interagem para
gerar seu contexto, tais como os clubes/equipes,
as torcidas, a mídia, os jogadores, técnicos e um
imensurável número de outros aspectos, criaram
ao longo da existência do Futebol, um “sistema”
capaz de marcar a história da humanidade e de
se liquefazer a ela ao se difundir pelos quatros
cantos do mundo. Difusão que tem na imagem do
ídolo,
um dos misteriosos elementos que
contribuem de forma significativa para alimentar
sonhos e o fascínio exercido pelo jogo.
M. P. Morato, S. S. Giglio & M. S. P. Gomes
Um fato ocorrido no mês de junho de 2009
pode ilustrar a grandeza e o poder de fascínio
exercido por ídolos da modalidade. Após investir
R$ 177,5 milhões no brasileiro Kaká, o Real
Madrid da Espanha contratou o português
Cristiano Ronaldo por R$ 254 milhões1. Se os
números assustam pela grandeza, não foi
diferente com a apresentação dos novos atletas à
torcida. Kaká levou cerca de 50 mil pessoas ao
estádio Santiago Bernabéu e Cristiano Ronaldo
fez com que quase 80 mil torcedores fossem
prestigiá-lo
na apresentação2. Ídolos que
conseguiram encher o estádio sem que ao menos
houvesse jogo nesses dias.
Como eles foram capazes desses feitos? Que
“forças” eles exercem nas pessoas que o
admiram? O que eles têm de diferente dos outros
jogadores?
Norteado pelas questões expostas, este artigo
objetiva investigar o papel do ídolo na construção
e difusão do fenômeno Futebol em nosso país.
Para tal, procurou-se identificar e compreender
semelhanças e diferenças atribuídas à imagem
do ídolo em diferentes contextos – futebol
profissional e futebol para cegos.
Materiais e métodos
Com a delimitação do problema centrada no
objetivo exposto anteriormente, as características
dessa pesquisa requeriam uma investigação
qualitativa de caráter descritivo e analítico.
Buscou-se absorver ao máximo as informações a
serem colhidas nos relatos orais dos sujeitos,
discutindo e analisando seus conteúdos evidentes
e latentes (THOMAS, NELSON, 2002
).
Para tal, foi utilizada a entrevista semi
estruturada (TRIVIÑOS, 1987
) junto a nove
jogadores e dois ex-jogadores de futebol
profissional3 e mais seis jogadores de futebol para
cegos4.
1 Real abala o mundo da bola. O Estado de S. Paulo, 12 de
junho de 2009, p. E1.
2 Festa de C. Ronaldo supera a de Kaká. O Estado de S.
Paulo, 7 de julho de 2009, p. E1. O público presente para ver
Cristiano Ronaldo superou o recorde da apresentação de
Maradona no Napoli, da Itália, em 1984.
3Os entrevistados serão identificados da seguinte forma: ex
jogadores de futebol (Ex-Jog.), jogadores de futebol
profissional (Jog. Prof.) e jogadores de futebol para cegos
(Jog. Fut. Cego).
4Pelo fato da modalidade de futebol para cegos ainda não
poder ser considerada profissional optou-se por entrevistar os
jogadores da seleção brasileira. Dois deles já foram artilheiros
em competições internacionais (Mundial e Paraolimpíada) e
também considerados os melhores jogadores do mundo.
Todos praticam a modalidade a mais de 13 anos. Além dos
jogadores integrantes da seleção brasileira bi-campeã
2
Para o tratamento, análise e interpretação dos
dados recorreu-se a uma das técnicas da Análise
de Conteúdo: a Análise de Enunciação. Esse tipo
de análise é complementar à análise temática,
que recorta o conjunto das entrevistas através de
uma grelha de categorias projetada sobre os
conteúdos (BARDIN, 1977
).
Após a verificação das temáticas recorrentes –
CRIAÇÃO, DIFUSÃO, IDOLATRIA, PAPÉIS –
cada discurso foi novamente analisado em sua
singularidade dentro dos diferentes indicadores
(temas) e do sentido atribuído a eles por cada
interlocutor. Assim, as entrevistas entraram em
diálogo com o referencial teórico para auxiliar o
processo cíclico de dedução e indução de
hipóteses elaboradas pelos pesquisadores.
A criação de ídolos
A palavra ídolo vem do grego eidôlon e
significa imagem. Imagem estabelecida pela
importância dos feitos de alguém. A importância
ou relação desses feitos é estabelecida pelas
categorias tempo e espaço. Tempo em relação à
duração que a imagem permanece em evidência;
espaço em relação ao “onde” cada imagem é
construída – para quem ela é modelo e quais os
limites alcançados por seus feitos (GIGLIO,
2007
).
É principalmente a primeira dessas categorias – o tempo – que diferencia o ídolo do herói. O
ídolo está ligado ao tempo cotidiano, à construção
da imagem no dia-a-dia, batalha após batalha,
evento após evento, dentro de uma lógica de
fatos que ocorrem de forma sequencial e
gradativa. O herói vincula-se ao tempo sagrado, a
um evento isolado, podendo diferentemente do
ídolo, alterar sua condição em um curto espaço
de tempo. Por isso, o ídolo pode assumir papel de
herói ao realizar façanhas em momentos
importantes, mas um herói pode não se tornar um
ídolo, se seu feito não tiver continuidade, não tiver
um período duradouro na linha do tempo.
Segundo Campbell (1990)
,
o herói é aquele
que concedeu a própria vida por algo maior que
ele mesmo e que realizou algo ou passou por
experiências pelas quais poucos passaram.
