domingo, 6 de setembro de 2026

Palmeiras x Bahia. Feminino .

O Bahia é o primeiro semifinalista do Brasileirão Feminino! As Mulheres de Aço venceram o Palmeiras nos pênaltis por 5 a 4,  anteontem , na Arena Barueri, após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar, e avançaram na competição. Os clubes haviam empatado também por 1 a 1 na ida, na Arena Fonte Nova.

Raíssa Bahia abriu o placar para o Palmeiras, mas Dan Nunes deixou tudo igual. A atacante alviverde marcou aos 28 minutos do primeiro tempo, aproveitando passe na medida de Bia Zaneratto. Na segunda etapa, aos 11 minutos, Dan recebeu de Roqueline entre duas marcadoras e finalizou no cantinho de Kate Tapia para empatar.

Nos pênaltis, o Bahia levou a melhor. Gica, Isa Fernandes, Taty Sena, Wendy Rosa e Cássia marcaram para o Tricolor. Do lado alviverde, Bia Zaneratto, Poliana, Fê Palermo e Pati Maldaner acertaram suas cobranças, mas Tainá Maranhão teve a batida defendida pela goleira Yanne.

Dois tempos distintos. As pelstrinas dominaram o primeiro tempo, com maior jogo ofensivo e marcação alta na saida de bola . Na etapa final, as mulheres de aço equilibraram o confronto e chegaram ao gol de empate. 


Clara Lopes Ribeiro

Leila Sanches de Almeida

UM OLHAR SOBRE  

O FUTEBOL FEMININO  

NO BRASIL E SEU LUGAR  

NA PSICOLOGIA

DOI: 10.31560/pimentacultural/978-85-7221-461-2.12

RESUMO:

O futebol é uma grande paixão do povo brasileiro. Entretanto, o impacto 

cultural, econômico e o grande interesse pelo esporte, amplamente 

divulgados na mídia, referem-se principalmente ao futebol masculino 

profissional. Não é dada a devida importância ao futebol feminino. Apesar 

de atualmente vivermos um momento de crescimento da modalidade, 

ainda há muito a se pensar, investir e estudar sobre o futebol de mulheres. 

No âmbito da Psicologia do Esporte, tem havido espaço para esta prática 

esportiva? A partir da condução de um estudo de caso, uma entrevista 

realizada com um acadêmico que atua nessa área mostrou que a Psicologia 

vem trabalhando pela inclusão feminina no futebol. A Associação Brasileira 

de Psicologia do Esporte não apenas reconhece a necessidade de luta pela 

igualdade de gênero no futebol, também a empreende. Contudo, apesar 

da entrada e consequente aumento expressivo do número de mulheres 

praticantes de futebol, o discurso social mantém, de forma velada, 

esse esporte como característico da esfera masculina. É fundamental 

a continuidade e aumento de estudos e ações que visem o avanço e a 

atualização de políticas voltadas para o futebol feminino.

Palavras-chaves: Futebol feminino, Psicologia do Esporte, aspectos 

culturais.

235

INTRODUÇÃO

O Brasil é conhecido mundialmente como o “país do futebol” 

(CALDAS,1986, p. 1). Certamente, este é o esporte mais praticado e 

amado no país, sendo parte fundamental da formação cultural do 

povo brasileiro. Dos times mais populares até os mais desconheci

dos e regionais, o futebol movimenta a vida de milhões de pratican

tes e torcedores apaixonados, que encaram a modalidade como uma 

esfera importantíssima em suas vidas. Entre os futebolistas, inclu

sive, há uma relação de identidade com seus times. Comportamento 

similar também ocorre entre indivíduos que não se definem apenas 

como torcedores de um time, mas sim tomam o time como um dos 

aspectos que o descrevem. Dizem, por exemplo, “eu sou Fluminense”, 

ao invés de “eu torço pelo Fluminense”.

Além da paixão, o futebol destaca sua relevância cultural pelo 

seu efeito econômico. Esse impacto fica claro quando pensamos 

nos investimentos milionários dos grandes clubes brasileiros, com 

compra/venda de jogadores, pagamentos de salários, patrocínios, 

investimentos em infraestrutura, vendas de ingressos e mercadorias, 

entre outras trocas financeiras que movimentam milhões, senão 

bilhões, de reais. Mas a repercussão vai além dos clubes, chegando 

à sociedade como um todo por meio da venda de eventos para tor

cedores, comida e bebida ao redor de estádios e produtos não-li

cenciados, por exemplo.