Nesse sentido, são venerados como heróis
aqueles que algum dia foram os responsáveis
imediatos por realizar alguma façanha que vincule
paraolímpica em Atenas/2004 e Pequim/2008, que recebem a
bolsa atleta do Ministério dos Esportes, dificilmente
encontram-se outros exemplos na modalidade em que os
jogadores recebem para jogar (MORATO, 2007
).
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O ídolo no fenômeno futebol
o seu nome ao momento da conquista. As finais
esportivas, por pertencerem ao tempo sagrado,
são ricas em criar heróis, os gols, os pontos ou as
cestas decisivas são utilizadas como marco
reservado aos heróis.
Numa sociedade que valoriza o vencedor, a
vitória, a ascensão, impondo um padrão de
comportamento que reconhece o mais forte e o
mais habilidoso, aquele que chegar ao topo
servirá como exemplo para os demais (RUBIO,
2001
).
Assim, ambos são figuras tidas como
modelos para aqueles que os admiram. Mas do
herói admiram o feito e do ídolo admiram a vida
ou a imagem que ele representa.
Para se ter um ídolo, é preciso ter quem os
idolatre. No futebol isso se estabelece na tríade
ídolo-torcida-clube (GIGLIO, 2007
;
2005
MORATO,
). Torcida e clube determinam o espaço de
atuação da imagem de um jogador; e seu tempo
de permanência na equipe, o vínculo necessário
para o nascimento de uma admiração por seus
feitos.
A aproximação do clube com o torcedor é em
grande parte estabelecida pelo papel do ídolo. É
ele quem faz o elo, quem aproxima a massa do
espetáculo. Como afirma Campbell
(1990, p. 16),
“Quando se torna um modelo para a vida dos
outros, a pessoa se move para uma esfera tal que
se torna possível de ser mitologizada”.
Os jogadores que se destacam pelas vitórias e
que realizaram feitos que poucos foram capazes
passam a ser mais admirados, como o foram
Pelé, Zico, Ronaldo e Romário. As vitórias e os
feitos excepcionais são condições importantes
para a identificação com algum personagem do
meio futebolístico, pois os colocam em evidência
e
abrem o caminho para que possam ser
idolatrados pela torcida.
Quando um jogador, além de realizar grandes
feitos,
demonstra fidelidade para com a
identidade do clube, tende a aproximar-se mais
ainda do torcedor, já que ambos compartilham da
mesma ideologia. O torcedor por sua vez
propende a admirar mais o jogador com tal
postura.
A admiração por esses jogadores acontece, de
acordo com os entrevistados, pelo fato de terem
atingido o auge de uma carreira como jogador
profissional, terem conquistado vários títulos e por
serem ídolos dos times que defenderam.
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Defender as cores de um mesmo time durante
anos possibilita ao atleta atingir marcas até então
nunca conseguidas. Bater o recorde de partidas
disputadas, ser o maior artilheiro da história do
clube ou do estádio do clube, geralmente são
condições conseguidas por aqueles que criaram
um vínculo duradouro com o clube. Isso faz com
que o jogador se torne parte do patrimônio do
clube.
Em alguns casos esse vínculo se torna tão
forte que a presença do ídolo pode transcender o
clube e sua imagem passa a não depender mais
dele5
. Tal fato acontece quando os torcedores vão
aos jogos motivados não somente para ver o seu
clube jogar, mas também para ver seu ídolo
(GIGLIO, 2007
; MORATO, 2005
).
Hoje no Brasil, esses vínculos estão cada vez
mais escassos, pois os jogadores que se
destacam migram cada vez mais rápido para os
grandes centros futebolísticos6. Como afirma Rial
(2008
), a lógica estabelecida é a do rodar e os
vínculos se tornam transitórios. É o que
Florenzano (2009)
denomina de “jogador
andarilho”.
De modo geral, a referência do ídolo para o
clube/torcida tem um tempo cada vez mais curto,
salvo algumas raras exceções. Mas a imagem
projetada, não só pelos jogadores, mas por todos
aqueles que reproduzem e transformam o futebol
em um fato social, é uma das responsáveis por
alimentar o sonho de um dia ocupar o lugar que
hoje é do ídolo.
Com isso, a referência do ídolo alimenta o
imaginário7 da geração que o substituirá,
contribuindo para a reposição cíclica das figuras
5 A situação pela qual passaram Kaká e Cristiano Ronaldo
quando da apresentação à torcida do Real Madrid revela que
o ídolo, ao se transferir de time, pode levar consigo o status
construído em outro lugar e continuar a ser idolatrado. Porém,
caso não construa o vínculo com o novo clube e com a
torcida, rapidamente, esse status quo será transformado em
contestação. O exemplo oposto que ilustra isso, é o momento
pelo qual Ronaldinho Gaúcho passa no Milan. Ao ser
transferido do Barcelona para o Milan, o jogador brasileiro
carregou consigo todo o status conquistado na Espanha, mas
uma série de fatores o levaram a ser contestado, a ficar na
reserva e ver cada vez mais distante a condição de ídolo em
Milão, na Itália.
6Por ironia ao futebol-arte e ofensivo que se afirma sobre o
estilo brasileiro, hoje são os goleiros que figuram entre os
veteranos dos times no país. Rogério Ceni está no São Paulo
desde 1990 e Marcos está no Palmeiras desde 1992, ambos
esperaram alguns anos para conquistarem a condição de
titular e desde então figuram como os grandes ídolos dessas
duas equipes.
7 Tomamos imaginário da forma como Castoriadis (1982)
definiu: imaginário e simbólico se relacionam, sendo que o
imaginário utiliza o simbólico para existir.