Entretanto, o impacto cultural, econômico e a paixão pelo 

esporte, amplamente divulgados na mídia, referem-se principal

mente ao futebol masculino profissional. No país do futebol, o futebol 

feminino é constante e historicamente “jogado para escanteio”, não 

lhe é dado a devida importância. Apesar de atualmente vivermos um 

momento de crescimento da modalidade, ainda há muito a se pen

sar, estudar e investir no futebol de mulheres. 

236

Que tal conhecermos o discurso de um psicólogo do esporte, 

e acadêmico, sobre o futebol feminino no Brasil? 

A HISTÓRIA DO FUTEBOL 

FEMININO NO BRASIL

O futebol é um esporte de origem inglesa que chega ao Brasil 

no final do século XIX. Inicialmente, o esporte foi introduzido por 

jovens da elite, que iam estudar na Inglaterra e retornavam trazendo 

consigo a nova modalidade. Charles William Miller, que, ao voltar do 

país inglês, trouxe diversos materiais necessários para a prática do 

esporte, como camisas, bolas e chuteiras, é considerado o pai do 

futebol no Brasil (BROCH, 2021).

Segundo Broch (2021), apesar de ser muito popular atual

mente, o futebol era uma modalidade muito custosa, envolvendo gas

tos com equipamentos e gramados, sendo considerado um esporte 

da elite, praticado apenas por homens brancos e ricos. A prática não 

era permitida a negros, pobres e mulheres, que precisavam jogar 

clandestinamente caso quisessem participar da modalidade. 

Aos poucos, o futebol foi se consolidando e se profissiona

lizando no país. Novamente, no início do processo de profissionali

zação apenas homens brancos poderiam jogar. A popularização do 

esporte se deu a partir da década de 1920, quando pobres e negros 

começaram a ocupar espaço na modalidade, apesar de ainda enfren

tarem muitos preconceitos.

Mesmo com a pequena abertura, as mulheres seguiam impe

didas de jogar futebol. A partir de 1941, inclusive, a proibição deixa 

de ser social e passa a ser legal. O Decreto-Lei nº 3.199 assinado 

por Getúlio Vargas trazia em seu artigo 54 que: “Às mulheres não 

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se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições 

de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de 

Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas 

do país.” (BRASIL, 1941). 

Este Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, assinado 

por Getúlio Vargas, estabeleceu as bases da organização dos des

portos no Brasil e criou o Conselho Nacional de Desportos (CND). 

No entanto, ficou conhecido por ter proibido para mulheres, através 

do Art. 54, a prática de esportes considerados “incompatíveis com 

as condições de sua natureza” (ibid., CAPÍTULO IX), o que incluiu o 

futebol profissional e amador por décadas. 

É importante destacar que o Decreto-Lei, por si só, não espe

cificava quais eram as modalidades incompatíveis com a “natureza” 

feminina. Apesar disso, incluía-se o futebol, visto que era entendido 

como uma modalidade agressiva e violenta, características que iam 

de encontro a uma suposta fragilidade feminina.

Além disso, como mencionado por Dacosta (2006), em 1965 

o Conselho Nacional de Desportos aprovou a Deliberação Nº 7, que 

era mais específica na proibição da prática de algumas modalidades 

por parte de mulheres, incluindo o futebol, futebol de salão e futebol 

de praia, entre outros esportes considerados masculinos.

Apesar dos decretos, grupos de mulheres resistiam à proibi

ção e jogavam clandestinamente de maneira recreativa em campos 

de várzea, nas praias ou em outros espaços não-esportivos. Como 

não existiam campeonatos ou clubes profissionais por muitas déca

das, o desenvolvimento do futebol feminino foi muito prejudicado no 

Brasil (GOELLNER, 2021).

Entre o final da década de 1970 e início da década de 1980, o 

país passava por inúmeras mudanças políticas, influenciando diver

sas esferas da sociedade, inclusive o esporte. Com isso, e a partir de 

238

movimentos sociais e pautas femininas que lutavam pelos direitos 

das mulheres, em 1979 foi revogada a Deliberação Nº 7, que proibia 

mulheres de praticarem a modalidade. Dois anos depois, já era dis

putado o primeiro campeonato feminino de futebol de praia do Rio 

de Janeiro (GOELLNER, 2021).

Em 1983, o Conselho Nacional de Desportos finalmente reco

nheceu o futebol feminino como um esporte legítimo e autorizou sua 

prática, mas com algumas modificações que eram sugeridas pela 

FIFA (GOELLNER, 2021). Ainda nesse ano, foi realizado o primeiro 

Campeonato Carioca de Futebol de Campo Feminino e, também, a 

primeira Taça Brasil de futebol de campo, que foi conquistada pelo 

EC Radar, clube pioneiro no futebol feminino (DACOSTA, 2006).

A partir de então, mais campeonatos foram sendo organi

zados, com a participação de mais clubes e atletas. Além de cam

peonatos nacionais de clubes, uma seleção feminina é formada e 

passa a atuar em competições internacionais. Em 1991 é realizado o 

primeiro campeonato Sul-americano, em que o Brasil foi campeão, 

e a primeira copa do mundo de futebol feminino, em que a seleção 

terminou em nono lugar (DACOSTA, 2006).

O Atlas do Esporte (DACOSTA, 2006) mostra que a década 

de 90 pode ser destacada como um momento de desenvolvimento 

de muitos campeonatos internacionais e, consequentemente, da 

seleção brasileira. É possível citar campeonatos sul-americanos, 

copas do mundo e os jogos olímpicos como os campeonatos mais 

importantes do período. Enquanto isso, campeonatos nacionais tam

bém seguiam sendo realizados. 

No início dos anos 2000 a seleção também participou de 

campeonatos importantes, conseguindo alguns dos melhores resul

tados já alcançados pela seleção feminina até hoje. Destaca-se aqui 

o ouro nos Pan-Americanos (2003 e 2007), prata em duas Olimpíadas 

(2004 e 2008) e segundo lugar na Copa do Mundo (2007), além do 

239

primeiro lugar no Sul-americano (2003), campeonato que já havia 

sido conquistado em outras oportunidades. 

Goellner (2021) aponta que era um momento de muita espe

rança na modalidade por maiores investimentos, desenvolvimento e 

profissionalização. Apesar disso, mesmo com a conquista de tantos 

resultados expressivos, pouco foi feito pelo avanço do futebol femi

nino, e a autora chega a destacar que algumas jogadoras expressa

ram publicamente seu descontentamento com a situação. Entre elas 

estava Sissi, um dos nomes mais importantes da história do futebol 

feminino no Brasil, que não foi convocada para a Copa de 2003 

devido às críticas feitas à Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

Essa foi uma época de muitos protestos por parte das jogado

ras, que destacavam a falta de investimentos e cuidados com a moda

lidade. Na volta da Copa do Mundo de 2007, por exemplo, alguma 

atletas destacaram a preparação inadequada com a falta de amisto

sos, alimentação inadequada ao longo da competição, falta de trans

parência em relação a premiação e demora no pagamento do prêmio 

pela medalha conquistada no Pan-americano (GOELLNER, 2020). 

Em 2004, após a conquista da medalha de prata nas 

Olimpíadas, a CBF prometeu uma série de melhorias e investi

mentos na modalidade. Porém, mais uma vez as atletas apontaram 

que nada foi feito (GOELLNER, 2021). Essas, e inúmeras outras 

situações ao longo dos anos, revelam o descaso da própria CBF, 

órgão que deveria prezar pelo desenvolvimento do futebol no brasil, 

pelo futebol feminino. 

Após anos de denúncias e protestos por parte de atletas e 

torcedoras, aos poucos as confederações passaram a olhar com 

mais cuidado para o futebol feminino. Vivemos atualmente, então, 

um momento de maior investimento na modalidade. Em 2016 a FIFA, 

órgão mais importante do futebol mundial, estabeleceu o futebol femi

nino como uma das áreas estratégicas a ser trabalhada nos próximos 

240

anos. Com isso, as organizações de futebol ao redor do mundo foram 

obrigadas a investir, ainda que minimamente, no futebol feminino. 