3
M. P. Morato, S. S. Giglio & M. S. P. Gomes
idolatradas. Aqueles que ficaram para trás no
tempo, permanecem restritos a lembranças, falas
e fotos daqueles que um dia os viram jogar. As
imagens tornam-se escassas e por isso eles são
substituídos constantemente (GIGLIO, 2007
). Por
esse motivo, Pelé foi lembrado como um grande
jogador, mas não foi destacado como ídolo pelos
entrevistados. Seria incoerente, que aquele
considerado o maior jogador de futebol do mundo
fosse o ídolo dos entrevistados8, se não fosse a
ideia de reposição cíclica, que produz novos
ídolos para atuar na lacuna dos que já saíram de
cena.
A difusão da imagem dos ídolos
Dentre os diferentes setores influenciadores e
influenciados pelo futebol, a mídia exerce um
papel importante neste processo de construção
do ídolo, estabelecendo grande parte da relação
dos personagens que constroem o fenômeno
(TOLEDO, 2002
).
Atualmente,
diante
das
facilidades
tecnológicas, a imagem dos ídolos está cada vez
mais presente para os torcedores. Mesmo os
ídolos distantes, não mais vinculados aos clubes
de coração, mas aos clubes do exterior, podem
ser acompanhados com facilidade. O avanço
tecnológico encurtou as distâncias geográficas.
Basta ligar a televisão ou acessar a internet para
acompanhar as ligas européias e os jogadores
que lá atuam. Aproximar o público dos
campeonatos realizados no exterior faz com que
as imagens dos jogadores, muitas vezes dos
próprios brasileiros – que devido às novas
“dinâmicas do rodar” nunca atuaram no Brasil –
passem a fazer parte do imaginário de muitas
pessoas que acabam por ter os jogadores
estrangeiros ou brasileiros-estrangeiros como
seus ídolos.
Porém, a utilização da imagem dos ídolos é
extremamente manipulada pela mídia. A leitura do
jogo pelos especialistas passa por uma seleção
do olhar. Discutem-se algumas jogadas em
detrimento de outras, sendo algumas imagens
eleitas como as principais da partida. Por detrás
disso está uma questão estética9, do gosto
cultural, do olhar que filtra as informações que
8 Com exceção dos dois ex-jogadores, os demais
entrevistados não conheceram o Pelé enquanto jogador de
futebol profissional.
9Para essa discussão consultar: especialmente o capítulo 8 –
Estética e Futebol – da tese de Damo (2005)
e o livro de
Gumbrecht (2007)
.
4
mais interessam e que acabam sendo mais
valorizadas pelos espectadores que as recebem.
No período de consolidação do futebol como o
principal esporte para os brasileiros o rádio foi um
dos pilares de sua difusão. Principalmente os ex
jogadores ressaltaram que as pessoas escutavam
o futebol pelo rádio porque a televisão não
transmitia os jogos ao vivo10 e/ou pela dificuldade
em ir ao estádio. Nesse período, devido às
dificuldades em acompanhar de perto às partidas,
os ídolos ficavam mais distantes. Assim,
jogadores da seleção brasileira destacaram-se
como ídolo somente após a conquista da primeira
Copa do Mundo em 1958.
[...] a gente naquela época não tinha televisão,
você ouvia no rádio, era muito difícil a gente
poder ir ao estádio. [...] depois que em 58 veio a
Copa do Mundo que ainda era difícil a gente
assistir na televisão, aí começou aparecer o
Garrincha, aparecer o Didi, o Pelé começou
aparecer, então a gente começou a ter esses
jogadores como ídolo também (Ex-Jog. 6).
Mesmo com a entrada da televisão, aqui no
Brasil, o rádio não perdeu seu espaço. Ele ainda é
muito utilizado para acompanhar os jogos, basta
observar a quantidade de pessoas que levam
seus radinhos à pilha para os estádios de futebol.
Para os jogadores com deficiência visual a
utilização do rádio é preferida em relação às
mídias visuais, pois as informações oriundas dos
rádios são mais detalhadas e completas, já que
tentam codificar para os ouvintes, as imagens
visuais que não são transmitidas (MORATO,
2007
).
Já para os jogadores e ex-jogadores
profissionais a televisão foi apontada como um
veículo de comunicação de destaque, pois é lá
que os ídolos são vistos.
As formas de idolatria
A idolatria é uma das formas que pode
assumir a aproximação torcedor-jogador-clube e
mais especificamente do ídolo com aquele que o
idolatra. A idolatria por algum jogador pode
aparecer por meio de admiração ou imitação.
Admirar é uma maneira de observar
atentamente o que faz determinada pessoa e
imitar é buscar realizar os seus feitos, mesmo que
de forma simbólica. É uma forma de se aproximar
10 A primeira transmissão ao vivo de uma partida de futebol no
Brasil aconteceu no dia 10 de dezembro de 1950, pela TV
Tupi Difusora, de um jogo do campeonato paulista do mesmo
ano (FANUCCHI, 1996
). Se compararmos à Europa, a
primeira transmissão ao vivo foi feita pela BBC da Inglaterra
na final da Copa de 1938 (PRONI, 2000
), portanto, muito
tempo antes da chegada da televisão ao Brasil.
Motriz, Rio Claro, v.17, n.1, p.01-10, jan./mar. 2011
O ídolo no fenômeno futebol
do ídolo e de se sentir em seu lugar (GIGLIO,
2007
)11. A imitação só se faz presente quando já
existe certa admiração. Não há sentido em imitar
algo que não se admire ou que não seja
significativo para quem imita (MARTINS, 2009
).