A partir da resolução da FIFA, a Confederação Sul-americana 

de Futebol (CONMEBOL), definiu que os clubes que não tivessem 

uma equipe feminina participando de competições nacionais não 

poderia participar, com sua equipe masculina, dos campeonatos 

internacionais (GOELLNER, 2021). Isso recaiu sobre a CBF, que 

implementou que os clubes da série A seriam obrigados a ter uma 

equipe principal e categorias de base femininas atuando em compe

tições. Posteriormente, a obrigação seria estendida às equipes das 

outras séries do campeonato nacional.

Uma pesquisa feita pelo Corinthians (2023), clube de maior 

destaque e investimento no cenário do futebol feminino brasileiro 

e sul-americano, revela que o interesse pelo futebol feminino vem 

crescendo desde 2018. Isso é evidenciado principalmente pelas 

últimas copas do mundo, de 2019 e 2023, que bateram recordes de 

público e espectadores. Além disso, pelas redes sociais é possível 

notar uma maior procura e engajamento em relação à notícias de 

campeonatos, times e atletas do futebol feminino brasileiro e mun

dial (CALDAS, 2002). 

E NA PSICOLOGIA, HÁ ESPAÇO 

PARA O FUTEBOL FEMININO?

Para essa reflexão foi desenvolvido um estudo qualitativo sob 

a forma de estudo de caso único, modalidade de pesquisa que possi

bilita um maior aprofundamento em uma questão, por considerar os 

aspectos subjetivos a ela relacionados.

A coleta de dados foi feita através de uma entrevista 

semiestruturada conduzida a partir dois eixos: o futebol feminino 

241

e a ABRAPESP (Associação Brasileira de Psicologia do Esporte), e 

mudanças na visão social sobre o futebol feminino.

A escolha da entrevista como o instrumento privilegiado para 

a coleta de dados se deu por tratar-se de um procedimento usual 

do trabalho de campo, que propicia ao pesquisador a obtenção de 

informações através da fala de atores sociais (MINAYO, 2014). 

A entrevista facilita o aporte de:

[...] fatos; idéias; crenças; maneiras de pensar; opiniões, 

sentimentos, maneiras de sentir; maneiras de atuar; 

conduta ou comportamento presente ou futuro; razões 

conscientes ou inconscientes de determinadas crenças, 

sentimentos, maneiras de atuar ou comportamentos 

(Jahoda, 1951 apud Minayo, 2000, p. 108).

A seleção do participante do estudo se deu pela Técnica 

da Bola de Neve (BIERNACKI; WALDORF, 1981). Trata-se de um 

psicólogo do esporte que dialoga com a ABRAPESP. Sua par

ticipação nesse estudo foi firmada com a assinatura do Termo de 

Consentimento Livre e Esclarecido. 

A entrevista iniciou-se com sua reflexão sobre o futebol femi

nino no âmbito da Psicologia, em especial na área da Psicologia do 

Esporte. Vejamos, a seguir, um fragmento de suas considerações 

sobre o espaço concedido ao futebol feminino pela ABRAPESP.

[A ABRAPESP está completando 20 anos. Você pode 

comentar se há espaço para o futebol feminino na 

associação e se houve alguma mudança no espaço 

dado a essa modalidade?]

A ABRAPESP já está junta do futebol feminino há bas

tante tempo, bastante tempo. Não é de agora que têm 

representantes [psicólogos]... associados... lá no futebol 

feminino. Por exemplo, ...uma associada no futebol profis

sional e uma associada em uma das categorias de base 

[da CBF]. [...] esse é o tipo de espaço.

242

Vemos que através da ABRAPESP a Psicologia tem conquis

tado espaço para atuar no futebol feminino. Isto, de alguma forma, 

está contribuindo para uma maior participação de psicólogos na 

área do esporte, como parece indicar sua fala a seguir: 

…[Há] uma não-associada, mas também psicóloga do 

esporte, em outra categoria de base, né, em outra idade 

da categoria de base. 

Quanto à existência de mudanças nos últimos anos no 

espaço dado ao futebol feminino, vê-se que a ABRAPESP mantém 

de forma constante o incentivo e a visibilidade dada ao esporte. Já 

o ritmo de aceitação e divulgação dessa modalidade esportiva na 

mídia e na sociedade como um todo caminha em ascensão, porém 

em passos mais lentos. 

[Em sua visão, houve alguma mudança no espaço dado 

a essa modalidade, maior ou menor visibilidade/prestígio, 

por exemplo, tanto na Associação, quanto na sociedade 

em geral, nesses últimos anos?]

Então, na Associação [...] sempre incentivou muito. 

Inclusive, vai ter até um congresso agora em novembro, 

em Petrópolis, o congresso da ABRAPESP, onde a psicó

loga que acompanhou a seleção feminina nessa Copa do 

Mundo estará lá como palestrante. Já para a sociedade, 

eu acho que sim, de uma maneira geral, né? Acho que 

sim, acho que é uma evolução que vem acontecendo. 

Claro que ainda tem que evoluir muito, tem muita coisa 

para acontecer, mas sim. Por exemplo, ainda se vende 

mais notícias de que… Durante a Copa do Mundo, a 

gente teve notícias do soco na cara, lá no masculino do 

Flamengo. Ainda se vende mais esses socos na cara do 

que a Copa do Mundo feminina. Mas eu acho que as 

coisas estão melhorando. Se a gente fizer um compara

tivo, eu acho que sim.

O  destaque de mudanças na ABRAPESP relacionadas ao 

incremento de atividades sobre o futebol feminino é constatada na 

243

menção à realização de um Congresso de Psicologia do Esporte, 

pela entidade, que inclui a temática do futebol feminino. 

Já no que diz respeito à sociedade em geral, o entrevistado 

aponta questões éticas que mostram a dificuldade de uma mudança 

cultural. Entretanto, ele considera que apesar de ainda ser dada visi

bilidade a determinados símbolos de masculinidade pela mídia, tal 

como a “permissão” de agressão física no futebol masculino, pode-se 

perceber um gradual aumento da difusão de eventos relacionados 

ao futebol feminino, tal como a Copa do Mundo. 

DISCUSSÃO 

Cabe aqui uma pequena reflexão, a partir da Sociologia 

Reflexiva, sobre a história do futebol feminino no Brasil e os recortes 

(trechos) apresentados da entrevista realizada, uma vez que Pierre 

Bourdieu (1989) buscava entender um discurso voltando seu olhar 

para o contexto de sua produção e para a história da sociedade. 

Bourdieu (ibid.) considera que o sujeito é profundamente 

atravessado pela sociedade. Suas normas, seus valores, são 

interiorizados ao longo da vida e dão origem a certas formas de 

pensar e se comportar. 

A estrutura social é determinada por relações e trocas que 

existem na sociedade, sejam elas conduzidas com recursos mate

riais, econômicos, simbólicos ou culturais, e resulta em um sistema 

de poder. Diferentes grupos sociais ocupam posições diferentes 

nessa estrutura social devido à distribuição desigual desses recur

sos. Existe, então, uma relação de dominação simbólica, um poder 

invisível que é reproduzido inconscientemente pela sociedade e atua 

de forma a manter certos grupos em posição de privilégio em detri

mento de outros (BOURDIEU, 1989).

244

O futebol é feito por sujeitos e, como modalidade, não está 

apartado da sociedade. Uma vez que tudo que atravessa o sujeito e 

a sociedade atravessa também o futebol, cabe fazer uma análise de 

seu contexto e desenvolvimento. 

A modalidade chega ao Brasil como pertencendo à elite, 

sendo praticada apenas por homens brancos e ricos. A proibição 

da prática por negros, pobres e mulheres mostra claramente uma 

estrutura de dominação social nesse esporte. Mesmo com a entrada 

desses grupos no esporte ao longo dos anos, é notável que a 

posição de destaque dada a homens brancos e ricos permanece. 

Percebemos isso de diversas maneiras, como nos casos de racismo 

frequentes em jogos e a constante desvalorização da modalidade 

feminina, por exemplo.

Desde de que a modalidade chegou ao país, ocorreram 

inúmeras tentativas de coibir a participação de mulheres em jogos 

de futebol. Para isso, foram produzidos discursos, até mesmo ofi

ciais, baseados, em sua maioria, em um controle sexual e moral de 

homens sobre as mulheres. 