Durante as brincadeiras infantis com bola
podem-se notar as repetições de lances e gestos
de seus ídolos e mesmo da mudança de
identidade, ao dizer o nome de algum craque
após a execução de uma jogada. O imaginário
estabelece aproximação com o ídolo e faz com
que aquele que o idolatra assuma seu lugar e seu
nome.
A presença do ídolo na infância representa e
reforça a importância dessas figuras dentro do
processo de formação do imaginário colocando o
futebol em destaque para a nossa sociedade.
Entre as inúmeras formas de se lidar com o ídolo
na infância, destacamos o relato de Busso (2009
,
p. 95) sobre a relação entre um menino, o futebol
e o seu ídolo:
Um jogo se inicia na quadra do Centro
Comunitário, na aula das turmas de 7ª séries.
Tanto a bola que se direciona para o ataque,
quanto aquela que se direciona para a defesa
de uma das equipes sempre tocam os pés de
um garoto. Com um olhar fixo, este mesmo
garoto que havia ameaçado o gol adversário
anteriormente, aproveita a reposição de bola do
goleiro, recupera a posse da bola, realiza um
giro por sobre a bola, chuta-a para o gol e
marca seu segundo ponto no jogo. Em seguida,
ele cobre a cabeça com sua camiseta, que era
da Seleção Brasileira de Futebol, começa a
correr pela quadra dizendo: eu sou Filho do
Ronaldinho! (grifo nosso)
Ao longo do trabalho Busso (2009)
o
explica que
garoto que se autodenomina Filho do
Ronaldinho o faz dessa forma por gostar do
Ronaldinho Gaúcho. O menino afirma que gosta
dele porque esse atleta sabe jogar e girar sobre a
bola. Gostar daquilo que o ídolo faz o incentivou
para que aprendesse a jogar e a imitar algo que
valoriza nele – os giros sobre a bola.
Esse fato reforça o pensamento de que existe
uma qualidade genética como determinante do
saber futebolístico e, dentro dessa lógica, ser filho
do Ronaldinho seria o suficiente para saber jogar
futebol, como se isso fosse um dom. Embora
relate ter aprendido um pouco sobre futebol com
11 Na final da Copa do Mundo de 2002, Ronaldo (“Fenômeno”)
apareceu com um novo corte de cabelo. Somente manteve
uma franja triangular, sendo o restante do cabelo cortado,
deixando-o praticamente careca. Não tardou para que muitas
pessoas fossem vistas com o novo corte. Exemplo similar
Motriz, Rio Claro, v.17, n.1, p.01-10, jan./mar. 2011
o pai e que pratique futebol (treine os dribles) em
diferentes contextos, ao se posicionar como filho
do Ronaldinho corrobora com o pensamento de
que o saber jogar seja algo hereditário e reforça a
visão corrente de que futebol não se ensina, ou
seja, é exclusividade dos agraciados pelo dom
(DAMO, 2005
,
SCAGLIA, 1999
2007
;
).
GIGLIO et al., 2008
;
Todos os entrevistados relataram que a
admiração por algum jogador sempre esteve
presente em sua vida. Alguns jogadores
profissionais disseram que não tinham ídolo,
embora mantivessem uma relação de admiração
por
alguns
jogadores.
Enquanto outros
reconheceram que já estiveram na condição de
torcedor/fã e idolatraram algum atleta. Os
jogadores de futebol para cegos relataram que os
ídolos do futebol mundial também os inspiraram
em sua infância, no início de seu aprendizado.
Os entrevistados que acompanharam desde
cedo o futebol relatam a presença do ídolo
quando ainda eram crianças. Eles afirmam que
em suas brincadeiras sempre falavam os nomes
de seus ídolos.
Assim, independente da condição funcional
(deficiência ou não), os entrevistados sonhavam
em serem parecidos com os seus ídolos. O sonho
de ser um jogador e ser parecido com o ídolo
aparece como um elemento importante na
formação dos atletas ainda quando criança, pois
veem na figura dos ídolos uma motivação para
tal.
Eu acho que a gente tira exemplos de várias
pessoas, de vários atletas assim, não só no
futebol, mas na vida do esporte né. Eu acho
que, tenho um ídolo sim, o Schummacher que
era o goleiro seleção da Alemanha, isso em 78.
Eu devia ter uns seis anos, já admirava. Não
tinha nem, nem ia saber o que era ser jogar
futebol ou ser goleiro. Então, e o Rodolfo
Rodrigues né, são assim dois ídolos no meio do
futebol, na bola mesmo que eu admiro muito.
(Jog. Prof. 4).
Boa parte dos entrevistados joga na mesma
posição de seus ídolos. Isso demonstra a
necessidade de tentar repetir os mesmos
caminhos que seus ídolos traçaram. E seguir os
mesmos caminhos não significa, para os
entrevistados, ser igual ao ídolo, mas sim, buscar
igualar ou ultrapassar os feitos deles.
Têm algumas pessoas que a gente procura se
espelhar, o próprio Careca, enfim, outras
aconteceu com corte de cabelo “moicano” apresentado pelo
jogador inglês Beckham.
5
M. P. Morato, S. S. Giglio & M. S. P. Gomes
pessoas aqui no Brasil. Têm grandes atacantes
e a gente claro que se espelha sempre num
jogador ali de ataque até pela posição ser igual
a minha. [...] Igual não né. Igual é um pouco
difícil, mas é claro que realizar os objetivos que
ele realizava. Ele sempre fazia gols, sempre era
artilheiro das equipes que ele passou e graças
a Deus isso eu peguei um pouco dele. Hoje eu
tenho uma história maravilhosa no meu time,
como maior artilheiro na história do estádio e o
terceiro na história do clube. Isso eu acho que
foi o lado positivo (Jog. Prof. 7).