Por muitos anos, a proibição existia “apenas” no campo da 

moralidade, mas na década de 1940 passou a ser amparada por Lei. 

O decreto assinado por Getúlio Vargas em 1941 traz alguns espor

tes como sendo “incompatíveis à natureza da mulher”. Em nenhum 

momento foi definido o que é inerente à natureza da mulher. Apesar 

disso, estava estabelecido que o futebol era violento demais, compe

titivo demais, físico demais e, portanto, masculino demais. 

Para a sociedade, e até mesmo para os líderes políticos 

da época, as mulheres eram sinônimos de delicadeza, fragilidade, 

pureza e, acima de tudo, maternidade. Havia, inclusive, a ideia de 

que a prática de esportes “violentos” atrapalhariam a suposta voca

ção feminina para a maternidade. Se é afirmado que existe uma 

natureza feminina que se constitui pela fragilidade, fica permitido o 

245

controle do comportamento da mulher, tanto no que diz respeito ao 

trabalho como às atividades sociais e recreativas.  Há, por meio de 

um discurso oficial, o estabelecimento de um poder invisível, uma 

dominação simbólica (BOURDIEU, 1989) e controle sobre as mulhe

res, que já existiam há muitos anos, mas que naquele momento se 

tornou oficial, legítimo. 

É importante destacar que quando o comportamento feminino 

é naturalizado, através da atribuição das características supra citadas, 

perde-se de vista que, na realidade, ele é consequência de um pro

cesso histórico e, portanto, passível de mudanças (KUHNER, 2005). 

Mas, como já mencionado, as mulheres resistiram a essas 

proibições e grande parte jogava futebol em campos não-oficiais, 

como campos de várzea. Em sua imensa maioria eram mulheres 

pobres e negras. Acredita-se que essas características somavam-se 

aos motivos para a manutenção da proibição, pois havia uma resis

tência à inclusão de grupos tidos como minoritários e invisibilizados, 

fossem mulheres, pobres, negras.

Apesar da proibição, porém, há notícias de alguns jogos 

comemorativos, como uma partida beneficente entre vedetes na 

década de 1950 (DACOSTA, 2006). A existência dessas partidas for

talece a reflexão anterior, visto que as partidas de várzea, com a par

ticipação de mulheres das camadas mais populares, eram realizadas 

em segredo e passíveis de punição se descobertas. Enquanto isso, 

mulheres brancas e famosas, nesse caso as vedetes, por vezes rece

biam o aval para praticar a modalidade, mesmo em frente ao público. 

Ainda nesse sentido, em 1977, quando a prática de futebol 

ainda era proibida às mulheres, o Clube Federal implanta a prática 

do futebol feminino (DACOSTA, 2006). Este é um clube no Leblon, 

bairro nobre da Zona Sul do Rio de Janeiro, frequentado por homens 

e mulheres brancos e ricos. Mais uma vez, uma crítica cabe e se 

intensifica, visto que a prática da modalidade dentro de um clube dá 

246

legitimidade ao futebol feminino, mas apenas para aquelas mulhe

res brancas e ricas, pertencentes à elite social e cultural. Por outro 

lado, as mulheres das camadas mais populares, ainda que o final 

da década de 1970 fosse um período de maior abertura, seguiam 

impedidas por lei de jogar futebol.

A legalização do futebol feminino também merece ser 

analisada. Em 1979, a proibição é revogada. Em 1983, o Conselho 

Nacional de Desportos finalmente reconhece a modalidade como 

legítima, mas sugere algumas mudanças, como redução do tamanho 

do campo e do tempo de jogo, por exemplo, que não foram aceitas. 

Esses fatos mostram que ao revogar a proibição parece haver um 

passo em direção à igualdade de gênero, mas ao serem colocadas 

em questão modificações na modalidade, não se pode perder de 

vista que a ideia de que as mulheres são inferiores aos homens ainda 

atravessa o imaginário social. Apesar do discurso oficial, a suposta 

fragilidade da mulher é mantida em alguma medida na sociedade. 

A reprodução desse discurso perdura até os dias atuais. É fácil 

encontrar críticos do futebol feminino que defendem ideais como a 

redução do tamanho dos campos, de tempo de jogo, das traves, da 

bola, mesmo que essas ideias sejam rejeitadas pelas mulheres que 

praticam futebol e por aqueles que de fato acompanham o desen

volvimento da modalidade. Estes últimos, acreditam que o futebol 

feminino brasileiro pode crescer ainda mais se lhe forem concedidas 

as condições necessárias, como investimentos na formação de base, 

na formação de profissionais para as comissões, boa organização de 

campeonatos, pagamentos justos, entre outras.

Há um poder invisível, que se manifesta através de discur

sos e ações oficiais ou legitimadas socialmente, sustentando a ideia 

de que as mulheres não conseguiriam performar bem nas mesmas 

condições em que homens performam e que, para isso acontecer, as 

condições deveriam ser facilitadas com mudanças na estrutura do 

esporte. Por trás desse discurso, existe a desvalorização simbólica e 

247

material das mulheres, visto que sustenta a ideia de que investimen

tos na modalidade não surtiriam efeitos alguns porque as mulheres 

são naturalmente inferiores. 

A partir da legitimação da modalidade, campeonatos come

çaram a ser desenvolvidos e a participação feminina no futebol foi 

se intensificando, tanto no cenário nacional, quanto no internacio

nal. Apesar disso, mesmo com resultados expressivos conquistados 

pela seleção nas décadas de 1990 e 2000, a modalidade seguia 

sem receber a atenção e investimentos necessários por parte da 

Confederação Brasileira de Futebol, da mídia e do público. 

Apenas em 2016, a FIFA coloca o futebol feminino como uma 

das áreas a serem desenvolvidas, o que inicia um efeito cascata, 

chegando até a CBF. Como resultado, a CONMEBOL institui que os 

clubes só participariam de seus campeonatos internacionais com 

suas equipes masculinas se tivessem equipes femininas. Além disso, 

em 2019, a CBF torna obrigatória a existência de equipes femininas 

em campeonatos nacionais, para os clubes que tinham times mas

culinos disputando a Série A do campeonato brasileiro. 

Apesar de parecer a melhor maneira de incentivar o futebol 

feminino, essa resolução levanta alguns questionamentos. É inte

ressante destacar que essas medidas não foram criadas a partir do 

interesse da CBF pelo desenvolvimento da modalidade, mas sim a 

partir de uma obrigatoriedade imposta por uma organização que 

está acima da mesma no cenário internacional. 

O futebol feminino não recebeu a atenção que merecia por 

parte da Confederação, sendo visto e tratado apenas a partir do 

futebol masculino. Além de obrigar os clubes a terem uma equipe 

feminina em competições e com uma equipe de base, a CBF não fez 

muito mais pelo desenvolvimento do futebol feminino, dando pou

quíssimas instruções sobre como isso deveria ser feito e sobre quais 

condições deveriam ser dadas às atletas. Com isso, muitos clubes 

248

formaram equipes femininas às pressas, sem oferecer boas condi

ções para a prática da modalidade, com instalações de treino e jogo 

muito abaixo ao que era, e ainda é, oferecido às equipes masculinas. 

Por fim, deve ser destacado que, com a entrada forçada dos 

grandes clubes (do masculino) no mundo do futebol feminino, equi

pes tradicionais, históricas e essenciais para o desenvolvimento da 

modalidade feminina acabaram perdendo destaque dentro da mídia 

e, portanto,  investimento. Ao pautar o futebol feminino sob o olhar 

do futebol masculino, a CBF ignora todo um desenvolvimento histó

rico do futebol feminino, que se deu de maneira muito diferente, e as 

necessidades das atletas, que são muito distintas das necessidades 

de um atleta, profissional ou de base, do futebol masculino. 

De acordo com Bourdieu, cabe: 

às mulheres se comprometerem com uma ação política 

[...] que elas saibam trabalhar para inventar e impor [...] for

mas de organização e de ação coletivas e armas eficazes, 

simbólicas sobretudo, capazes de abalar as instituições, 

estatais e jurídicas, que contribuem para eternizar sua 

subordinação (Bourdieu, 2005, Prefácio à edição alemã).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pesquisas e ponderações sobre o futebol feminino brasileiro 

na atualidade são de especial relevância para o alcance e reconhe

cimento desta modalidade como um esporte global, na medida em 

que as mudanças culturais na sociedade ocorrem de forma gradativa.