A imitação dos ídolos também existe no
mundo não visual, mas é feita por outros meios,
que não os referenciais visuais. O contato com
outros jogadores e a possibilidade de participar de
eventos esportivos permitiu que o entrevistado
abaixo construísse suas próprias estratégias de
jogo a partir da captação das estratégias dos
outros.
Na verdade você vai..., você vai captando várias
formas de jogar, várias técnicas, para você
formar a sua. É igual opinião. Você vai
coletando várias opiniões para você formar a
sua. Você nunca... isso a gente nunca forma
uma opinião sem conhecer as outras, né. E
assim é o estilo de jogar também. Então eu vejo
aquele jogador, como que ele conduz a bola?
Rápido! Então peraí, eu também tenho que
conduzir rápido, porque o dele, o jeito dele é
eficiente... Como que ele faz para conduzir a
bola? Entre os pés. A bola, ele tem a... ele
conduz com muita técnica, ele gira, ele faz isso,
faz aquilo. Então você vai pegando um
pouquinho de cada um e montando, e
montando o seu futebol. Foi assim que eu
iniciei. Pegando um pouquinho de cada um, a
experiência de cada um e montando meu
próprio futebol que hoje as pessoas, alguns
atletas pegam como exemplo, como eu peguei
dos outros (Jog. Fut. Cego 2).
A predileção por um clube, o
acompanhamento dos jogos de sua equipe e de
seus ídolos do futebol profissional expuseram os
entrevistados aos símbolos valorizados pela
cultura deste país, motivando a busca pela prática
do esporte.
Você sempre sonha né, quando criança assim,
você tem aquele ídolo né e você sempre sonha
em quando ser jogador né, procurar ser um
pouco né parecido como foi né, esses ídolos da
gente. Então, a gente sempre sonha sim né,
sempre gostaria de ser igual, mas nem sempre
a gente consegue, pois cada um tem uma
característica (Jog. Prof. 2).
Agora no esporte comum, como um bom
corintiano sempre gostei muito de ver12 o
12 Em nossa sociedade o verbo ver tornou-se sinônimo de
conhecer. Mesmo as pessoas que não possuem o sentido
visual utilizam “verbos visuais” como ver, assistir, observar
etc. para demonstrar que acompanham à sua maneira
(principalmente auditiva e sinestésica) as imagens da cultura
ao qual estão inseridas (MORATO, 2007
).
6
Sócrates jogar [risos]. Pela habilidade dele, pelo
toque de bola. É uma coisa que eu gosto muito
de fazer, toque de bola, me inspirei muito nele
talvez (Jog. Fut. Cego 4).
[...] no esporte normal, mundial aí, eu gosto
muito do futebol e até..., não tento fazer como
ele, mas a técnica, apurar minha técnica, a
gente vê alguns craques, algumas pessoas que
são lendas como dizem que foi Pelé, como
dizem que foi Maradona, que eu não vi jogar,
mas to assistindo o Zidane jogar, então... o
Ronaldinho Gaúcho, o próprio Robinho, então
quer dizer, são atletas que, que você tem como
ídolo (Jog. Fut. Cego 2).
Por mais que as pessoas cegas13 se incluam
numa sociedade que preconiza tanto o sentido
visual14 (e por isso, pode ser considerado o maior
difusor do patrimônio existente entre os sentidos
utilizados), elas não ficam imunes às influências
dos fenômenos relevantes para suas culturas,
como o futebol no Brasil, por exemplo.
O tratamento diferenciado da mídia, quando o
assunto é o paradesporto, dificulta a construção e
difusão de ídolos no futebol para cegos, mas
mesmo assim, tais figuras não deixam de existir.
A participação das equipes em eventos
paradesportivos gera histórias das próprias
equipes e dos jogadores que passaram por elas.
Essas histórias difundem-se pelos institutos e
associações15, transformando esses jogadores
em modelos para os alunos mais novos e
enchendo-os de motivação para iniciar a prática
ou para continuarem a praticá-la.
É, na verdade quando eu comecei a jogar
assim, eu gostava do futebol do menino que já
faleceu, [...], foi o Marco Antônio e ele era
conhecido como Plê... e saiu até numa revista
dizendo que ele era... revista francesa, dizendo
que ele era o Pelé dos cegos, então eu gostava
muito do futebol do Plê, que era um futebol
meio arte, um futebol meio brincalhão (Jog. Fut.
Cego 3).
13 Alguns já nascem cegos ou perdem a visão antes do quinto
ano de vida (cegueira congênita), não se lembrando de
qualquer informação visual. Outros perdem a visão
posteriormente (cegueira adquirida) (MENESCAL, 2001
) e
dizem se lembrar de algumas imagens, que vão se perdendo
no decorrer da vida com o desuso da memória visual
(SACKS, 1995
).
14 Metade do córtex cerebral é dedicado a visão (SACKS,
1995
) e 70% dos receptores dos sentidos do corpo humano
estão localizados nos olhos (ACKERMAN, 1996
).
15 Os institutos, entidades ou associações especialistas
ao atendimento às pessoas com deficiência visual são os
contextos primordiais para a prática esportiva e o
desenvolvimento do futebol para cegos. Por ser um objeto
social, construto humano e de relações humanas, o
instituto/entidade não fica “imune ao vírus” do fenômeno
futebol. Tanto os entrevistados que nasceram com a
deficiência visual (deficiência congênita) quanto aqueles que
a adquiriram (deficiência adquirida) encontraram no
instituto/entidade um local propício para a prática do futebol
(MORATO, 2007
).
Motriz, Rio Claro, v.17, n.1, p.01-10, jan./mar. 2011
O ídolo no fenômeno futebol
Olha! Ídolo, ídolo, ídolo no futebol de cinco
[futebol para cegos] não... eu não tenho ídolo
assim que eu pude... eu gosto muito, sempre
gostei muito do Ivan da ADEVIBEL, um rapaz
que jogava na ADEVIBEL, pela habilidade que
ele tinha, pelo toque que ele tinha de bater na
bola, os chutes cruzados muito bons. Foi o
único cego que eu vi que fazia peteca
[embaixadas] com a bola realmente, fazia
bolinha (Jog. Fut. Cego 4).
Tais modelos auxiliam a transmissão do
patrimônio da modalidade. Porém, apesar do
reconhecimento existente para com os jogadores
contemporâneos de futebol para cegos, os
entrevistados se negam a referenciá-los como
ídolos, demonstrando uma inferioridade em
relação ao tratamento dado aos ídolos do futebol
profissional. Infere-se que a proximidade entre os
jogadores, o contato freqüente, o pouco tempo de
institucionalização da modalidade16 e a ainda
pequena divulgação pelo restrito interesse
midiático, podem justificar ou, pelo menos,
amenizar esse comportamento.
Os papéis dos ídolos
Os ídolos passam a compor uma nova
condição de vida. Eles se tornam figuras públicas
e carregam a possibilidade imaginária de vitória
de milhares de pessoas. A afirmação de Campbell
(1990
,
p. 13) ao analisar os rituais importantes
para as sociedades pode muito bem ser
associada à condição de ídolo no futebol: “Você
desiste de sua vida pessoal e aceita uma forma
socialmente determinada de vida, a serviço da
sociedade de que você é membro”. Os ídolos
estão a serviço do clã que representam e seu
sucesso ou decadência está intimamente ligado
ao seu desempenho dentro de campo e aos “bons
exemplos” que transmite em sua vida particular.
16 A prática do futebol por pessoas com deficiência visual
teve seu início em meados da década de 1920 na Espanha,
nas escolas e institutos especializados ao atendimento desse
público, como forma de recreação dos alunos (IBSA, 2008
).
No Brasil, existem relatos da prática do futebol desde a
década de 1950, também em escolas e institutos
especializados (CBDC, 2007
). Segundo Fontes (2006)
, os
primeiros institutos nacionais a praticar o futebol para cegos
foram o Instituto Santa Luzia, em Porto Alegre; o Instituto
Padre Chico, em São Paulo; e o Instituto Benjamim Constant,
no Rio de Janeiro. Em alguns casos as crianças com
deficiência visual começaram a praticar a modalidade em
ambientes informais, pela convivência com outras crianças
que não possuem deficiência (ITANI, 2004
). O futebol para
cegos atual tem as regras baseadas no futsal, com algumas
alterações. A International Blind Sports Federation (IBSA),
criada em 1981 na Espanha, gerencia a modalidade e todas
as outras modalidades esportivas para cegos em nível
mundial e o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) em nível
nacional.
Motriz, Rio Claro, v.17, n.1, p.01-10, jan./mar. 2011
Por conta dos recortes e seleções de cenas
relativas ao mundo esportivo, os jogadores que
conquistam o status de ídolo têm a sua imagem
associada a uma série de comodidades, ou
melhor, aquele que chegou à condição de
destaque possui uma vida privilegiada. Apenas
treina para poder se apresentar no momento do
jogo. Ora, quem não queria isso para sua vida?
Esse pensamento é de que o atleta só faz aquilo
e
freqüentemente vincula-se nos meios de
comunicação que é muito mais sacrificante ficar
oito horas sentado num escritório do que ser um
jogador. Assim, a vida do atleta é vista “[...] como
uma sucessão de regalias, facilidades, fama e
sucesso financeiro” (RUBIO, 2001
, p. 175).
Essa é a imagem que as pessoas recebem
quando entram em contato com os ídolos. Assim,
a profissão de jogador de futebol se estabelece
no imaginário social brasileiro. É lá que o sonho
de criança começa a ser cultivado. Os pais
estimulam seus filhos a tentar a carreira, pois
talvez essa seja a única maneira de mudar a
situação financeira da família. É a estrutura social
brasileira,
marcada pela desigualdade que
ressalta o sucesso do jogador, cantor ou artista,
que saiu da infância pobre, da favela, da miséria e
que hoje é uma pessoa bem sucedida. Não é de
se
estranhar que essas pessoas sejam
referências como modelos, já que estão em
evidência pela mídia.
Para enfrentar os inúmeros obstáculos, os
meninos que sonham em seguir a carreira de
jogador de futebol, recorrem a uma série de
estímulos, entre os quais destacamos: a
possibilidade de mudança de vida e com ela
adquirir bens materiais; as pseudo-regalias que
os jogadores possuem; o desejo de jogar entre os
craques e nos melhores estádios; jogar pelo time
que torce; além da presença da figura do ídolo
dentro do processo da construção da paixão pelo
clube do coração.
Ser ídolo é estabelecer uma relação com
aquele que o idolatra. Ou seja, há um
reconhecimento por parte do jogador que ele
esteja na condição de ser idolatrado e por parte
do admirador que o idolatra. Souto (2000
, p. 93)
revela que
[...]
a auto-percepção de cada um muda
aceleradamente quando passa a ter acesso à
região de fundo do universo sagrado e começa
a se enxergar como um dos membros dessa
equipe e a conhecer seus códigos e valores.