Apesar da entrada e consequente aumento expressivo do 

número de mulheres praticantes de futebol, o discurso social man

tém, de forma velada, esse esporte como característico da esfera 

masculina. A própria Confederação Brasileira de Futebol reforça 

249

essa ideia ao supor a existência de equipes femininas a partir 

de times masculinos.

Entretanto, a Psicologia vem trabalhando pela inclusão femi

nina no futebol, de modo que o futebol feminino alcance amplo reco

nhecimento e seja contemplado com apoio e fomento. A Associação 

Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP) além de reconhecer 

a necessidade de se lutar pela igualdade de gênero nesta modalidade, 

empreende ações para divulgá-la. O futebol feminino tem espaço 

sempre entre os temas abordados em seus encontros científicos.   

É fundamental a continuidade e aumento de estudos e 

ações que visem o avanço e a atualização de políticas voltadas 

para o futebol feminino.

REFERÊNCIAS

BIERNARCKI, P.; WALDORF, D. Snowball sampling-problems and chain techniques of 

referral sampling. Sociological Methods and Research. v. 10, n. 2, p. 141-163, 1981. 

Disponível em http://smr.sagepub.com/content/10/2/141.short. Acesso em: 01 nov. 2023.

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1989. 

BOURDIEU, P. A dominação masculina. 4ª ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941. Estabelece as bases de organização 

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Ana Clara Lopes Ribeiro

Bacharel em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade Federal 

do Rio de Janeiro.

E-mail: clara.ana.lr@gmail.com 

Leila Sanches de Almeida

Professora Titular do Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de 

Janeiro. Doutora em Ciências Médicas (USP).

E-mail: leilasanches@ufrj.br  

Confira o ranking da FIFA .          https://inside.fifa.com/fifa-world-ranking/women.

 Confira a reportagem na CNN. https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/futebol/estudo-projeta-base-de-fas-do-futebol-feminino-entre-as-5-maiores-do-mundo/

A qualidade técnica no futebol feminino tem evoluído de forma impressionante  nos últimos anos, impulsionada por maiores investimentos, visibilidade e profissionalização. No entanto, a modalidade ainda enfrenta desafios estruturais e históricos, incluindo a proibição da prática em alguns países no passado, que impactaram diretamente o seu desenvolvimento. 

Fatores que influenciam a qualidade técnica

Aumento dos investimentos: A injeção de recursos financeiros tem proporcionado melhores condições de treino, mais suporte tecnológico e estrutura para as atletas, o que se reflete diretamente na melhora da habilidade individual e coletiva.

Visibilidade e profissionalização: O crescimento da audiência e o aumento de patrocínios em grandes competições, como a Copa do Mundo Feminina, contribuem para a mudança de status do esporte e atraem novos talentos.

Evolução tática: A modernização dos métodos dos treinamentos   tem desenvolvido a capacidade das jogadoras de tomar decisões mais rápidas e inteligentes em campo, aplicando as habilidades técnicas em situações de jogo mais realistas.

Diferenças históricas: A comparação com o futebol masculino, muitas vezes injusta, ignora as décadas de desvalorização e falta de apoio que prejudicaram a evolução técnica do futebol feminino em seus primórdios.

Desigualdade estrutural: A persistência da disparidade salarial e de investimento, bem como a menor atenção da mídia em comparação ao futebol masculino, são fatores que ainda afetam o pleno desenvolvimento da modalidade. 

O futebol feminino está em um momento de ascensão global, com um aumento na intensidade e na qualidade técnica do jogo. A expectativa é que, com a continuidade dos investimentos, maior apoio e melhores condições de treinamento, o nível técnico continue a crescer, tornando a modalidade ainda mais competitiva e atraente para o público. 

As mulheres estão jogando um futebol de excetíssimo nível técnico. No Brasil e em nível global.

Confira os campeões de todos os campeonatos de futebol no Brasil e no mundo. No Site campeões do futebol.   https://www.campeoesdofutebol.com.br/competicoes.html

Confira os canais do site campeões do futebol.https://www.campeoesdofutebol.com.br/canais.html

Imagem ; Site Oficial da Federação de História e Estatísticas do Futebol.



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