7
M. P. Morato, S. S. Giglio & M. S. P. Gomes
Como se auto-percebem os jogadores que
agora ocupam o lugar tão sonhado na infância, o
de ser jogador de futebol e, além disso, assumem
a condição de ídolo?
[...] não me considero um ídolo não. [...] tô no
grupo aqui e sou uma pessoa normal. Acho que
esse negócio de ídolo, acho que seria um
pouco um [...], bastante responsabilidade.
Então, acho que vou fugir um pouco dessa
responsabilidade que ídolo é para as pessoas
aí que já conquistaram um espaço maior no
futebol e eu tô começando agora e pretendo
alcançar isso daí com trabalho e com dedicação
(Jog. Prof. 5).
Essa resposta revela que ser uma pessoa
“normal” o distancia da condição de ídolo. Encara
a condição de ídolo como uma responsabilidade
extrema (vinculada à valores e referências que a
sociedade espera que um ídolo transmita) e, por
isso, o entrevistado prefere a situação de “certo
anonimato”, mesmo sendo o artilheiro da equipe
na época da entrevista.
No caso dos jogadores de futebol para cegos,
o histórico do preconceito para com as pessoas
com deficiência determinou grande parte do
contexto social ao qual eles estão inseridos e
também a discriminação a eles direcionada.
[...] a gente não tem o mesmo prestígio que
eles, mas a gente tenta buscar nosso lugar ao
sol né, então... na verdade a gente não quer ser
ídolo de ninguém. A gente tem nossos ídolos,
nós já temos nossos ídolos próprios, mas a
gente quer nos manter, nos manter humildes
como eles. Já é um bom passo para alcançar
um pouco da glória que todo ser humano
merece. [...] É, por exemplo, a gente não sonha
ganhar um tanto que um Ronaldinho ganha,
mas peraí, a gente pode ganhar pelo menos um
pouquinho. Né, uma, um pouquinho do que, do
que se paga para pessoa que enxerga, né,
poderia se pagar um pouquinho para pessoa
que não enxerga também, né. Não tem mal
nisso, em se remunerar um deficiente, né. Ele
também mostra futebol e... e é um bonito
futebol (Jog. Fut. Cego 2).
Pelo esporte a discriminação tem sido
questionada, pois a deficiência dá lugar à
eficiência; e a limitação à potencialidade. Os
jogadores demonstram sua capacidade e isso
influência o fenômeno e o contexto social,
formando um ciclo que volta a influenciar as
pessoas com deficiência a questionarem a
discriminação e a demonstrarem sua eficiência. O
fato de ser um bom jogador demanda
reconhecimento social e financeiro e não piedade
pela condição de deficiência. Aqueles que
demonstram um bom futebol merecem usufruir da
“glória” imersa na valorização do desempenho.
8
A eficiência demonstrada nos resultados
obtidos pela seleção nacional de futebol para
cegos17 exemplifica o destaque que o país possui
na modalidade. Fazer parte da seleção representa
a possibilidade de reconhecimento pelo que faz e
de tornar-se modelo para futuras gerações. O
reconhecimento dificilmente sai da área do
paradesporto, pela diminuta difusão na mídia,
mas se apresenta com destaque dentro dela.
E hoje eu fiquei muito alegre, antes de ontem
eu fiquei muito alegre quando um menino de
Campos [iniciante no futebol para cegos], ele
chegou para mim falando que é meu fã. Então
isso gratifica, isso te dá uma, uma alegria no
trabalho que você faz, te dá uma força para o
trabalho que você faz, né. (Jog. Fut. Cego 2).
O preconceito que por muito tempo cerceou, e
em alguns contextos ainda cerceia as
possibilidades de convívio e de desenvolvimento
dessas pessoas, deixou marcas e cicatrizes nos
entrevistados, determinando certa repulsa à
diferença de interesse, de investimento e de
tratamento da mídia, dos órgãos gerenciadores e
do público em geral para com a modalidade
esportiva que praticam. Há neste momento uma
inversão de paradigmas em relação ao papel da
pessoa com deficiência no contexto esportivo, já
que ela deixa de ser apenas um “cego que joga
futebol” para tornar-se uma referência.
Considerações finais
Para ser ídolo é preciso ter quem idolatre,
admirando ou imitando suas imagens. Para que a
admiração aconteça é preciso estabelecer
vínculos e no futebol profissional os vínculos
serão maiores quanto forem maiores as relações
dos jogadores com o seu clube e principalmente
com sua torcida.
Seus feitos serão “mostrados” pelos canais
midiáticos e se os vínculos jogador-clube-torcedor
estiverem bem estabelecidos, tais feitos serão
exaltados e sua imagem cada vez mais
valorizada. A valorização é destinada aos grandes
vencedores e aos realizadores de feitos
inimagináveis.
A admiração pelos ídolos passa por duas
fases. Ainda quando crianças veem aqueles seres
humanos como um exemplo de motivação, já que
um dia esperam gozar de todos os seus
privilégios. Quando o sonho de ser jogador de
17 No Futebol para Cegos, o Brasil é tricampeão mundial, em
cinco edições disputadas e bi-campeão paraolímpico, em
duas edições: em Atenas/2004 e Pequim/2008.
Motriz, Rio Claro, v.17, n.1, p.01-10, jan./mar. 2011
O ídolo no fenômeno futebol
futebol concretiza-se, eles passam a observar
outros jogadores para aprender como jogam.
A construção da idolatria entre o ídolo e seus
admiradores, se faz pela relação direta entre os
que acompanharam os passos do ídolo nos
campos de futebol. Se o jogador ficar por muitos
anos defendendo as mesmas cores poderá ser
visto, numa visão romântica, como um jogador
que tem amor ao clube. Se levar o time a disputar
finais e a conquistar títulos, será sempre
lembrado pela felicidade que proporcionou a
torcida.
Como as vitórias e os feitos são dependentes
das categorias tempo e espaço, a idolatria pelos
ídolos acaba tendo um “prazo de validade”.
Assim, a construção da relação entre ídolo e
admiradores é estabelecida, principalmente, por
aqueles torcedores ou aprendizes que o viram
jogar. É essa reposição cíclica que faz com que
novos ídolos surjam em espaços e tempo
delimitados, mantendo viva a paixão e o interesse
pelo futebol e renovando o sonho de seguir seus
passos.
A grande diferença existente entre os dois
contextos investigados repousa nos vínculos
estabelecidos entre jogadores-torcedores-clubes.
Como um dos tripés da tríade é inexistente ou
bem reduzida no futebol para cegos (a torcida é
formada somente pelos próprios associados ou
alunos da instituição/associação/equipe), e o
interesse da mídia para com a modalidade bem
restrita, a construção das imagens quase não
ocorre e quando ocorre recebe valoração inferior
às imagens criadas e difundidas pelo futebol
profissional.
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Esse artigo é fruto de reflexões e diálogos
construídos pelos autores durante a realização de
suas dissertações de mestrado – Vide Giglio
(2007) e Morato (2007) – ambas defendidas na
Faculdade de Educação Física da Unicamp e
financiadas
pelo
Desenvolvimento
(CNPq).
Conselho Nacional de
Científico
e
Endereço:
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Telefone: (19) 8838.1055
e-mail: mpmorato@gmail.com
Tecnológico
Recebido em: 14 de setembro de 2009.
Aceito em: 25 de maio de 2010.
Motriz. Revista de Educação Física. UNESP, Rio Claro,
SP, Brasil - eISSN: 1980-6574 - está licenciada sob
Creative Commons - Atribuição 3.0
Motriz, Rio Claro, v.17, n.1, p.01-10, jan./mar. 2011. O artigo dos autores Márcio Pereira Morato Sérgio Settani Giglio e Mariana Simões Pimentel Gomes
Essa é a "hierarquia sagrada" do futebol. Cada nível separa o talento comum da imortalidade esportiva. Em 2026, com o futebol cada vez mais físico, essas distinções ficam ainda mais claras:
Bom Jogador: É o "carregador de piano" de luxo. Tem disciplina tática, técnica sólida e entrega constância. É o cara que todo treinador quer no elenco porque ele cumpre a função sem errar o básico. Exemplos atuais seriam nomes como Declan Rice ou Gündogan.
Craque: É quem decide o jogo quando a tática falha. Tem um recurso técnico acima da média (um drible, um passe milimétrico, uma finalização impecável). O craque chama a responsabilidade e resolve. Hoje, falamos de Vinícius Júnior, Mbappé e Haaland.
Super Gênio e Gênio: É quem vê o que ninguém mais vê. O gênio e o super gênio não apenas jogam ele dita o ritmo e subverte as leis da lógica em campo. É o jogador que antecipa o lance três segundos antes dele acontecer. Na história recente, Lionel Messi é o maior expoente, e muitos olhos se voltam agora para ver se Lamine Yamal atingirá esse patamar absoluto.
O talento natural no futebol é a combinação de predisposições genéticas e facilidades cognitivas que dão a um atleta uma vantagem inicial no esporte. No entanto, olheiros, cientistas e treinadores concordam que o "dom" sozinho não cria um jogador de elite. O talento bruto funciona apenas como uma porta de entrada, necessitando de lapidação contínua através de treino rigoroso, disciplina e forte estrutura mental.
Pilares do Talento Natural
O que as pessoas costumam chamar de "talento nato" pode ser dividido em três categorias principais:
Vantagem Genética: Fibras musculares de explosão rápida (velocidade), excelente capacidade cardiovascular, impulsão e flexibilidade.
Facilidade Técnica: Coordenação motora refinada que permite dominar, driblar e finalizar a bola com fluidez e menor esforço consciente.
Visão de Jogo Espontânea: Percepção espacial aguçada, capacidade de antecipar jogadas e tomada de decisão rápida sob pressão
Muitos atletas altamente talentosos não alcançam o sucesso profissional devido à falta de fatores comportamentais. A evolução de um jogador exige equilíbrio entre o que nasce com ele e o que ele desenvolve:
Atributo Natos (Potencial)Atributos Adquiridos (Lapidação)Velocidade pura e agilidadeInteligência tática e posicionamentoSensibilidade e controle do toque de bolaForça física e resistência muscularCriatividade e improvisaçãoResiliência mental e gestão de estresseIntuição de posicionamentoRotina invisível (sono, nutrição, treino)
O Ambiente de Desenvolvimento
O talento precisa de um meio correto para florescer. Historicamente, o futebol de rua e a várzea no Brasil atuaram como ambientes de aprendizagem informal e espontânea, estimulando o drible e a criatividade em espaços reduzidos. Hoje, os clubes utilizam sistemas para identificar jovens promissores e inseri-los em metodologias científicas de treino o quanto antes.
Exemplos clássicos como o de Cristiano Ronaldo que a longevidade e a excelência máxima Cevolução, superando o conceito de dom inicial. Lionel Messi foi um genio no futebol . Um idolo mundial constrruido com tallento e aperfeiçoamento.
Confira a noticia no UOL .https://www.uol.com.br/
Outro artigo para o seu contraditório leitor (a).Link:
https://leandroliveiraribeirobConfira os gols oficiais .https://docs.ufpr.br/~
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